Esse você precisa ler: “Supergirl: Mulher do Amanhã” aprofunda e moderniza uma das mais incríveis personagens dos quadrinhos

texto de Davi Caro

A julgar pelo sucesso esmagador alcançado por James Gunn e seu “Superman” (2025) – que acaba de chegar ao formato digital – os quadrinhos da DC Comics devem arrebatar todo um novo público. Além de representar de forma digna e louvável o personagem mais simbólico da editora, o diretor também tomou para si a responsabilidade de transpor muitos dos aspectos mais lúdicos do material original para as telonas. E isso inclui, ainda que brevemente, uma das mais icônicas e importantes personagens do universo expandido do herói kryptoniano: sua prima, Kara Zor-El – vulgo Supergirl, vivida por Milly Alcock – que faz uma rápida aparição ao fim do longa. Além de indicar os novos rumos a serem seguidos pelo DCU de Gunn e Peter Safran (em antecipação para o novo filme solo da personagem, que chega aos cinemas em 2026), a participação surpresa também aponta um dos principais elementos a serem seguidos neste novo universo: o comprometimento com o material original.

Embora breve, a interpretação de Alcock como Kara já se mostra diretamente inspirada naquela que não só é a história definitiva da super-heroína nas HQs, como também é um dos melhores trabalhos do gênero lançados na última década: escrita por Tom King (que já trabalhou com a DC no selo Vertigo) e com a arte da brasileira Bilquis Evely (que iniciou seus trabalhos com a revista “Luluzinha Teen e Sua Turma” e já colaborou com a Dynamite Entertainment no passado), “Supergirl: Mulher do Amanhã” (2021/2022) é uma das melhores portas de entrada para novos leitores, além de ser um trabalho primoroso que aprofunda e ressignifica a figura de um ícone que, ao longo da história, permaneceu quase sempre sob a sombra de seu familiar invulnerável. Relançada agora em uma caprichadíssima edição de luxo via Panini, a minissérie (com suas oito edições) é um novo marco dos quadrinhos de super-heróis no mainstream.

 

As comparações com o Superman, ao invés de servirem como uma espécie de “muleta conceitual”, são empregadas aqui para fortalecer o caráter de Kara, começando pela gênese da heroína: também oriunda do planeta Krypton, a futura Supergirl não foi enviada para a Terra ainda bebê, como Kal-El. Ao invés disso, a jovem cresceu em um fragmento de seu mundo natal, que sobreviveu à explosão que vitimou seus parentes. Os anos seguintes, no entanto, foram traumáticos para Kara, que viu seus pais perecerem graças à infecção por radiação. Colocada em uma nave com o propósito de se salvar, e enviada à Terra para observar seu jovem primo, a sobrevivente, ainda criança, acabou se perdendo em um vórtice espacial – o que fez com que, em sua tardia chegada ao solo terrestre, Zor-El pudesse testemunhar um Superman já na ativa. Os traumas adquiridos por ela, mesmo após decidir adotar o objetivo de proteger os inocentes à exemplo de seu primo, acabam por diferenciá-los completamente: Clark Kent, afinal, foi criado por um casal de amorosos pais do Kansas, e, assim, ficou livre das cicatrizes de tragédia e sofrimento que Kara carrega.

Estas mesmas cicatrizes são um ponto de identificação para a jovem Ruthye Marye Knoll, uma alienígena que testemunhou o assassinato do pai pelas mãos do sanguinário Krem. Buscando vingança, Ruthye acaba se deparando com Kara em um planeta provido de um sol vermelho – que, ao contrário do astro amarelo que ilumina a Terra, permite que kryptonianos possam ficar bêbados – juntamente com o fiel companheiro canino Krypto (em mais um aspecto que remonta ao filme de James Gunn). Vendo o próprio espírito refletido na jovem, a heroína acaba se juntando à sua busca por justiça, ao mesmo tempo em que embarca em sua própria jornada por auto-conhecimento.

O roteiro de Tom King é o grande atrativo da minissérie, que explora um subtexto da protagonista antes apenas insinuado. As marcas da devastação de seu povo tomam a frente no desenvolvimento de Kara dentro do enredo, e a fúria contida de Ruthye é trabalhada em conjunção com a narrativa da personagem principal com resultados fenomenais. E vale citar que a coadjuvante faz aqui sua primeira aparição, o que funciona como um testemunho indubitável do talento que o roteirista traz para a história. Isto, junto com uma disposição à trabalhar os aspectos mais lúdicos do universo ao qual a Supergirl pertence (quase como uma sequência espiritual aos antológicos arcos criados por escritores como Alan Moore e Grant Morrison em tempos mais remotos) acaba por criar uma dinâmica onde a história é cuidadosamente equilibrada em diálogos desenvolvidos com maestria e sequências de ação impressionantes em seu andamento.

E é aqui que precisam entrar as merecidas palmas à Bilquis Evely: seu trabalho de arte delicado e repleto de curvas ajuda a conjurar um aspecto quase onírico aos visuais da saga, transformando assim um roteiro, por si só, inovador enquanto aborda o conceito de super-heróis, em um verdadeiro épico de ficção científica onde a tragédia é um elemento fundamental, com um desfecho surpreendentemente reflexivo, e que foge à obviedade. O acertado uso de cores, em seus contrastes entre deslumbrantes paisagens e passagens mais obscuras e sinistras – uma marca registrada da artista, que já havia esbanjado talento nas histórias que ilustrou nos spin-offs de “Sandman” – resultam em uma graphic novel sublime tanto em seu conteúdo narrativo quanto como trabalho visual. “Mulher do Amanhã” é um marco em uma carreira mais promissora, e na qual Evely já começou a colher louros: a brasileira foi recentemente condecorada com o prêmio Eisner (a maior laureada premiação do mundo dos quadrinhos) na categoria Melhor Artista/Arte-Finalista por “Helen de Wyndhorn”, também feita junto a Tom King, e editada no Brasil pela Suma.

Desde o anúncio dos primeiros projetos do DC Studios, referente ao primeiro arco de histórias interligadas a serem contadas – e que serão continuadas na segunda temporada da série “Pacificador”, neste segundo semestre de 2025 – James Gunn já havia feito menção direta à “Supergirl: Mulher do Amanhã” como a principal referência para o que seria levado às telas do cinema no que diz respeito à heroína kryptoniana. O filme homônimo da protagonista, que é dirigido por Craig Gillespie, promete materializar em live-action um roteiro fortemente inspirado na HQ de King e Evely, em um potencial acerto que tem tudo para não apenas chamar novos espectadores à adaptação, como também um fluxo de novos leitores à medida em que tira sua principal figura debaixo da sombra de seu universalmente conhecido primo alienígena. É certo que “Mulher do Amanhã” não agrada só a fãs inveterados da personagem, do universo ao qual ela pertence ou de quadrinhos como um todo: trata-se de uma epopéia que usa de superpoderes, uma aventura eletrizante, e cenários esplendorosos para evidenciar o que há de mais frágil, falível e, porque não, humano, em ícones que sempre foram retratados como muito além de dilemas tão mundanos como a perda, o trauma, e o sentimento de vingança – ou do aprendizado que eles podem trazer.

 Davi Caro é professor, tradutor, músico, escritor e estudante de Jornalismo. Leia mais textos dele aqui.

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