entrevista de Alexandre Lopes
Tudo começou de maneira prática: músicas escritas ou apresentadas em encontros informais, demos circulando entre os integrantes e decisões tomadas em conjunto. Pode soar como um caminho óbvio e corriqueiro para uma banda, mas era justamente esse processo que os membros da paulistana Undo sentiam falta e buscavam retomar. Formada por rostos conhecidos do rock nacional, o grupo se estruturou a partir dessa troca de ideias até se materializar em um álbum de estreia homônimo – lançado em novembro pela ForMusic – que já apresenta uma linguagem clara, tanto no estúdio quanto no palco.
Juntos, André Frateschi (vocais), Rafael Mimi e Johnny Monster (guitarras), Rafael Garga (bateria) e Dudinha Lima (baixo e produção) constroem um som que articula referências aos anos 80 como pós-punk, sintetizadores e beats eletrônicos que convivem perfeitamente com guitarras angulares e bateria acústica, criando um equilíbrio entre máquina e execução orgânica com um certo tempero contemporâneo.
Singles como “Coração Selvagem”, “Volta Aquela Cena”, “Porcos Não Olham Pro Céu”, “Aprender a Perder” (uma parceria com Leoni), “Melodrama” e o clipe mais recente “Músculo Novo do Medo” ajudam a delimitar esse território, enquanto a participação de Dado Villa-Lobos (com quem Frateschi dividiu o palco nos últimos anos cantando as canções da Legião Urbana) em “Kill Billy” amplia o diálogo entre gerações sem deslocar o foco do projeto. O álbum se sustenta menos nas participações e mais na coerência interna do repertório.
Nesta conversa com o Scream & Yell, os integrantes contam como a banda surgiu, o processo de composição e a decisão de formar um grupo de rock neste momento, encarando o início não como retorno ou ruptura, mas como continuidade de diversas trajetórias que agora se encontram em um mesmo projeto.
Ouvindo o disco, percebi que tem uma grande presença de sintetizadores. Como vocês pretendem transpor esses sons para o palco? São bases pré-gravadas?
André: É, a gente já gravou esses synths que a gente achou que tinham que fazer parte do disco e usá-las ao vivo. A gente gravou e aí o Garga solta para nós…
Dudinha: Na verdade, essas são as mesmas bases das coisas que a gente gravou no disco. A gente gravou os sintetizadores, que foi meio a parte final, porque são instrumentos que a gente não tem um outro integrante fixo tocando. Só que o Mimi é tecladista, eu toco também, o André tem umas ideias, a gente junta tudo, faz uma base com esse “rejunte” e toca ao vivo com a mesma característica do fonograma.
A faixa de abertura, “Ninguém”, me parece ter bastante efeitos eletrônicos. Vocês tiveram que rearranjar ou segue mais fiel ao disco mesmo?
Dudinha: A origem de “Ninguém” é muito da demo dela. A demo foi feita com bateria eletrônica e a gente estava gostando da onda assim. Então a gente “envenenou” a base eletrônica. Você ouve que tem uma bateria eletrônica com delay, com alguns efeitos. Mas acho que o que dá essa característica é isso e aqueles synths que entram no refrão, que também fizemos no estúdio e colocamos na base pra tocar ao vivo.
Johnny: A ideia ao vivo é somar: a gente tem os timbres de caixa, bumbo e os synths do disco, e no ao vivo soma o instrumento acústico, a bateria. Então o que a gente ouve no show é a soma dos dois. Mas a ideia é esse eletrônico ser bem presente pra realmente remeter ao disco, até porque “Ninguém” não tem bateria “de verdade” ali, é só eletrônica. Aí no show soa até um pouco diferente, com mais corpo, porque tem a bateria acústica somando.
Pelo pouco que vi do final do ensaio de vocês, mesmo as músicas mais calmas ficam mais “corpulentas” ao vivo. Isso é intencional?
Dudinha: É bom, é o ideal. Tem uma pressãozinha extra ao vivo. Mas a gente ainda está acertando o som, é diferente de onde a gente for tocar. Sempre que a gente vai ensaiar, a sensação é diferente do que quando você está num palco. É outro som. Então a gente está sacando como as músicas soam ao vivo…
Mimi: Mas, de fato, ao vivo, pra gente tocando junto, inevitavelmente tem mais energia. São cinco pessoas botando tudo de uma vez, bem diferente de criar no estúdio, que você vai fazendo uma coisinha ali, somando aqui.
André: Eu acho que é uma característica da banda: a gente tem as referências eletrônicas, mas todo mundo é muito de palco, a gente é filho do rock mesmo. A gente tem essa coisa de estar no palco e ter uma energia. Então, por mais que a gente tente ser “cool”, a gente não consegue (risos), porque tem um sangue que vem na veia e acaba resultando nessa mistura, que eu acho que é a cara da banda: um pouco dessa coisa do eletrônico, das referências oitentistas e pós-punk e, ao mesmo tempo, essa característica sanguínea no palco, do ao vivo.
Eu preciso perguntar: o nome da banda é “undo” com a pronúncia em inglês de ‘desfazer’ ou em português?
André: A gente já passou por algumas situações por causa disso (risos). A gente decidiu que é Undo [em português] agora. E é bom pensar que é o “mundo” que já perdeu o “m” e estamos nesse passo de desmantelamento mundial. Ao mesmo tempo, a coisa do ‘undo’ [desfazer em inglês] é muito presente na filosofia da banda. É um pouco esse “desfazer” desses tempos que a gente está vivendo, tão atropelados de informação, de tantas coisas caindo sobre nossas cabeças o tempo inteiro. É no sentido de desfazer, de retomar uma outra experiência. É duro falar isso sem parecer velho (risos), mas acho que isso é, de alguma maneira, vanguarda: desfrutar da parada, do prazer estético, desfazer esse automatismo de tanta coisa que vem caindo sobre as nossas cabeças. Então é uma junção dessas duas coisas.
E como surgiu a banda? De quem partiu a ideia de juntar o time todo?
Johnny: Eu acho que Mimi e o André começaram a esboçar a ideia da banda, eles tinham alguns rascunhos, umas demos deles.
Mimi: Foi meio isso, sim. Eu já fazia bastante show com o André em outro projeto e estava a fim de voltar a compor, fazer coisas novas. E ele foi a primeira pessoa que eu pensei em chamar. Falei com ele, ele topou na hora. A gente começou a rabiscar e logo na sequência já veio o Johnny, depois o Dudinha e depois o Garga. Aí formamos a banda e começamos a trabalhar no disco mesmo. Foi tudo muito rápido.
E como surgiram as composições? O André já tinha letra, você tinha bases? Como foi?
Johnny: A gente fez no apartamento do Mimi, que tem uma vista muito privilegiada de São Paulo. A gente fez algumas tardes de encontros lá, muito inspiradas, muito mágicas. Faz tempo que eu não sentia uma coisa assim, de fazer na hora mesmo. O Mimi propunha uma base, eu propunha um acorde, “ah, trouxe uma coisa aqui”, e o André, com o caderninho dele, em silêncio, deixando rolar, sem muito roteiro. Foi bem bacana, “free”…
André: Foi ao mesmo tempo com uma fragilidade interessante, uma entrega ao momento que eu já tinha perdido na vida. É algo que eu vivo de outra forma quando faço meus trabalhos como ator, mas ali tinha uma entrega nossa, dos três, muito renovadora. Aí a gente meio que estabeleceu esse nosso esquema de composição que queremos manter: esse núcleo que sou eu, o Mimi e o Johnny. E a gente deixa o Dudinha, que é nosso grande produtor, para ouvir depois. Depois que a gente tem alguma coisa esboçada, alguma ideia mais adiantada, ele entra. O Garga não participou muito da composição dessas primeiras músicas, mas já começou a participar da nova leva que vai sair.
Dudinha: Quando eles me mandaram, achei que já tinha uma onda muito forte. Eu ouvi e falei: “Pô, já tem um conceito, tem um caminho, um timbre, uma onda aqui”. Aí o trabalho foi ir pro estúdio junto. Como eu estava com o ouvido mais fresco, fui sugerindo: “E se a gente mudar esse acorde? Se a gente repetir essa parte? Se repetir esse refrão? E se fizer uma introdução? Se a gente botar um timbre assim, ou assado?”. A gente foi trocando essas ideias e, contando com a química e gostos que cada um tem, chegou num resultado rápido, pela afinidade.
Mimi: Uma coisa engraçada que lembrei agora é que, nos primeiros dias, o André falou sobre a vergonha que a gente tinha de mostrar as coisas um pro outro. Tipo: “Pô, tá meio tosco, não sei se tá legal…”. É mostrar uma vulnerabilidade, né? É tipo aquela primeira vez que você tá conhecendo uma pessoa e fica com vergonha.
André: Como se fosse a primeira vez de cueca na frente da pessoa, um pouco essa sensação assim (risos).
Pela forma que vocês falaram, parece até quando a gente tem 15 anos e está com receio de mostrar os primeiros rascunhos de canções…
Mimi: Mas esse é o sentimento que permeia mesmo! Só que com 15 anos você ainda não tem tanta vergonha, porque ainda tá se formando…
Dudinha: Agora, quando você já é uma pessoa com histórico, uma caminhada, e tem que abrir uma coisa íntima que você não sabe como vai ser recebida… Ao mesmo tempo, eu sentia convicção nas ideias. Por isso que eu gostei. Eles talvez estivessem inseguros, mas eu sentia que havia convicção, uma certeza. Acredito muito nisso: se o cara tem uma ideia musical e faz com convicção, seja um riff de uma nota, um refrão simples, ele convence. Mas o cara precisa acreditar.
André: E acho que a beleza de fazer uma banda nessa altura da vida é justamente essa. Ninguém “precisava” montar uma banda de rock agora, a gente podia estar cada um na sua. Mas, pra nós, a beleza de estar vivo e ser músico é isso. Então a gente se enfiou nessa roubada e está adorando! (risos)
Vocês já tocaram em vários projetos, têm trabalhos solo… O que vocês estão tirando de diferente dessa experiência com a banda?
Dudinha: Eu acho que tem uma coisa legal de banda que é o exercício da democracia na hora de criar. Na hora de fazer a parada, vamos ouvir as ideias de todo mundo. “Tô com uma ideia aqui.” “Tô com outra ideia ali.” Qual é melhor? Qual funciona mais? A gente tem a maturidade de distinguir isso e essa é a parte boa de não ter 15 anos (risos). A gente chega num consenso em algum momento. Às vezes tem que abrir mão: “Quero regravar um negócio.” “Mas tá bom.” “Não, mas eu quero regravar.” “Então vamos regravar.” Esse exercício de estar aberto à interação entre a gente eu acho muito bacana.
Ouvindo o disco, tem muita coisa oitentista, uma vibe retrô, mas na produção também eu consigo enxergar umas referências a bandas mais atuais que procuram essa estética. Eu pensei em algo meio Arctic Monkeys, por exemplo. Isso foi pensado ou o som pediu?
Dudinha: Cara, acho que foi uma parada meio natural. A gente já ouviu muito som junto, por se conhecer, então mais ou menos entende o universo um do outro. Não teve aquele momento “vamos fazer uma parada meio X ou Y”. Vieram as músicas e, com elas, a gente pensou: “Que tipo de verniz vamos passar? Que tinta vamos usar aqui? Que timbres vamos escolher? Como timbrar isso?”. Foi um trabalho de achar as texturas certas. E automaticamente, como a gente tem essa biblioteca de influências, aparecem esses timbres: coisa com chorus que é bem anos 80, bateria eletrônica que é anos 80, baixo com fuzz que é legal, spring reverb que lembra Arctic Monkeys pra caramba… Fica esse universo vasto, mas com uma onda.
André: É consequência do que a gente ouve também, né? A gente cresceu ouvindo coisas velhas, mas tem um monte de banda nova que a gente ouve. O Johnny é um pesquisador de bandas novas, tinha programa de rádio, então ele compartilha essas referências com a gente. É esse exercício de estar sempre procurando coisas novas. Aí você conhece uma banda nova, vai ver entrevista dos caras e eles têm as mesmas referências que a gente: Depeche Mode, The Cure, etc. Acho que tem essa onda de um monte de banda de rock resgatando timbres oitentistas.
Dudinha: A própria Dua Lipa faz um som totalmente oitentista e, ao mesmo tempo, moderno pra caramba.
André: Eu tenho uma sensação, talvez porque a gente esteja atento a isso, de que o mundo está chamando os roqueiros de volta pra cena. O mundo anda muito fascista, né? Tem uma onda fascista no mundo inteiro. E eu acho que o rock é a linguagem mais adequada pra ser uma voz contrária a isso. Por isso a gente tem visto tanta banda nova interessante surgindo, bandas consagradas lançando discos relevantes de novo depois de muito tempo, e grandes artistas pop bebendo muito na linguagem do rock. Acho que ainda é o começo, mas sinto uma mudança de placa tectônica: talvez venha por aí uma onda mais forte do rock pelo mundo, não só no Brasil.
Então, qual é o plano agora da Undo? Vocês lançaram o disco, pretendem fazer turnê?
André: A gente está atrás. Nossa batalha diária é essa: conseguir marcar o maior número de shows possível. A gente já fez algumas aberturas de show, que é um caminho interessante, e estamos tentando entrar em festivais. Mas é essa batalha louca que parece que a gente tem 15 anos de novo: começar tudo de novo, ir atrás, ficar ligando, tomando “não” e vácuo todo dia! (risos)
Garga: “Gente, contrata a gente, chama a gente pra tocar, a gente vai!”.
André: Eu garanto que a experiência vai ser maneira! (risos)
– Alexandre Lopes (@ociocretino) é jornalista e assina o www.ociocretino.blogspot.com.br.
Há tempos não me empolgava tanto com um álbum de estreia como esse do Undo. Resgatou em mim, o prazer de ouvir e me apaixonar uma banda, igual a quando a música passou a ser algo essencial em minha vida. Além de marcar um momento emblemático na minha jornada. Atualmente é a minha trilha, especialmente por estar descobrindo o “Prazer em Recomeçar”… Vida longa a UNDO!!!