entrevista de Danilo Souza
Na ativa desde 2009 em Feira de Santana, segundo município mais populoso da Bahia e o primeiro do interior nordestino, o Feira Noise é “quase irmão gêmeo” do Festival Suíça Bahiana, tanto em tempo de atividade quanto em propósito. Ambos trabalham com foco na cena autoral da cidade e da região, mas também oferecem grandes nomes em seus palcos. Neste ano, por exemplo, vão passar por lá Dead Fish, Maglore, Papangu, Menores Atos e Tássia Reis, entre outros.
Para Joilson Santos, organizador do Feira Noise, um dos destaques da edição 2025, que acontecerá de 19 a 23 de novembro, é Dionorina, artista feirense que será homenageado devido aos seus 50 anos de carreira dedicados ao reggae. “Ele é o cara! É um gigante da música brasileira”, comenta Joilson. “Esse ano surgiu a ideia de colocar o nome dele no palco principal tanto pelos seus 50 anos de carreira quanto por ele ser uma figura importantíssima com discos fundamentais do reggae brasileiro”, explica o produtor.
O Feira Noise tem uma conexão direta com o Clube dos Patifes, banda de Joílson que já está na estrada desde 1999. “Quando a gente começou a se movimentar para produzir shows (da Clube dos Patifes), percebemos que precisávamos movimentar a cena como um todo, não bastava só a nossa banda tocar ou trazer uma banda amiga”, diz Joílson. “Começamos a produzir uns shows maiores e um festival para celebrar tudo o que fizemos durante o ano. É daí que nasce o festival”, conta o organizador do evento.
Berço de nomes comentados da nova música brasileira, como Duquesa e Rachel Reis, “frutos de um trabalho que a gente fez ao longo dos anos e que era um processo de estímulo de produção de música autoral”, orgulha-se Joílson, o Feira Noise (e o Festival Suíça Bahiana) busca conectar a cena nacional com a cena local: “Nós não abrimos mão de ter uma quantidade boa de artistas locais, mas também queremos mostrar como que está fervilhando essa música autoral do Brasil inteiro”, conta Joílson.
Contando até com uma “ajudinha” do calendário (o festival vai acontecer durante um feriado do Dia da Consciência Negra), o organizador está com as expectativas em alta para essa edição do Feira Noise. “Serão cinco dias; três na Casa Noise e dois na Ária Hall. Serão mais de trinta atrações, com sete bandas em cada dia no palco principal. Será uma edição histórica, celebrando mais uma vez a música independente feirense, a música independente brasileira e conectando todo mundo”, completa Joílson. Leia a entrevista na integra abaixo.

O Feira Noise nasceu em 2009. Quais foram os maiores desafios para mantê-lo vivo até hoje?
O Feira Noise nasce da necessidade de ter um festival na cidade que comunicasse diretamente com a cena autoral. Eu tenho uma banda, a Clube de Patifes, que tem 26 anos, e quando a gente começou a se movimentar para produzir shows aqui, para ter espaço pra tocar, começamos a fazer os shows sempre envolvendo a banda. Chegou um ponto em que percebemos que precisávamos movimentar a cena como um todo, não bastava só a nossa banda tocar ou trazer uma banda amiga… a partir disso que nasce o Feira Coletivo, aí começamos a produzir uns shows maiores e um festival para celebrar tudo o que fizemos durante o ano com o intuito de conectar a cena da cidade com o que acontecia na música independente do Brasil inteiro. É daí que nasce o festival. Primeiro, era voltado para Nordeste, inicialmente conectando bandas da região com Feira de Santana, e aí em 2010 a gente expandiu mais… Ao longo desses 16 anos sempre fizemos com muita garra, com muito sangue no olho, enfrentando todo tipo de dificuldade e sempre fazendo sem ajuda de patrocínio de recursos externos ou edital. Na história toda do Feira Noise, só teve três edições que foram com editais: uma em 2014 e duas durante a pandemia. Fora isso, todas as edições foram feitas a partir desse esforço coletivo, e para mim, esse é o maior desafio de se manter um festival. Porque quando termina uma edição a gente nunca sabe se vai conseguir fazer de novo no ano seguinte…
De que forma o festival ajudou a consolidar a cena independente em Feira de Santana e na Bahia?
Ele foi fundamental para o desenvolvimento da cena musical de Feira de Santana, sem dúvida nenhuma! E todos os nomes que ultrapassaram os limites da cidade, tipo a Duquesa e a Rachel Reis, foram frutos de um trabalho que a gente fez ao longo dos anos e que era um processo de estímulo de produção de música autoral. Então, o Feira Noise, e também o [Festival] Suíça Bahiana, possibilitam isso no pior dos cenários, que é ser uma cidade do interior da Bahia. É difícil pra gente conseguir patrocínio e também para ter o interesse de alguns artistas para participar do festival, a galera às vezes torce o nariz e nem todo mundo se interessa, ou então cobram cachês bem mais caros por ser numa cidade do interior. A gente enfrenta esse tipo de dificuldade, mas são festivais fundamentais na cena baiana e para a música brasileira, porque todos os artistas que circulam pela região Nordeste passam por nossa cidade e passam por Vitória da Conquista. A gente está promovendo essa cena e estimulando a circulação desses artistas no país.
O festival tem uma marca, que é o equilíbrio entre artistas locais e nomes de destaque da cena nacional, como Black Pantera, Dead Fish, Boogarins, Francisco el Hombre e Supercombo, por exemplo. Como é feita essa curadoria?
A nossa curadoria é voltada para esse universo da música independente. A gente está preocupado com essa cena que está acontecendo agora, mas não queremos perder de vista também os nossos artistas daqui, como Dionorina, por exemplo, que tem mais de 4o anos de carreira e continua ativo, produzindo, fazendo show… inclusive, estamos homenageando ele nesta edição. Não queremos perder esses elementos. Ficamos tentando equilibrar. Nós buscamos artistas que entendam a realidade do festival, então, às vezes a gente pensa num nome foda, mas o custo dele está muito além do que daria para trazer… pensamos na nossa curadoria para conectar a cena nacional com a cena de nossa cidade sempre. Nós não abrimos mão de ter uma quantidade boa de artistas locais, mas também queremos mostrar como que tá fervilhando essa música autoral do Brasil inteiro.
E o que simboliza, tanto para o Festival quanto para Feira de Santana, essa homenagem ao Dionorina?
Ao longo desses anos trabalhando com produção eu fui tendo contato com o trabalho dele. Ele é o cara! É um gigante da música brasileira, no reggae, principalmente, e às vezes passa batido na sua própria cidade. O cara faz turnê na Europa, toca em tudo quanto é grande evento pelo Brasil, mas em Feira de Santana falta um olhar mais cuidadoso… Dionorina é uma figura que tem uma relação muito profunda com a cidade. Se você se sentar para conversar com ele, vai ouvir histórias do surgimento das coisas da cidade, dos bairros… são muitas histórias, é um cara que tem uma relação muito profunda com Feira de Santana. A gente já tinha esse desejo de fazer uma homenagem há um bom tempo e nós fomos tentando. Esse ano surgiu a ideia de colocar o nome dele no palco principal pelos seus cinquenta anos de carreira e por ele ser uma figura importantíssima com discos fundamentais do reggae brasileiro em sua discografia. E foi um jeito também de homenagear o artista com ele vivo, com ele no palco cantando e tocando, ao invés de fazer homenagem póstuma… temos grandes artistas que já partiram e que também mereciam uma homenagem, mas por que não homenagear um que está aqui com a gente, que vai poder subir no palco e fazer um grande show?

Vocês abriram um edital nesta edição para que bandas autorais e independentes enviassem material e tivessem a chance de participar da line-up do Feira Noise. E aí, como foi esse processo?
Sempre digo que a principal função do festival é mostrar e apresentar novos artistas para o público. Gosto quando as pessoas vão e dizem “conheci tal artista no Feira Noise e virei fã” porque, para mim, esse é o objetivo central. Deveria ser o objetivo central de qualquer festival de música apresentar novos artistas. Como ficamos por seis anos sem uma edição presencial, percebi que era importante abrir um edital para receber propostas e ampliar mais esse olhar sobre o que estava acontecendo, o que tinha de gente produzindo trabalhos e tal. Ficamos surpresos com o número gigante de inscritos, em todos os estados brasileiros tinha pelo menos um representante. E, na verdade, a intenção da gente era selecionar seis artistas e acabamos selecionando oito por conta desse número muito alto de inscrições, mas ficamos divididos entre muitos… na primeira lista, tinha mais de cem! Na segunda, fomos filtrando e caiu para quarenta, mas mesmo assim foi bem difícil selecionar…
Antes do Feira Noise, tem o Fervura, que neste ano trouxe Mombojó, 43Duo e Tangerina Jones. Isso reforça bem esse conceito que você comentou de apresentar artistas não tão conhecidos ainda ao público. Mas o que o Fervura significa? É tipo um esquenta pro festival?
São os aquecimentos do festival. Tradicionalmente, a gente sempre faz o Fervura durante o ano e brincamos que “se tem Fervura, vai ter Feira Noise”, é o sinal principal para o público. E aí calhou de estar tendo uma turnê bem legal do Mombojó, que está celebrando o primeiro álbum deles…
A programação deste ano vai além dos shows, incluindo painéis, oficinas e mesas temáticas. Que importância essas ações formativas têm dentro do festival?
Nós sempre priorizamos esses espaços de formação dentro da programação do festival. Já teve edição com mais de trinta oficinas, já teve edição com menos… isso sempre vai de acordo com o que temos de possibilidade de recurso. Mas sempre priorizamos esse tipo de formação porque entendemos que a cena precisa de novos profissionais atuando, e é importante que a gente discuta a própria cena, discuta política pública para essa cena… trabalhamos com isso das mesas temáticas, de discussões com as oficinas. Esse ano vamos trazer pela segunda vez o intercâmbio de saberes, que é um edital onde selecionamos dez jovens para participar diretamente da produção em vários setores do festival para entender na prática como é que funciona a construção de um evento como esse. A gente gosta de trabalhar esse espaço de formação dentro da programação do festival.
Como estão as expectativas por aí para essa edição e o retorno presencial depois de tantos anos?
Uma expectativa absurda porque estamos há cinco anos sem fazer o festival. Seis, na verdade… a última edição presencial foi em 2019 e a gente tava morrendo de saudade. Vai ser uma edição histórica já pela quantidade de dias, que serão cinco; três na Casa Noise e dois na Ária Hall. Serão mais de trinta atrações, com sete bandas em cada dia no palco principal. Vai ter Dead Fish, Vivendo do Ócio, Maglore, Tássia Reis, Mateus Fazeno Rock… muita expectativa! O que a gente sabe é que vai ser uma edição histórica, celebrando mais uma vez a música independente feirense, a música independente brasileira e conectando todo mundo, fazendo uma grande festa para focar na música independente. A gente convida todo mundo para Feira de Santana, venham conhecer a cidade, conhecer nossos artistas e também conhecer um pouco dessa cena brasileira e da cena baiana de música autoral independente. O festival vai acontecer entre 19 e 23 de novembro. No dia 20, uma quinta, é feriado [Dia da Consciência Negra], depois tem a sexta-feira… então dá para enforcar e pegar os cinco dias de festival. Feira de Santana é uma cidade de baixo custo, o que é importante, porque você não vai gastar o que gastaria em vários outros festivais… os ingressos também estão com preço fino, tem inteira, tem meia, tem meia social, dá para curtir bastante.

– Danilo Souza é estudante de jornalismo da UESB (Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia). Acompanhe seu trabalho em instagram.com/danilosouza.jornalismo/