texto de Davi Caro
Há quatro décadas, entre fevereiro e junho de 1986, a DC Comics lançou, em quatro edições, a minissérie “Batman: O Cavaleiro das Trevas“. Com roteiro de Frank Miller, ilustrada a quatro mãos com Klaus Janson, e colorida pela então esposa do escritor, a artista Lynn Varley, a saga é, hoje em dia, considerada um dos grandes clássicos da história recente da nona arte. E não é por menos: primeiro, por haver ressignificado o homem-morcego em uma época na qual a grande maioria do público menos afeito aos quadrinhos ainda associava o herói, para o bem ou para o mal, ao seriado sessentista protagonizado por Adam West. Segundo, por ter reafirmado o já sólido nome que Miller havia construído para si, após ter passado algum tempo prestando serviços para a Marvel. E, terceiro, porque a HQ (principalmente quando republicada, em formato encadernado) foi parcialmente responsável por popularizar o que viria a ser chamado de “prestige format” – quadrinhos publicados no chamado formato americano, maior, distribuído com prioridade para lojas especializadas, e com papel e acabamento de qualidade superior ao que se comprava em bancas populares. Em suma: “O Cavaleiro das Trevas” ajudou a elevar histórias em quadrinhos ao status de arte, e pavimentou o caminho para o retorno definitivo da faceta mais séria e “adulta” do Batman, em um enredo que narrava os últimos anos de um vingador mascarado que se vê forçado a sair de uma aposentadoria de mais de dez anos, mais violento e implacável do que nunca.
“Absolute Batman”, série mensal iniciada em outubro de 2024 e que, um ano depois, finalmente passou a ser publicada no Brasil via Panini, carrega muito do mesmo espírito conjurado por Miller, ainda que naturalmente distinta. Escrita por Scott Snyder e contando com arte de Nick Dragotta, a HQ faz parte da recente linha “Absolute” da DC, que também engloba publicações voltadas a alguns de seus principais outros personagens, como Superman, Mulher Maravilha e Flash. Em comum, todas possuem a mesma ideia fundamental: reimaginar figuras tão populares e conhecidas sob uma perspectiva completamente nova, rompendo paradigmas, criando novas origens, e estabelecendo parâmetros que reconfiguram as perspectivas no que tange os heróis (e vilões) que os fãs conhecem tão bem. Em nenhum dos casos vistos até agora, porém, esta iniciativa se mostra tão chocante, e tão instigante, quanto a elaborada para o Cavaleiro das Trevas.

Nesta nova realidade, Bruce Wayne não é herdeiro de uma fortuna milionária, provido de uma mansão, um mordomo, e uma caverna repleta de equipamentos. O jovem, que cresceu em uma Gotham City caótica e infestada de criminalidade, pertence à classe média trabalhadora, tendo sofrido o trauma de infância ao testemunhar a morte do pai, um professor escolar, em um ataque a tiros. Isso mesmo – aqui, Martha Wayne sobrevive para ver o filho crescer, cercado de um grupo de amigos leais ao mesmo tempo em que se familiariza com a cidade que deseja proteger, por meio de empregos em construção civil e transporte público. Seus aliados mais próximos, inclusive, também representam subversões da tradição quadrinística: Selina Kyle (conhecida anteriormente como a Mulher-Gato), Edward Nigma (AKA Charada), Oswald “Oz” Cobblepot (o Pinguim), Harvey Dent (outrora visto como o gângster Duas-Caras) e Waylon Jones (reconhecido pelos fãs de longa data como o Crocodilo) são, agora, todos amigos de infância de Wayne, criados na mesma dura realidade urbana da sombria metrópole. Fazendo uso de um arsenal mais “rústico” e menos polido, mas não menos eficiente, Bruce aperfeiçoa suas técnicas de combate ao crime através dos próprios conhecimentos de aerodinâmica e física, criando um uniforme ao mesmo tempo eficiente e amedrontador com toda sorte de truques.
O primeiro arco de histórias, intitulado “O Zoológico”, introduz o leitor também ao remodelado Alfred Pennyworth – que, longe de ser o subserviente mordomo e auxiliar do vigilante em sua cruzada, aqui é apresentado como um experiente agente secreto de elite que surge em Gotham, apenas para se deparar com uma série de brutais confrontos entre o Morcego e a sanguinária gangue liderada por Roman Sionis, o impiedoso criminoso conhecido como Máscara Negra. O objetivo da organização – assassinar o prefeito da cidade, James Gordon (em uma caracterização bem diferente daquela mais conhecida, como o incorrigível comissário de polícia) acaba também dando pistas sobre a agenda secreta de Pennyworth, que envolve o rastreio de uma figura misteriosa com atividades sombrias ao redor do globo: um homem sem nome, conhecido apenas por uma sangrenta ética de trabalho e um apelido – o Coringa, em uma das mais promissoras e drásticas transformações promovidas pela nova publicação.
Mas a exploração de versões alternativas para os antagonistas do Batman é apenas um dos muitos atrativos da nova linha. Scott Snyder não é estranho às revistas do Morcego – tendo conduzido as revistas do personagem a partir de 2011 – e, ainda assim, não haveria pessoa mais qualificada para elaborar o argumento que permeia o primeiro arco do vingador mascarado sob um novo prisma. A maneira com a qual o leitor é reapresentado a um dos mais reconhecíveis heróis da história da Nona Arte deve muito ao desenvolvimento fresco, embora denso, dos personagens conforme o antagonismo esperado dá lugar a uma espontânea familiaridade. E os traços de Nick Dragotta fazem o impensável, ao conceberem uma nova roupagem (literalmente) que já foi agraciada com o status de icônico pelos muitos fãs que a dupla já colecionou. A construção da Gotham vista aqui, embora não se distancie muito – à primeira vista – das representações já trazidas através de diferentes mídias, não se mostra derivativa em nenhum momento; o mesmo se pode dizer dos vilões da vez, com o primeiro inimigo enfrentado (o já citado Máscara Negra) já mostrando uma generosa ruptura do modus operandi do criminoso.

Não é acidental que “Absolute Batman” (cuja terceira edição deve sair, via Panini, ainda neste Janeiro) arrebatou um alto posto em meio às HQs mais vendidas desde seu lançamento internacional. Ao longo de 2025, o quadrinho (que, em inglês, está na décima quinta edição mensal até a publicação deste texto) se manteve consistentemente entre as revistas mainstream mais lidas. E olha que a competição foi acirrada: além da imaginativa “Immortal Legend Batman”, de Kyle Higgins, e da mais “tradicional” “Batman & Robin”, com roteiros de Philip Kennedy Johnson, o ano passado também viu o aguardado lançamento da revista homônima do Morcego, em uma elogiada nova saga sob a batuta de Matt Fraction. Tudo isso enquanto os fãs esperam, ansiosamente, por mais anúncios das futuras aparições cinematográficas do Batman – em “The Brave and The Bold”, com produção de James Gunn e provável direção de Andy Muschietti, e “The Batman II”, de Matt Reeves.
E mesmo assim, uma revista que apresenta uma roupagem completamente diferente (e que, conforme a história se desenrola, não mostra receio em trazer à tona comentários socioeconômicos bastante pertinentes) consegue se sobressair, em grande parte por manter muitas das mesmas ideias que guiaram Frank Miller, há quarenta anos. E é sobre muito mais do que simplesmente cooptar novos leitores, ou sobre chamar atenção para um formato que tem muito a oferecer, a despeito da ressaca de super-heróis da qual o imaginário popular parece sofrer agora. É sobre como é importante compreender, realmente, um personagem, por mais antigo que seja, para criar sem amarras a conceitos engessados. Tudo em prol de uma história desafiadora, instigante, imersiva, estilosa e (com o perdão do trocadilho) absolutamente essencial.

– Davi Caro é professor, tradutor, músico, escritor e estudante de Jornalismo. Leia mais textos dele aqui.