Com humor, timidez e doçura, Bôa comanda grande noite em São Paulo

texto de Alexandre Lopes
fotos de Fernando Yokota

Era uma noite de terça-feira (25/11) em São Paulo, mas o Cine Joia tinha um certo clima de provação e expectativa. Depois de quase duas décadas em hiato, a banda londrina Bôa voltou à ativa impulsionada por um fenômeno digital improvável: o single “Duvet”, originalmente lançado em 1998, ressurgiu viralizado no TikTok e sendo redescoberto pela geração Z por meio de trilha de anime da década de 90, remixes e memes. Esse empurrão fez o grupo se reunir novamente, lançar o álbum “Whiplash” em 2024 e voltar à estrada. Faltava apenas que toda essa história ganhasse forma tridimensional, com gritos, olhares focados no palco e o apoio de uma comunidade brasileira que enfim pudesse existir no mesmo espaço físico que a banda.

Antes que essa catarse se materializasse, quem abriu a noite às 20h15 foi Ale Sater, com um show solo delicado, enxuto e muito bem acompanhado. Sua banda de apoio carrega um pequeno recorte da cena indie paulistana: a baixista Helena Cruz (Pelados), Luis “Loobas” Cardoso (companheiro de Ale na Terno Rei) na bateria e Gabriel Arbex (ex-Zander e Dozaj) na guitarra. Guiados pela voz de Sater ancorada ao violão, o quarteto começou com “Nós”, “Nunca Mais” e “Anjo”, com a banda criando um colchão sonoro discreto, mas cheio de detalhes, dando corpo às composições.

Alê Sater

Em determinado momento, o vocalista interrompeu o fluxo e se dirigiu ao público para dizer que gosta muito daquele palco – e deu para sentir que aquela não era apenas frase de efeito. “Ontem” veio na sequência, seguida da inédita “Mandolin”, já recebida com entusiasmo pela plateia, em uma espécie de voto de confiança. “Caminhão”, “Quero Estar” e “Ouvi Dizer” formaram o trecho mais comunicativo da apresentação, com a banda completamente à vontade e amarrando um clima de melancolia e romantismo.

Antes da última canção, Ale apresentou os companheiros e pediu palmas para o grupo, encerrando com a apropriadamente intitulada “Final de Mim” às 20h51 e deixando um show breve, mas com jeitão de quem ainda tem muita coisa para mostrar nos próximos capítulos. Uma abertura que funcionou mais como introdução temática à noite, com a vulnerabilidade como eixo de equilíbrio.

Alê Sater

O intervalo até a atração principal foi acompanhado por um coro insistente: o público começou a puxar “Bôa, bôa, bôa” e “Bôa, cadê você, eu vim aqui só pra te ver”, até que finalmente a banda entrou em cena ao som de uma intro instrumental. Desfalcados de dois membros oficiais (Alex Caird e Lee Sullivan), que não vieram para esta fase latina da turnê, os músicos contratados Carlos Garcia (guitarra) e Simon Francis (baixo) surgiram com mais dois convidados no teclado e bateria antes que Jasmine Rodgers aparecesse e fosse recebida como uma velha amiga que desapareceu sem dizer adeus mas voltou para matar as saudades.

O quarteto abriu com “Deeply” e “Whiplash”, e bastava a frontwoman encostar na meia-lua para que a plateia respondesse com gritos e aplausos. Entre músicas, a vocalista se comunicava em inglês, mas com aquele “Hello, Brazil” acompanhado de tremeliques de surpresa, comentários sobre as mensagens constantes de “come to Brazil” e o reconhecimento explícito de que foi justamente essa insistência internética que tirou a banda de um lugar nebuloso entre hiato e memória.

Bôa

Logo no início já ficava claro que Jasmine seria o grande chamariz da noite, com uma presença que misturava algo de timidez com uma performance segura e vocais que alternavam entre momentos fortes e introspectivos. Na terceira música, “Get There”, ela pegou a guitarra; em “Beautiful & Broken”, trocou para o violão, sempre muito celebrada a cada mudança de instrumento, como se cada gesto reforçasse sua proximidade com a plateia. Não era apenas sobre as músicas, mas sobre a forma como ela habitava o palco.

“Seafarer” e “For Jasmine” foram recebidas como hinos de fandom, esta última cantada em uníssono desde os primeiros versos, culminando em um final de peso com a bateria em destaque, quase como um pequeno clímax dentro do set. Depois de uma intro em clima de suspense, veio “A Girl”, seguida de “Strange Few”, já com Jasmine empunhando uma guitarra Jaguar preta. Em um dos intervalos, ela agradeceu diretamente ao público por permitir que a banda lançasse um novo disco e voltasse a fazer turnês, reforçando o apoio entre banda e fãs.

Bôa

“Welcome” veio amparada por um baixo que assumiu o protagonismo, com um final marcado por palmas que se sobrepunham ao som, como se o público quisesse deixar registrado o fato de estar ali. Jasmine voltou ao violão logo depois, com a pergunta: “geralmente nesta hora do set eu pergunto se hoje é o aniversário de alguém. Alguém?”, antes de iniciar “Drinking” como forma de celebração, com o Cine Joia iluminado por celulares.

Em “Frozen”, com um arranjo inicialmente acústico, Jasmine retomou ao vocal acompanhada pelo violão de Carlos Garcia, com a plateia marcando o ritmo em palmas até que teclado, baixo e percussão entraram aos poucos. Entre uma música e outra, vieram declarações de fãs por vezes cômicas ou exageradas – “casa comigo”, “I love you” – que Jasmine recebeu com sorrisos e um leve espanto, enquanto apontava o microfone para o público cantar. “Vocês estão se divertindo?”, ela perguntou, antes de agradecer e apresentar a banda. A resposta veio logo na primeira nota de “Elephant”: festa instantânea, com as vocalizações finais assumidas pela plateia. Na sequência, “Fool” encerrou o set principal às 22h41, com o quarteto saindo do palco sob gritos de “Bôa, bôa, bôa”.

A pausa durou pouco: o grupo retornou com a vocalista perguntando “vocês querem mais canções?”. “Twilight” abriu o bis e trouxe um momento de camaradagem, com baixista e guitarrista encostando as cabeças um no ombro do outro. “Walk With Me” manteve o clima de comunhão, preparando o terreno para o inevitável hit: “Duvet”. O grande momento veio em versão estendida, com o refrão repetido várias vezes para que a plateia pudesse cantar, como se exorcizasse anos de relação virtual com a música finalmente concretizada ao vivo.

Não é exagero dizer que, para boa parte do público, toda a noite convergia para esse momento – tanto que alguns poucos começaram a ir embora logo depois dessa execução. Mas a banda ainda tinha mais uma carta na manga e voltou ao palco para “Anna Maria”, iniciada por uma introdução de bateria que reposicionou o clima em um registro cadenciado, quase ritual. Ao final, Jasmine agradeceu e arrematou a noite distribuindo setlists e palhetas do palco, lançando beijos para a plateia, enquanto a sensação geral era de missão cumprida (tanto para a banda quanto para o público).

O Bôa entregou um espetáculo generoso em gestos de proximidade e um repertório que costurou o disco mais recente com faixas dos álbuns “The Race of a Thousand Camels”, “Twilight” e “Get There” de forma natural. Ficou claro que o grupo é forte objeto de um culto que o tempo e a internet mantiveram aceso; agora o Bôa encara a intensidade de um público que transformou essas migalhas de presença digital em devoção total. E Jasmine sabe como responder a esse afeto com humor, timidez e, principalmente, uma conexão que permite momentos de vulnerabilidade, volume no talo e uma boa dose de doçura.

– Alexandre Lopes (@ociocretino) é jornalista e assina o www.ociocretino.blogspot.com.br
– Fernando Yokota é fotógrafo de shows e de rua. Conheça seu trabalho: http://fernandoyokota.com.br

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *