por Homero Pivotto Jr.
O fluxo da vida é um tanto errático, como a trajetória de alguma figura desregrada do rock. Às vezes o universo conspira a favor e é possível atender de bowie às demandas de diferentes empreitadas, mas em outras não. Agora em novembro, por exemplo, a movimentação em alta da rotina familiar e profissional fez com que nossa atenção com o Novo Rock Gaúcho fosse menor que a costumeira. Isso porque são apenas duas pessoas que cuidam das postagens no site e no Instagram, e são raras as bandas que enviam material certinho para divulgação. Gerar conteúdo é algo que demanda tempo, o bem mais precioso da contemporaneidade. Não raro, é preciso correr atrás dos lançamentos e novidades, quando o ideal para um projeto como o nosso seria os artistas enviarem as informações. Mas, o baile segue e cá estamos, com nossa nona coluna NRG aqui no Scream & Yell (relembre as anteriores aqui). Confere aí!
– “honra entre os novos ladrões”, da asterisma – O novo álbum da banda porto-alegrense asterisma reúne 12 faixas que consolidam a sonoridade e o discurso do grupo dentro da nova geração do indie rock brasileiro. O disco se debruça sobre as contradições da vida urbana e os sentimentos de inadequação, culpa e desejo que atravessam uma juventude em busca de propósito.
O título “honra entre os novos ladrões” representa uma reflexão íntima sobre sentir-se inadequado em momentos de felicidade ou sucesso. A banda transforma esse desconforto em metáfora para um sistema que constantemente nos coloca diante de dilemas éticos e emocionais, em que prazer e privilégio se misturam com culpa e injustiça.
Gravado em diferentes locais, entre casas de integrantes, estúdios caseiros e espaços profissionais, o disco reflete a autonomia e a experimentação que marcam o processo criativo da banda. No single “segue em anexo”, a banda reafirma sua identidade dentro do novo rock brasileiro, reinventando o chamado “rock triste” ao unir a sensibilidade do emo dos anos 2000 – estilo que teve, em Porto Alegre, um de seus principais núcleos de referência – à força de um hardcore contemporâneo e dançante, como Turnstile, e à estética indie mais pulsante de Two Door Cinema Club.
A alternância entre voz masculina e feminina marca a dinâmica das canções e se tornou uma das principais assinaturas da banda, característica essa que atravessa todo o álbum e reforça a identidade sonora do grupo que, neste segundo trabalho, aprofunda a relação entre introspecção e consciência social.
– “War Crimes”, da Kein Montag – Batidas contundentes. Repetições hipnóticas. Letras afiadas. Sintetizadores que sintetizam o caos cada vez mais iminente. Tudo isso está no novo EP do trio porto-alegrense Kein Montag. Gravado no Dub Studio e produzido por Fábio Gabardo, o registro amplia a paleta sonora e conceitual da banda, reforçando o diálogo entre música e discurso que marca o projeto.
O novo trabalho explora sonoridades que transitam entre o industrial, o pós-punk e o EBM. Inspirada por nomes como Front 242, Nine Inch Nails e Joy Division, a Kein Montag constrói uma identidade marcada por atmosferas sombrias, batidas eletrônicas e letras que refletem tensões políticas, sociais e existenciais.
Desde o lançamento do EP de estreia, “kein Montag” (2023), o conjunto vem galgando espaço na cena alternativa. No mesmo ano, apresentou o segundo trabalho, “No Control”, seguido pelos remixes “Burn Destroy” e “The Techno Machine”. Em 2024, o EP “Peace Liars” reforçou o caráter conceitual da banda e sua abordagem crítica sobre temas políticos e sociais. Já em 2025, lançaram o remix “F.T.R.T.T.S.”, ampliando o diálogo com a música eletrônica e a estética industrial contemporânea.
– “Pertencimento”, de It’s All Red (feat Humberto Gessinger) – A banda It’s All Red conduz o ícone do rock nacional Humberto Gessinger a se aventurar pela primeira vez no universo do heavy metal. O resultado dessa colaboração é a faixa ‘Pertencimento’.
‘Pertencimento’ é uma faixa prog metal que une o peso do metal moderno praticado pelo It’s All Red (IAR) ao longo dos 18 anos da banda à assinatura inconfundível da voz de Gessinger, costurada ainda por violinos e teclados que dão um verniz dramático ao tema da canção. Um videoclipe foi gravado durante o processo de estúdio e será lançado em breve.
A letra de ‘Pertencimento’ é inspirada nas histórias de imigrantes que vieram para o Brasil, mas, em um olhar mais amplo, também abraça o drama dos refugiados e das migrações de forma geral, tema bastante atual. A canção aborda travessias humanas, deslocamentos — espontâneos ou forçados — e a sensação de nunca pertencer completamente a um lugar.
Humberto Gessinger contribuiu com a letra e melodias vocais, enquanto o vocalista da It’s All Red, Tom Zinsk, colaborou com versos em inglês e alemão, completando o arranjo e a fusão de estilos. A parceria com Gessinger rendeu tanto que a música foi dividida em duas partes: o trecho inédito acompanhará o próximo álbum da banda, atualmente em gravação.
– “Shaun”, de Shaun – O primeiro trabalho da Shaun, autointitulado, destaca o momento em que a banda porto-alegrense reafirma uma identidade musical própria e a formação com sete integrantes, firmando de vez o som e a personalidade do grupo.
O disco representa um ponto de amadurecimento para a banda, que vem desenvolvendo desde 2019 um som próprio a partir de referências do rock brasileiro e gaúcho, mas também inspirado pela estética do rock britânico. Produzido por John Vitto e com mixagem e masterização de Mário Arruda (Supervão), o álbum reúne nove faixas inéditas, com lançamento pela Frase Records. Entre elas está “Vivienne Westwood”, um dos singles já lançados, com produção assinada pela dupla Bruno Neves e Léo Braga.
O caráter irreverente e inovador de grupos como Os Mutantes, Titãs, Ira!, Fellini e Planet Hemp servem de inspiração para a sonoridade do trabalho, que também dialoga com a energia e o humor de bandas gaúchas como De Falla, Cachorro Grande, Bidê ou Balde, Júpiter Maçã e Ultramen. O resultado é um disco que reflete o encontro entre o rock britânico e ecos de reggae — uma trilha que atravessa Porto Alegre, onde o céu cinza do sul se cruza com a herança sonora de Manchester.
As nove faixas transitam entre o desabafo, o afeto e a ironia, refletindo diferentes momentos e visões da banda. As letras falam de relações, deslocamentos e frustrações cotidianas, mas também de leveza, humor e resistência. O álbum costura crítica e sensibilidade em igual medida, traduzindo o olhar particular da shaun sobre o mundo que a cerca.
– “Nada É Fácil”, de A Ordem Inversa – A banda A Ordem Inversa disponibilizou novo single chamado “Nada é Fácil”. A música traz em sua composição o violão e as castanholas, fazendo uma alusão ao flamenco, com a intenção de trazer esse tom dramático do retorno, da paixão, contando a história de um personagem outsider que faz tudo para poder voltar para casa e para seu único amor. O som foi gravado na Shout! Produtora por Rafael Heck e mixada na Casa Sonora por Wagner Rodrigues. “Nada é Fácil” foi disponibilizada nas plataformas pela Pisces Records.
– “Tenho Medo de Sentir que Não Sinto Nada por Ti”, de Insira Aqui – Primeiro single do trio emo porto-alegrense Insira Aqui.
– “A Dor É Mansa”, de Jimi Barba – Segundo lançamento do compositor, cantor e guitarrista, Jimi Barba, de Caxias do Sul. Nesta canção o músico apresenta um rock clássico com letra reflexiva e intimista.
“A dor é mansa é como comer um belo bolo de camadas musicais dentro de uma máquina do tempo. Tem uma base harmônica que faz referência à clássica progressão de acordes do lá menor ao fá, como em ‘Babe I´m gonna leave you’, do Led Zeppelin, e ‘While my guitar gently weeps’, dos Beatles. Traz uma poderosa cozinha com Helio Cordeiro, na bateria, e Alemão Ribeiro, no baixo. A faixa é um banquete sonoro de rock das décadas de 1970 e 1980 com pitadas generosas dos 1990″, define Jimi Barba.
– “Quando Estamos Distantes”, de tenhomedo – A banda tenhomedo lançou seu primeiro álbum, composto por oito faixas, totalizando 28 minutos e 24 segundos. A gravação foi realizada por Lucas Hanke no Estúdio Marquise 51. Mix e master por Guilherme “Gordão Beats” Mallet. O disco é financiado através dos recursos da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura.
Com composições em português, a tenhomedo surgiu em abril de 2023 na cidade de Cachoeirinha/RS e, por meio do seu som, explora as lutas internas e as crises existenciais que emergem em uma sociedade cada vez mais individualista e desconectada. As músicas abordam temas de autoconhecimento, frustração emocional, relacionamentos falhos e angústia existencial. O álbum parece ser uma jornada introspectiva do narrador, que enfrenta dúvidas sobre si mesmo, questiona suas escolhas e lida com a repetição de erros e desilusões. A busca por algo melhor, a reflexão sobre as perdas e a constante busca por sentido são sentimentos predominantes. O tom de angústia nas faixas é equilibrado com momentos de introspecção e autocrítica, em que o narrador reflete sobre o que aprendeu, ou pelo menos sobre o que deveria ter aprendido com os erros. Em conjunto, o álbum é uma jornada de autoconhecimento, onde o confronto com a dor e os erros do passado se misturam com uma busca contínua por um futuro melhor. É uma obra de resiliência e aceitação, onde a ideia de seguir em frente é essencial, apesar das dificuldades e incertezas da vida.

– Homero Pivotto Jr. é jornalista, vocalista da Diokane e responsável pelo videocast O Ben Para Todo Mal.


