entrevista de Lucas Vieira
Em 2018, Leandro Menezes abriu uma conta no Instagram com o nome de “LP Todo Dia” (@lptododia). Professor, escritor e colecionador de discos de Goiânia, Leandro criou o endereço virtual para compartilhar sua coleção de discos e suas memórias e, de lá pra cá, indicou mais de 1.600 vinis, incluindo clássicos, novidades e raridades de diversos estilos e países. A convite da editora GarotaFM Books, Menezes selecionou discos para compor o livro “LP Todo Dia – Diário de um Colecionador para Colecionadores” (2025).
No livro “LP Todo Dia”, Leandro Menezes compila 365 itens de seu acervo que são apresentados em textos que misturam informações históricas, curiosidades, análises críticas e depoimentos sobre sua relação afetiva com os álbuns. De leitura fácil, a obra permite que os leitores mergulhem em suas páginas escolhendo por onde começar – seja ao lado da vitrola, do CD player ou de um aplicativo de streaming.
Com prefácio assinado por Beto Bruno, vocalista da banda Cachorro Grande e seguidor da “LP Todo Dia”, e organizado como uma agenda, o livro tem obras escolhidas para cada dia do ano, relacionando fatos históricos com a indicação, como aniversários de artistas, data de lançamento dos discos, acontecimentos políticos e culturais. “É uma obra que combina a paixão pelo objeto artístico (o álbum) com uma reflexão contextualizada sobre a vida e a cultura”, pontua Leandro na conversa abaixo.
No bate papo, Leandro ainda aprofunda como estruturou o livro, explica a importância dos pontos físicos, como lojas de discos e sebos, e critica o encarecimento significativo dos discos de vinil nessa “ressureição” do formato: “O mercado de vinil testemunhou um retorno exponencial (…), mas extremamente valorizado (…) tornando a aquisição de LPs menos acessível e mais especulativa”, observa o colecionador.
Leandro Menezes irá lançar “LP Todo Dia – Diário de um Colecionador para Colecionadores” (que pode ser adquirido online no site da GarotaFM Books) em três datas: dia 09/12/25, a partir das 19h, na Casa de Francisca, em São Paulo; no dia 11/12/25, no Sebo Baratos (R. Dezenove de Fevereiro, 90 – Botafogo), no Rio de Janeiro; e dia 20/12/25 no Rensga Café (R. C-264, 300 – Nova Suíça), em Goiânia. Leia abaixo a conversa na integra.

O que motivou você a criar uma página para falar da sua coleção?
Ela foi catalisada por uma confluência de eventos significativos em minha vida, em um recorte temporal que abrange de 2017 aos dias atuais. Momentos como o falecimento do meu pai, o período de confinamento da pandemia e o nascimento da minha filha, trouxeram à tona uma profunda necessidade de reflexão. O lazer e o refúgio, para mim, manifestam-se de forma privilegiada no ato de ouvir música em vinil em minha sala. Essa prática desperta uma reminiscência afetiva, reportando-me, de maneira quase psicanalítica, a diversos momentos e fases da existência. A página surgiu como a materialização desse processo interno: uma forma de transformar a introspecção e a vivência analógica em postagens diárias no Instagram, compartilhando o diálogo entre a música e a memória.
O que te fez querer transformar essas histórias em um livro?
O desejo de transformar as postagens em um livro está intrinsecamente ligado à reflexão sobre o caráter da permanência e da eternidade. Uma vez que reconhecemos nossa natureza passageira e o ciclo inevitável do fim, a escrita e a publicação emergem como um meio de superação da finitude, uma forma de deixar um vestígio, de permanecer. Por princípio, busco materializar em formato livro todo o material que produzo e que julgo possuir relevância duradoura. Neste caso específico, a motivação adicional foi a vontade de produzir, pela primeira vez, uma obra que se desvinculasse do meu habitual ambiente acadêmico, explorando um registro mais pessoal e direto de interlocução com o leitor.
O que os leitores vão encontrar no seu livro?
Espero ouvir/ler esta resposta deles, mas acredito que encontrarão um panorama que cruza crítica política e a cotidianidade, permeado por elementos de humor e narrativas inusitadas. A estrutura se baseia em análises depuradas de informações sobre os álbuns, sustentadas por dados empíricos e uma cuidadosa adequação temporal com os respectivos dias do ano selecionados. É, portanto, uma obra que combina a paixão pelo objeto artístico (o álbum) com uma reflexão contextualizada sobre a vida e a cultura.
Qual foi a parte mais legal de fazer o livro? E a mais difícil?
A parte mais gratificante do processo foi, sem dúvida, a oportunidade de revisitar criticamente as histórias e as memórias afetivas ancoradas em cada vinil. O ponto de maior complexidade e desafio residiu na curadoria do material. Tive que selecionar rigorosamente 365 textos a partir de um acervo inicial de mais de 1600 escritos, além de enfrentar o desafio de encaixar, de forma lógica e coerente, cada álbum no seu respectivo dia do calendário ao longo de um ano.
Seu livro traz 365 discos, o que dá um disco por dia ao longo de um ano regular. Se fosse um ano bissexto e você pudesse incluir apenas mais um LP, qual seria?
“Hi, How Are You: The Unfinished Album” (1983), de Daniel Johnston – . Escrevi uma resenha sobre ele apenas depois do livro finalizado!
Desde que você começou a página até o dia de hoje, o que você sente que mudou no mercado de LPs e no colecionismo em geral?
O mercado de vinil testemunhou um retorno exponencial, consolidando-se como um formato de nicho, mas extremamente valorizado. Contudo, essa ressurreição veio acompanhada de uma carga fetichista excessiva. Tal indústria da cultura, infelizmente, resultou em um encarecimento significativo de todo o processo que rege a lógica do colecionismo, tornando a aquisição de LPs menos acessível e mais especulativa.
Assim como a sua obra, os sebos unem discos e livros. Qual a importância desses espaços na sua opinião?
A importância dos sebos e livrarias de rua é monumental. A sobrevivência desses espaços se configura como um ato de resistência cultural frente ao princípio de ‘Amazonização’ dos mercados de discos e livros, e não me refiro apenas a questões logísticas, mas à perda da experiência. O público tem substituído a experiência fenomenológica de adentrar essas lojas como um momento de lazer, descoberta e reflexão, por uma relação puramente utilitária e de consumo rápido. A manutenção desses sebos e livrarias independentes representa a continuidade de uma cultura popular autêntica que se contrapõe à homogeneização imposta pela cultura de massa.
Qual conselho você daria para aquela garota ou garoto que está começando agora a comprar seus primeiros discos e livros?
O conselho que eu daria é um convite à escuta contemplativa: Ouça com calma. Desligue todos os aparelhos eletrônicos que possam lhe impor interrupções ou distrações. Reserve um momento de clausura e introspecção, fechando os olhos, se necessário, e dedicando-se unicamente à experiência do analógico.

– Lucas Vieira (facebook) é jornalista e escreve sobre música desde 2010!