Rodrigo Ogi & niLL: “Artistas independentes acabam ganhando no longo prazo”

entrevista de Fabio Machado

Como é fazer música por conta própria em tempos onde plataformas digitais dominam o ecossistema de tudo que é gravado e tocado ao redor do mundo? Como disputar o que resta de atenção dos usuários dessas plataformas (cada vez mais interessados em conteúdos gerados por IA, por sinal)? Em tempos de brainrot, sociedade do cansaço, tecnofeudalismo e outros bichos característicos desse século, às vezes o caminho para fazer a música fazer sentido de novo é se divertir. Pelo menos é o que pensa Rodrigo Ogi, ao falar sobre “Manual Para Não Desaparecer” (2025), disco lançado com o amigo e parceiro musical de longa data, niLL, em entrevista concedida por chamada de vídeo ao Scream & Yell. “É isso que a gente tem que fazer: ao invés de ficar se pressionando tanto, melhor se divertir um pouco mais”.

Mesmo tratando de temas densos como a passagem do tempo e o atual estado hiperconectado das nossas vidas em temas como “Algoritmado”, “Cartas que Bordam o Tempo” e “O Plano de Cronos”, a diversão também está lá com a imprevisível “Abdul São” (um lisérgico encontro entre OVNIs, bad trip e…Xuxa) ou na dançante “Doze Badaladas”. Tem espaço para tudo, mas o eixo central do disco é decididamente mais filosófico, como aponta a própria faixa-título (que só virou título aos 45 do segundo tempo). Para niLL, mais do que uma metáfora, o nome do trabalho é um ato de sobrevivência: “Tentar não desaparecer em meio ao tempo, porque a gente vive em um tempo muito volátil”.

E o risco de desaparecer como artista em meio ao estado atual das redes e plataformas de streaming é outro risco real, até mesmo para uma dupla que já têm seus anos de experiência no hip hop nacional com suas respectivas carreiras-solo. Ao longo da entrevista, Ogi e niLL falam sobre as estratégias para driblar os algoritmos em tempos tão complexos. Mas também há espaço para falar da amizade, dos temas e caminhos que aparecem em “Manual Para Não Desaparecer”. Confira a entrevista na íntegra a seguir.

Sei que vocês já se conhecem faz um tempo. Vocês já tinham feito trabalhos juntos. Mas queria saber de vocês como essa amizade conseguiu evoluir para uma colaboração em um disco completo. Acho que é uma coisa diferente de um single, de uma coisa que é mais pontual para fazer. Como foi o processo?
niLL: Mano, vou falar para você: quando o Ogi me convidou, foi um desafio e uma realização foda para mim. Como artista, a gente já até conversou sobre isso. Foi uma realização foda. E hoje em dia, depois desse tempo do disco ter saído, depois da gente ter trabalhado assim, eu senti que agora a gente se fundiu meio que musicalmente também, tá ligado? E meio que independente desse álbum, vamos continuar colaborando mais fácil em outros projetos, tanto nos projetos dele, como nos meus, em outras áreas também. Então a gente se fundiu na caminhada mesmo.

Rodrigo Ogi: O lance com o niLL já vem de um tempo atrás, como você mesmo falou. E ele tem um negócio também que é aquela coisa, o santo bate. E o (meu) santo bateu com o dele, sabe? Gosto muito do jeito que o niLL leva a vida, do jeito de ser mesmo, falando dele como pessoa. E aí é bem isso, cara. Esse projeto eu gostei muito de ter feito, me diverti muito no processo. A gente criou aquela sintonia muito boa. E eu já tenho até coisas aqui que eu tenho feito, falando “isso aqui, deixa para o próximo projeto com o niLL”, sabe? “Vou deixar guardado isso daqui, que vai casar direitinho ali, com as coisas que eu tenho produzido aqui também”, sabe? E é bem isso que ele falou. Já tem coisas minhas, solo, que eu vou falar para ele fazer linhas de baixo, tocar alguma coisa. A coisa se fundiu.

niLL: E sabe o que é louco, Fabio? Nesse mundo da música, a gente tem uma jornada, e nessa jornada não são todas as pessoas que a gente soma, querendo ou não, fora da música, na vida mesmo. São pessoas que a gente trabalha musicalmente, são pessoas maravilhosas também, sabe? Mas cada um vai seguir o seu rumo. Mas esse trabalho com o Ogi trouxe a gente mais para perto como pessoa, como ele ter o filho dele que também gosta das coisas que eu gosto, e aí a gente consegue se encontrar no dia a dia e ter essa coleta. Eu acho que o grande lance da música é conectar as pessoas para isso.

Ogi: É. Meu filho tem nove anos e adora o niLL, cara. Sempre fala do “Tio niLL”, sempre. Quando o niLL está aqui, ele fica alugando, perguntando coisas de anime.

Então, eu acredito que o processo criativo tenha sido tranquilo, não? Porque, às vezes, mesmo quando a gente conhece a pessoa, na hora de fazer algum trabalho criativo, cada artista tem um jeito específico de fazer alguma coisa: no caso de vocês, trabalhar uma letra, criar um beat e tudo mais. Vocês acham que a criação do disco foi nessa tranquilidade ou teve alguma coisa que gerou mais debate? Vocês tiveram que contornar alguma questão para conseguir fluir?
Ogi: Cara, foi bem tranquilo. Eu já trabalhei com outros artistas e é bem isso que você falou. Eu sou uma pessoa maleável, mas também eu não quero fazer uma coisa que eu tenha que ficar totalmente desconfortável em um trabalho. E já trabalhei com outros artistas que isso aconteceu um pouco… Que a coisa ficava mais… (pausa) Tinha que acontecer mais do jeito que o outro artista queria, assim. Em várias vezes na minha carreira, isso aconteceu um pouco. Dessa vez, não. Foi muito tranquilo. Ao mesmo tempo que eu cedia, o niLL também cedia e as nossas ideias iam casando, sabe? As músicas que eu pensava que talvez não entrassem no disco, como aconteceu, ele também tinha a mesma ideia e concordava. As coisas que eu achava que não, ele aceitava. Foi a coisa de a gente se testar em territórios que a gente não estava muito acostumado, sabe? Isso rolou. Na minha opinião, foi muito tranquilo.

niLL: Eu também acho que foi sadio, mano. Acho que tem um lance também hoje, que a gente via tudo como um desafio. No desbaratino. Então eu falava: “Isso aqui não é muito a minha praia, mas vamos ver qual é que é. Vai, vamos lá”. E aí foi um desafio que foi sadio. Eu acredito que nesses trabalhos com outras pessoas, o mais difícil mesmo é encontrar um caminho em comum que todo mundo vai ficar confortável, mano. Esse é o maior desafio, tá ligado? Porque as outras partes, eu acho que é muito de ego também, né? Então como nós somos pessoas mais de boa, é mais uma questão de evoluir mesmo. Pensar na evolução. E aí acaba rolando mais fácil.

Arte da capa de “Manual Para Não Desaparecer”, de Rodrigo Ogi e niLL

E falando agora do disco: A faixa título “Manual Para Não Desaparecer” é também a que abre o trabalho. E acho que ela acaba dando uma ideia geral do que vocês vão abordar no disco, em termos de temas e tudo mais. Quando vocês fizeram essa composição, vocês já tinham a ideia que essa faixa acabaria sendo a que daria o nome do disco? Ou foi algo que foi mais do meio pro fim no processo criativo de vocês? Como isso rolou?
Ogi: Essa faixa foi uma das últimas, cara. Se não foi a última a ser feita, acho que ela foi mesmo uma das últimas. Talvez a penúltima faixa que a gente fez. Foi quando o Cravinhos apresentou essa batida pra mim, num dia assim, e eu já mandei pro niLL na hora, e o niLL falou: “Cara, essa base é muito boa, mas acho que ela tem que ter só esse andamento aqui” (porque ela tinha um outro andamento). Aí eu falei: “Cara, também acho. É o andamento que eu mais gostei”. Aí falei com o Cravinhos, que também concordou com a nossa ideia. E aí começamos a trabalhar nela. O título dessa faixa só veio depois que a gente já tinha o título do disco, foi a última coisa a ser encontrada. Nos meus projetos, os títulos vêm sempre aos 45 do segundo tempo. Então, falamos: “cara, essa faixa tem que ser o título”. E o niLL, se não me engano, que teve a ideia: “Não, acho que tem que ser a primeira”. O Cravinhos também concordou que tem que ser (essa) para abrir. E aí, cara, casou perfeitamente.

niLL: Essa faixa aí, ela vem como a cereja do bolo. A gente está criando uma parada épica. E ela tem muito disso, cara. Tanto que ela é bem viva, né? Todo mundo tocando. O sample ali, são vários músicos tocando e tal. E o Cravinhos programou tudo aquilo. E, cara, o nome, ele era do mesmo nível da faixa, velho. Não tinha outro nome pra ela. Não tinha nada melhor pra ela. Era um que foi feito para o outro.

Engraçado vocês falarem sobre essa coisa de não saber se ia ficar no começo ou no final, porque a última faixa, se eu não me engano é “E o Mundo Todo Sorriu”. Acabou sendo um encerramento muito bom que dá um tom de esperança para fechar o disco. Queria saber como foi a composição dessa faixa especial. E como foi a ideia da Roberta Estrela D’alva participar.
Ogi: Então, essa foi uma faixa que o niLL não estava muito confortável. Eu falei: “Cara, confia que essa aqui vai dar bom”. Eu já tinha trabalhado o meu verso e o refrão. Falei de novo: “Confia que vai dar bom”. E ele falou: “Tá bom, então vou”. E aí, no processo, ele foi se divertindo pra caramba quando ele mandou o verso dele. E eu falei: “Cara, ficou muito bom isso”. Ficou muito engraçado, tá ligado? Ficou muito leve.

A Roberta eu já conheço de longa data mas me aproximei dela trabalhando na peça que fizemos esse ano, que é “Avenida Paulista, da Consolação ao Paraíso”, do diretor Felipe Hirsch. É uma peça de teatro que eu, ela e vários outros artistas compusemos músicas. E a Roberta interpretava as minhas músicas nesse espetáculo. Então a gente se aproximou muito. E aí eu falei: “Cara, eu quero fazer (mais) trabalhos com você”.

Eu sempre falava pra ela, algumas coisas eu mostrava, mas a coisa meio que ficava no ar. E aí essa eu mostrei pro niLL e falei: “Esse texto aqui tem muito a ver com a gente”. Porque nossas mães são falecidas, né? E é como se fosse também a vida, o universo conversando com a gente ali. Como se fosse um sonho, um bom presságio. E falei: “Vou chamar a Roberta”. Ela topou na hora, me entregou muito rápido a gravação, interpretando o meu texto ali de forma primorosa. E foi isso. Espero contar com ela mais vezes também, em outros trabalhos, porque ela é muito foda.

niLL: Foi basicamente isso aí mesmo. Essa entra naquelas ideias dos desafios, né, velho? A gente olhava as paradas e falava: “Mano, a gente não se vê cantando isso, mas vamos ver o que acontece se a gente fizer”. E aí deu muito certo, cara. Foi muito legal porque eu gostei muito de escrever essa música. Fazia tempo que eu não me divertia tanto em escrever uma música assim, sabe? E até me fez relembrar que, mano, é isso que a gente tem que fazer: ao invés de ficar se pressionando tanto, melhor se divertir um pouco mais.

Acho que divertido é uma boa palavra porque ao olhar o disco como um todo, o que ficou para mim é que no lado A, a primeira metade, vocês estão numa coisa mais filosófica ali, refletindo sobre uns temas mais cabeça mesmo, né? Toda essa questão de tempo e tudo mais, mas não só isso. E na metade final, tem uma reflexão maior sobre situações pessoais, mas com um clima mais positivo. Tem ali “Derradeira”, “Doze Badaladas”, a própria “E o Mundo Todo Sorriu”, como já falamos. Vocês concordam com esse pensamento? Ou vocês veem a sequência do disco de uma outra forma?
niLL: Concordo, mano, concordo. Eu acho que o nome já traz muito esse fio de esperança, né, mano? (Você) Tentar não desaparecer em meio ao tempo, porque a gente vive em um tempo muito volátil, onde as coisas desaparecem mesmo. Então o nome do título já traz esse fio de esperança e eu acho que essas músicas, elas refletem muitas fases que a gente está vivendo na nossa vida também, tá ligado?

Boa. Mas no meio disso também tem umas coisas ali como “Abdul São”, que para mim é psicodelia pura porque vocês fizeram uma narrativa que junta alienígenas com bad trip, tem o sample do (meme) “Que Show da Xuxa É Esse” que deixou tudo ainda mais memorável. Como que vocês foram criando essa mistura toda?
Ogi: Eu tinha feito essa base há um tempo já, e (pausa pra corrigir) Há um tempo, não; foi assim que o niLL aceitou o convite, no final do ano passado. Tinha rabiscado os versos dela, aí mandei para o niLL ver se ele aprovava, e ele falou: “ Cara, acho foda”. O lance do Xou da Xuxa, aquilo tinha só na minha parte, não era um refrão e sim um complemento da minha rima. Só que o niLL teve a ideia de deixar isso nas duas partes, e foi isso o que coroou, foi a cereja do bolo. E foi isso, cara. Foi divertido o processo de todas as faixas, mas principalmente nessa. Porque é aquele lance que eu sempre tenho dito: eu estou fazendo música hoje em dia justamente por esse processo, essa coisa de se divertir fazendo. A hora que você descobre uma linha e fala: “Nossa, essa linha ficou muito boa”… É como se você estivesse jogando futebol com seus amigos e faz um golaço, tipo: “Nossa, que foda”. Essa faixa aconteceu muito disso. E é isso, eu venho descrevendo uma situação ali que parece uma bad trip, que parece uma viagem, como se eu estivesse em uma alucinação, e aí o niLL traz mais essa coisa para a coisa de abdução alienígena. Então as duas ideias casaram muito, conversaram muito.

niLL: Exato, exato. E quando chegou essa música, quando o Ogi me mandou a guia, era uma época em que estávamos assistindo muito conteúdo sobre ufologia – eu gosto muito e tinha descoberto um conteúdo muito foda sobre ufologia. Então foi coisa de louco, caiu bem no mesmo momento, foi de louco mesmo.

Outro destaque é “Algoritmado”, porque tem essa descrição das nossas vidas com o celular, rede social, com uma visão mais crítica. Ao mesmo tempo – estava até conversando isso com o niLL antes do Ogi chegar – notei que vocês usam muito bem as redes, com vários vídeos usando cortes de entrevistas e outros formatos. Também vi que vocês lançaram os visualizers de todas as faixas no Youtube; de certa forma, vocês também têm uma visão estratégica das redes. Então, como vocês trabalham esse equilíbrio de conviver com o algoritmo e não se deixar levar totalmente por ele?
Ogi: Isso tem acontecido agora comigo nesse disco (de fazer esses cortes cantando) justamente porque a gente é independente. Não tem investimento nenhum, é tudo “nós por nós”. A única maneira que encontramos da música acabar chegando mais longe é fazendo esses cortes, tendo que ceder a esse lance impositivo das redes sociais, que é você ter que ficar produzindo conteúdo. Caso contrário, talvez demorasse mais para chegar nas pessoas, ou então até não chegasse. Porque, por exemplo, no meu lançamento anterior, o “Aleatoriamente” (de 2023), eu tenho 90 e poucos mil seguidores no Spotify.

No primeiro mês, o Spotify entregou somente para 6% dos meus seguidores, é muito limitado. Tinha gente que vinha falar sobre o disco meses depois de ter saído. Com esse lançamento e com esses vídeos, as pessoas estão chegando. Tem gente vindo falar: “Não sabia que tinha saído, vou lá conferir”. Ou então: “Estou ouvindo muito, agora vou ouvir de novo”. Está dando um resultado de alcance, que é o que a gente precisa, como eu disse antes, por sermos artistas independentes.

Então, é tudo nós por nós. Eu sempre fui de postar muito pouco (em rede social), por isso que talvez meus seguidores fiquem congelados. Perco muitos seguidores ali, porque é uma coisa que realmente, quando você fica muito ali, acaba entrando, sendo contagiado e adoece mesmo, sabe? Eu tenho percebido uma coisa entre os meus amigos, nas conversas que a gente tem: está todo mundo muito cansado. E esse rolar de telas, essa coisa de ficar sempre ali que deixa cansado, porque é muita informação que o seu cérebro acaba recebendo. Então, o lance de dosar, por exemplo: fazer os vídeos, como eu e o niLL temos feito, e depois deixar aquilo ali. Não ficar conferindo, não ficar em cima, porque senão você acaba ficando drenado e entrando na pilha de tudo. É mais ou menos isso.

niLL, você sente a mesma coisa que o Ogi falou com relação à entrega de conteúdo de um disco? Às vezes, lançar e daí só 10% dos seguidores sabem que o álbum saiu. Da sua parte, você enxerga aquilo mesmo?
niLL: Sim, cara. Observamos isso, essas mudanças, desde 2016, 2017. E nessa época, era simplesmente lançar o trabalho, divulgar ali, que ele chegaria. Não precisava fazer malabarismo nenhum. Se você pudesse impulsionar, melhor ainda, ia ser o paraíso na Terra. E a gente foi vendo que, a partir de 2019 e 2020, as coisas começaram a ficar mais estranhas e mais estreitas. Atualmente, 2025, o algoritmo já tem um sistema. Ele já consegue compreender muitas coisas. Se você postar o flyer do evento, qualquer evento que seja, ele já breca o alcance, já vê que é panfletagem. Se você fizer um vídeo falando isso, isso e tal, ele breca também, porque sabe que é panfletagem. Então, se você posta a capa do álbum, (o algoritmo) está entendendo que é uma arte, então ele entrega de uma tal forma. E aí, mano, a gente vê que a comunicação tem que ser feita de outra maneira. Tem que ser feita de outra maneira para chegar a música na galera, porque, como o Ogi falou, uma frase muito impactante: é isso, a gente é independente, não tem jeito. Se não bolar algum plano, não vai chegar. Não vai chegar, tá ligado? Não dá para esperar milagre, não.

Ogi: Porque é aquilo, esse trabalho, mesmo a gente postando esses vídeos, não é garantido que vai ter retorno disso. Então, é ao mesmo tempo que você está trabalhando para o dono da plataforma, de graça, sabe? Porque com aquilo, ele vai receber, ele vai ter o lucro dele na hora. E uma coisa que eu vi, tem um livro que fala sobre isso que já estou atrás para ler, mas que eu li algumas outras coisas assim, que é o “Tecnofeudalismo” [nota do redator: muito provavelmente é “Tecnofeudalismo : O que Matou o Capitalismo”, de Yanis Varoufakis, economista e ex-ministro das finanças da Grécia). Que é esse lance de você estar trabalhando ali para o dono dessa plataforma, ele vai lucrar na hora que você posta o vídeo ali, e você não. Pode ser que esse vídeo viralize e isso te traga retorno, ou não; então você fica ali o tempo inteiro, que é o que todo mundo está fazendo o tempo inteiro, não só na arte. Eu vejo dentistas fazendo isso, cabeleireiros fazendo isso, todas as profissões estão fazendo isso, para poder atrair público para o seu negócio. Não é garantido, não é uma garantia, você fazendo isso não é garantido que você vai ter retorno, sabe?

É como o niLL falou, o algoritmo entende se você colocou um flyer ali. O que o algoritmo quer que você faça na plataforma? Que você impulsione. Quer que você coloque dinheiro para aquilo chegar, se não colocar dinheiro, não vai chegar, não vai chegar. Não tem jeito, até para os seus próprios seguidores, não chega, sabe? Às vezes você coloca um flyer de um show seu e o algoritmo não entrega, quando você vê tem 100 curtidas, sabe? E você tem às vezes 100 mil seguidores, entende? É feito justamente para você ficar alimentando aquilo tudo ou então impulsionando com dinheiro.

E é desgastante também, é uma coisa que vai te deixando mais desgastado, mas infelizmente agora eu vejo que é a única saída que a gente tem. Eu gostaria muito que as coisas voltassem no físico, tipo que nem CDs, assim. Tinha épocas que eu, no “Crônicas da Cidade Cinza”, meu primeiro disco (2009) e no “RÁ!”, meu segundo disco (2015), que eu vendia 300 cópias por show e abastecia as lojas de disco da galeria com o disco. Então, mil cópias eu vendia em um mês, sabe? E o dinheiro que eu investi voltava para mim. A plataforma de música te paga centavos por milhões de views. É muito desigual, entende? Então é um lance que eu acho que a gente precisa encontrar saídas para a coisa andar. E não ficar na mão dos caras como está hoje, sabe?

niLL: E sabe o que eu vejo também, mano? Tipo assim, para artistas que criam, tem um trabalho e uma caminhada sólida, como o Ogi, como eu também, esse formato de conteúdo eu diria que é um ás na manga, tá ligado? É um coringa no baralho. Por quê? Olha o tanto de música que a gente tem e olha o tanto de vídeo que a gente já fez, então, é meio discrepante. Então tem muito conteúdo para gerar ainda. Muita chance para utilizar. E outra, volto a dizer, é um coringa. Por quê, mano? A hora que as pessoas chegam nesse conteúdo, seja cantando uma parada mais na zoeira e tal, a hora que a pessoa chega ali, vai mergulhar mais fundo e aí tem muita coisa para encontrar, tá ligado? Encontra os álbuns (da discografia), encontra as entrevistas, e é aí que a gente ganha, no longo prazo. Como diz aí, os artistas que têm essa sua caminhada, que trabalham de uma maneira independente, acabam ganhando no longo prazo, tá ligado?

Ogi e niLL apresentam “Manual Para Não Desaparecer” ao vivo em show no Sesc Ponpeia, em São Paulo, dia 5 de fevereiro

– Fabio Machado é músico e jornalista (não necessariamente nessa ordem). Baixista na Falsos Conejos, Mevoi, Thrills & the Chase e outros projetos. 

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