Entrevista: “Se a música pudesse gerar a paz, já teríamos chegado lá”, diz Helado Negro

 entrevista de Bruno Capelas

Nascido na Flórida, filho de pais equatorianos, Helado Negro já tem uma trajetória de quase duas décadas de uma pesquisa sonora muito curiosa, entre a música orgânica e sintetizadores de ontem e de hoje. O mais recente passo nessa trajetória, o EP “The Last Sound on Earth”, saiu no último dia 7 de novembro – mesma data em que o artista se apresentaria na Casa Rockambole, em um dos shows de “esquenta” para o Balaclava Fest.

“Não tem muito mistério: estava trabalhando em algumas músicas novas e percebi que tinha um conjunto de canções mais balançadas. Daí, comecei a pensar qual seria o último som existente na terra. Acho que seria o amor”, diz o artista em entrevista ao Scream & Yell, realizada logo após a passagem de som, enquanto o americano esperava por uma lasanha no Camélia Ododó – restaurante comandado pela filha de Gilberto Gil, a chef Bela Gil.

O cenário serviu de inspiração para que Helado Negro falasse sobre sua relação com a música brasileira – nascido como Roberto Carlos Lange, ele jura que seu nome não tem relação com o do Rei. “O nome do meu pai é Carlos Roberto… mas a verdade é que cresci ouvindo Roberto Carlos, depois me interessei por Erasmo, Caetano, Gil. Quando tinha 21 ou 22 anos, lembro de encontrar o ‘Índia’, da Gal Costa, por US$ 2 numa loja. Foi algo muito marcante”, lembra ele, que também elegeu “Clube da Esquina” e “Tão Tá”, de Luiza Brina, como alguns de seus discos favoritos – Luiza, aliás, dividiu o palco com ele na Rockambole.

No papo, além de derramar seu amor pela música brasileira, Helado Negro fala também sobre sua identidade latina e a importância de exercitar o orgulho por sua origem em pleno 2025. Ao mesmo tempo, ele também se revela bastante pragmático sobre o poder político da arte. “A música não é capaz de mudar o mundo, mas acho que ela muda as pessoas. Se a música pudesse gerar a paz, acho que já teríamos chegado lá”, diz. Ele também discute as dificuldades do mercado pós-pandemia e o processo de transpor suas texturas eletrônicas ao palco – “sempre depende do que consigo pagar”. Com a palavra, Rrrrrroberto Carlos… Lange.

Preciso começar essa entrevista esclarecendo uma lenda. Seu nome de batismo é Roberto Carlos. Tem alguma relação com o cantor brasileiro?
Claro que não. O nome do meu pai é Carlos Roberto, então… bem, é uma homenagem ao meu pai.

Fico feliz que tiramos essa dúvida da frente. Dito isso, qual é a sua relação com a música brasileira?
A verdade é que cresci ouvindo Roberto Carlos. É um artista que escuto desde sempre. Eu não sabia muito sobre ele quando era garoto, mas conforme fui me interessando por música, lembro de descobrir mais sobre ele e sobre Erasmo Carlos. Que dupla! Daí, fui para outras coisas óbvias, como Caetano Veloso ou Gilberto Gil. O “Clube da Esquina” foi uma enorme descoberta para mim, toda a música brasileira daquela época. E lembro muito bem, quando tinha 21 ou 22 anos, de encontrar o “Índia”, da Gal Costa numa loja por, sei lá, dois dólares. Foi algo muito marcante naquela época, é um disco incrível. A música brasileira faz parte da minha vida, constantemente ela molda e modifica o meu mundo.

Enquanto você está aqui no Brasil, um novo EP seu chegou às plataformas digitais, “The Last Sound on Earth”. Qual é a ideia por trás dele?
Acho que não tem muito mistério, sabe? Eu estava trabalhando em algumas músicas novas e percebi que tinha um conjunto de canções mais balançadas, mais dançantes. Era o foco principal desse EP. E aí surgiu a ideia de pensar qual seria o último som existente na terra. Acho que seria o amor.

Você nasceu nos EUA, mas é filho de equatorianos – e a identidade latina sempre fez parte da sua obra. Mas existem muitas identidades latinas diferentes. Como você lida com isso?
Sempre me identifiquei como alguém que cresceu nos Estados Unidos. Cresci na Flórida, e a Flórida é uma espécie de capital da América Latina, porque todos os tipos de latinos vivem lá. É uma grande mistura, e acho que isso faz parte da minha identidade. Não cresci só entre famílias de equatorianos, mas de todo o continente – e acho que me identifico com todas as culturas porque cresci com todas elas. Ser latino nunca foi só uma coisa para mim.

Hoje, muitos artistas estão empunhando esse orgulho latino nos mais variados espectros – do pop com o Bad Bunny, até algo mais alternativo, com Ca7riel & Paco Amoroso. Você é um artista que está há mais tempo na estrada, mas queria saber como vê esse movimento.
Acho que é muito interessante. São obras que nem sempre podem ressoar em mim, mas são muito relevantes do ponto de vista cultural – e porque geram ressonância em muita gente. Alguns desses artistas fazem música realmente muito bem feita, muito bem pensada. Acho o trabalho de Ca7riel muito interessante, eles me lembram muito Illya Kuryaki and the Valderramas. Quanto à Bad Bunny, acho que não tem muito o que dizer: ele criou seu próprio mundo dentro do pop. São dois nomes com os quais me relaciono, mas também gosto de pensar o quanto minha música é diferente da deles.

2025 tem sido um ano bastante complicado para quem é imigrante e latino nos EUA. O quão importante é usar a música para levar essa identidade adiante?
Não sei. Sinceramente, não sei o que é importante em termos de música. Acho que a música é algo especial para todas as pessoas. Mas a música não é capaz de salvar vidas. Ela pode salvar uma pessoa específica, em uma determinada hora, mas não salva vidas. Você entende o que eu quero dizer? A música não é capaz de mudar o mundo, mas acho que ela muda as pessoas. Ela pode inspirar as pessoas a fazerem algo – seja um momento de diversão e paz, seja ir a um show e se relacionar com outras pessoas. A música facilita os momentos, mas ela não é responsável por tudo. Se a música pudesse gerar a paz, acho que já teríamos chegado lá.

Um dos principais aspectos da sua pesquisa musical é a interação entre a música eletrônica e a música orgânica. Como é lidar com isso no estúdio?
Acho que depende. Quando estou trabalhando em novas músicas, simplesmente abro a porta e deixo a inspiração entrar – seja quando estou tocando guitarra ou sintetizadores. Não tenho nenhum tipo de regras, porque penso que a coisa mais importante é expressar o que a canção quer dizer. Se estou fazendo uma música, quero servir a ela – e não ao meu ego ou à perspectiva do que as pessoas deveriam me ver fazendo. Só fico inspirado com uma boa ideia e quero levá-la até o fim.

E como é transferir esse processo para o palco? Quando você acaba um disco e vai para o palco, como é adaptar as canções?
É difícil. É difícil porque… é um compromisso muito sério. Na hora de planejar uma turnê, preciso sempre descobrir o que quero tocar. Às vezes, não dá para tocar tudo que está num disco. Às vezes, só consigo tocar algumas músicas ou preciso fazer diferentes. E tudo é sempre muito diferente, porque às vezes toco sozinho. Em outros momentos, tenho um trio ou uma banda de apoio. Acho que a resposta depende sempre do que posso pagar.

Parte do seu trabalho envolve a pesquisa com diferentes sintetizadores – do passado e do presente. É um obstáculo a mais no palco?
Às vezes sim. Vivemos numa época muito rica para a música eletrônica – seja quando tocamos sintetizadores ao vivo ou construímos um trabalho artesanal. Antigamente, quando os sintetizadores eram executados ao vivo, eles usavam tape machines – e ligavam as máquinas para tocar tudo o que tinham feito no estúdio, e depois tocavam instrumentos em cima disso. É uma tradição longa e antiga da música eletrônica. Acho que é uma ideia muito excitante: criar uma música que às vezes é impossível de ser tocada ao vivo.

Gravar e tocar ao vivo são artes diferentes?
Com certeza.

É interessante você falar que molda a sua música ao vivo a partir dos músicos que pode pagar. É algo que se conecta muito com uma bandeira que você carrega: se ver como um trabalhador da música. Acho que não é uma postura muito comum. Pode falar mais sobre isso?
Cresci numa família de trabalhadores. Música é trabalho. É o que me sustenta, é o que crio, é como pago pelas minhas contas. Não sei o que mais seria. Não vivo uma vida glamurosa. Honestamente, só faço o que faço e trabalho. Acho que é o melhor que posso falar sobre o tema agora.

Está mais difícil ser um artista no mundo pós-pandemia?
Provavelmente. Acho que sim. Sempre foi difícil, então eu não sei dizer. Nunca a vida ficou mais fácil. Estou no Brasil agora, acho que tenho sorte. Tenho sorte de estar aqui.

Recentemente, você tem falado bastante sobre saúde mental e autocuidado – um tema cada vez mais em voga na indústria da música. Algum conselho para quem está lidando com esses problemas?
Acho que o mais importante é saber que está OK fazer apenas o que você consegue – e que se for necessário parar, pare. Às vezes precisamos dizer para nós mesmos que não conseguimos fazer certas coisas. Na maior parte dos casos, não há nada tão importante quanto nosso cuidado.

Para fechar, antes que você possa comer sua lasanha, queria saber quais são seus cinco discos da ilha deserta.
“Oh, jeez!”. O “Clube da Esquina” é um. O “Tão Tá”, da Luiza Brina, é outro. Mas não sei, acho que é só no que consigo pensar. Desculpa, mas é o que tenho para agora.

– Bruno Capelas (@noacapelas) é jornalista. Apresenta o Programa de Indie e escreve a newsletter Meus Discos, Meus Drinks e Nada Mais. Colabora com o Scream & Yell desde 2010.

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