texto de Fabio Machado
fotos de Fernando Yokota
Alcançando sua décima-quinta edição em 2025, o Balaclava Fest já ocupa lugar certo no calendário e no coração dos indies paulistanos. Este ano, o festival talvez tenha preferido não mexer em time que está ganhando e seguiu à risca a fórmula da edição anterior, tanto em relação ao local (Tokio Marine Hall) como na curadoria que une nomes queridos da música alternativa (no palco principal, o Balaclava) a artistas nacionais e internacionais que estão despontando (em um palco paralelo, o Vans). É uma boa contrapartida para o modelo de megafestivais impulsionados por ativações de marketing e com curadoria assumidamente mais mainstream que tem se tornado a regra nos últimos anos. Mas nem tudo são flores – mesmo quando as flores são cantadas pela voz de Lætitia Sadier – e existiram alguns percalços que podem indicar uma necessidade de recalcular a rota por parte da Balaclava. Mas isso fica para mais adiante.

No início, tudo estava bem organizado nas dependências do Tokio Marine Hall. O espaço de merch tinha vários atendentes e dava conta da demanda inicial, mesmo com muita gente buscando camisetas e outras lembranças do dia. Ali ao lado, o espaço externo do fumódromo era um bem-vindo respiro (sem ironia) a quem precisava desopilar um pouco do ambiente de música. Por questões logísticas, este jornalista não conseguiu acompanhar o show de Gab Ferreira, que abriu os trabalhos no palco Vans, mas o fotógrafo Fernando Yokota teve boas impressões sobre a cantora. Mas deu tempo de conferir a entrada dos Walfredo em Busca de Simbiose ao som de nada mais, nada menos que o tema de “Green Hill Zone” (Masato Nakamura), a primeira fase do primeiro Sonic, lançado em 1991 e portanto gravado eternamente no córtex de quem passou a infância jogando Mega Drive com os amigos.

Pareceu uma chamada à nostalgia que, de certa forma, também embala os arranjos do conjunto, com canções que podem lembrar tanto Boogarins como Clube da Esquina se essas bandas fossem ouvidas em uma sala com uma equalização sonora mais voltada para os graves… que era justamente o caso do palco Vans naquele momento. Não que isso fosse um grande impedimento; o resultado sonoro combinado com a dimensão reduzida do palco trouxe um pouco de underground e calor humano ao festival. Mais complicado foi o fato de não terem aberto as portas que davam acesso ao palco Balaclava, o que resultou em um congestionamento de pessoas que se atrapalhavam na tentativa de ir até o bar ao lado do palco ou simplesmente assistir ao show. Lá pela metade do set dos Walfredo, alguém deve ter notado isso e abriu as portas, o que ajudou a espalhar o público e diminuir consideravelmente o bololô de gente. De todo modo, uma parcela fiel continuou acompanhando a banda, que apresentou diversas canções do seu álbum mais recente, “Mágico Imagético Circular” (2025).

Enquanto isso, um público variado aguardava a entrada do inglês-porém-quase-brasileiro Geordie Greep e sua brasileiríssima banda que inclui Vitor Cabral (bateria), Fábio Sá (baixo), Chicão Montorfano (teclados, que também participou do disco “The New Sound”, lançado em 2024), Daniel Conceição (percussão) e Filipe Coimbra (guitarra).- os mesmos músicos que o acompanharam nos shows anteriores no Bar Alto (SP) e no Sesc Jundiaí. Ao trazer um time de primeira linha para acompanhar sua curiosa jornada sonora, Geordie tem a liberdade para revisitar temas de “The New Sound” como “Walk Up” e “Terra” (um simpático sambinha-para-gringo-ver) de forma mais expansiva, abrindo espaço para improvisações diversas dos instrumentistas e do próprio Greep, que volta e meia se aventurava na guitarra cravando belos solos com pegada jazz-roqueira. Se na apresentação do Bar Alto, Greep e os músicos ainda estavam ajustando detalhes das músicas, agora o conjunto está muito mais azeitado nas passagens intrincadas tecidas pelo britânico; em certo momento, parecia um dia normal no Sesc Pompéia, onde aventuras instrumentais no palco da Comedoria ou do Teatro já são de praxe. Se por um lado o revisionismo jazz fusion caiu no gosto da maioria dos presentes, que por vezes pareciam hipnotizados pelas melodias e ritmos quase insanos que apareciam, não deixa de ser curioso o fato de que Greep também apela para uma forma de nostalgia (aquela vista anteriormente em Walfredo em busca de Simbiose), mas agora buscando o vocabulário jazz-prog-fusion com tempero brasileiro – estilo que, até os anos 1990, era comumente esnobado por críticos e pelo público indie. Revisionismo histórico ou não, o fato é que funciona em estúdio e ao vivo.

Após uma breve pausa no fumódromo, foi o momento de conferir outro apelo nostálgico no palco Vans, mas numa energia totalmente oposta ao de Greep e seus associados brazucas: o pós-punk gélido dos Jovens Ateus, que assumem sem medo todos os clichês do estilo: postura contida, bateria eletrônica, baixo onipresente e vocais imersos em reverb, cantados em português. Apresentaram sons do álbum “Vol. 1”, lançado em 2025, que ao vivo ganharam um tanto a mais de agressão e eletricidade nas guitarras. Apesar da disparidade em relação às atrações anteriores, conseguiram fisgar não só o público que fazia um baile particular agitando mais à frente, mas também os curiosos que passavam de um palco a outro. Destaque também para a agitada “Iglesia”, do EP auto-intitulado de 2023. No geral, um show correto mas que poderia ser mais interessante se os Jovens Ateus se aventurassem mais para além das quatro linhas do pós-punk.

Do outro lado, fãs de carteirinha do Yo La Tengo (e muitos outros não tão fãs assim, mas tudo bem, festival é para isso) aguardavam com ansiedade a entrada do conjunto no palco Balaclava, o que aconteceu dentro do horário previsto. A expectativa é compreensível, afinal eles não se apresentavam por aqui há 11 anos. E a experiência de um show do trio norte-americano é singular, por alguns motivos. Primeiro, há um silêncio solene por parte do público que é raro de acontecer hoje em dia. Do início litúrgico com “Big Day Coming” à catarse do final com “I Heard You Looking” (com participação surpresa de Tim Gane, do Stereolab, nos synths), é notável a atenção plena de todo mundo que ali está, seja pela devoção de quem conhece a fundo a obra de Ira Kaplan (guitarra/vocal), Georgia Hublew (bateria/vocal) e James McNew (baixo/vocal), ou pela curiosidade de quem não os conhece, mas sabe que está testemunhando uma coisa incrível em forma de música.

Para além do silêncio – que também é um elemento importante no som do Yo La Tengo – outra coisa interessante é que a abordagem deles no palco é ser praticamente um anti-power-trio, desconstruindo todos os clichês em torno dessa formação tão importante para o rock. Sim, o baixo conduz e preenche as músicas, mas também é carregado de distorção quando necessário. Sim, a guitarra tem riffs legais mas do nada pode trazer ambiências imprevisíveis ou uma cama de distorção, especialmente quando Ira Kaplan resolve brincar com o instrumento e equilibrá-lo no ar ou esfregá-lo contra o amplificador. E a bateria de Georgia Hublew é mais pintura do que marcação de tempo, indo além da batida motorik e ganhando contornos quase sinfônicos. E eles ainda se revezam nos instrumentos e vozes quando necessário. O resultado é um show que você aprecia não pela destreza dos músicos, mas pela capacidade que eles têm em conjurar sentimentos em formas de frequências e ritmos em músicas tão diferentes entre si quanto “Stockholm Syndrome” e “Ashes”. Provavelmente uma das melhores apresentações deste ano, o que não é um feito fácil.

Após um show tão imersivo, a impressão foi que o público na casa havia aumentado consideravelmente, não só porque muitos pareciam ter chegado nesse horário para conferir as últimas atrações da noite. A jornada até os bares, banheiros e fumódromos ficava cada vez mais complicada perto do palco principal e exigia alguma paciência com as inevitáveis filas que se formavam. E não demorou para que o querido fumódromo, aquele oásis esfumaçado ao céu aberto, também ficasse superlotado e inacessível para quem buscasse algum descanso após os shows. Restava conferir o slowcore dos norte-americanos Horse Jumper of Love, que durante a semana também fizeram um sideshow no Bar Alto em noite dividida com o terraplana. A sonoridade é lenta, melancólica e ainda assim envolvente, com guitarras cortantes em contraponto ao vocal monocórdico do guitarrista Dimitri Giannopoulos. Interessante que o clima slowcore se manteve até nas interações com a platéia: “Como vocês estão hoje?” indagou Dimitri, num tom calmo e bem oposto ao peso trazido pelas guitarras do conjunto.

Mas se a lentidão do Horse Jumper of Love ainda cativava parte do palco Vans, era o Stereolab que atiçava a maioria dos presentes no Tokio Marine Hall, espalhados e escorados como podiam nas imediações do palco Balaclava. Alguns sentavam sem cerimônia no chão, outros recostavam-se nas pilastras e paredes, mas de alguma forma a curiosidade era grande em torno da apresentação do grupo anglo-francês cuja última passagem pelo Brasil foi por volta dos anos 2000. Pouco antes do início do show, uma iluminação azul toma o palco e aparecem imagens de Lô Borges no telão, enquanto “Trem Azul” (Clube da Esquina) tocava nos alto-falantes. Na hora do refrão, não teve jeito: uma plateia indie ecoando “Você pega o Trem Azul / O Sol na cabeça….” Foi simples, mas memorável. E deixou o clima perfeito para a entrada do Stereolab em seguida, com sons de sintetizadores anunciando a primeira canção, “Aerial Troubles”, do mais recente “Instant Holograms on Metal Film”, de 2025 (que também compreendeu a maior parte do setlist, diga-se). A vocalista Lætitia Sadier parou para dar boa noite e deu sequência à baguncinha sonora de “Motoroller Scalatron” (do mais antigo “Emperor Tomato Ketchup, 1996), com suas diferentes camadas rítimicas de sintetizador, bateria e vozes.

De forma semelhante ao Yo La Tengo, o público também entrou em estado pleno de atenção. O que é mais do que compreensível, porque logo no início fica claro que tudo o que o Stereolab coloca em cima do palco é importante, da luz aos ritmos circulares, synths e cordas presentes nos arranjos. O limite parece a própria imaginação de Lætitia e seus associados. A vocalista ainda arriscou diversos solos de trombone em temas como “Vermona F Transistor”. Um dos momentos mais sublimes foi quando executaram “The Flower Called Nowhere” (de “Dots and Loops”, 1997) com suas diversas evoluções e referências que evocam psicodelia, pop francês e até mesmo um tiquinho melódico de Clube da Esquina (mais do que bem-vinda a homenagem anterior ao saudoso Lô, portanto). Só que mesmo fundamentado em sonoridades criadas e consagradas no auge do século XX, o Stereolab continua soando atemporal, incluindo jams e momentos improváveis como um trecho quase metal-jazzístico em “Melodie is a Wound” que faria os jovens da Papangu abrirem um sorriso. Ou no groove dançante de “Miss Modular”, anunciada por Lætitia antes de falar um “eu te amo” em português e conquistar todos os corações que ainda não haviam sido hipnotizados pela banda até então. A francesa também avisou (dessa vez em inglês) para “continuarem com os sapatos de dança” e emendou a viagem sônica da igualmente dançante “Household Names”.

Antes de anunciar a contemplativa “Esemplastic Creeping Eruption” (também do mais recente “Instant Holograms in Metal Film”, Lætitia fez um breve comentário: “Em um mundo que quer nos dividir, nós queremos nos unir. Mas com menos igreja e estado”. O tipo de coisa que dá o que pensar antes de perder a noção do tempo e espaço com os timbres de synth, a bateria kraut e as melodias de nave espacial que aparecem e desaparecem no meio das canções dos anglo-franceses. De fato, é uma apresentação que pode cansar os não-iniciados; lá pelo final, via-se parte do público demonstrando cansaço e saindo do local. Mas para quem aguardava 25 anos por uma nova visita, estava tudo certo. Até mesmo quando Lætitia fala em francês sobre estar assustada em “Percolator”, com sua bateria ímpar instigante, ou na literalmente elétrica “Electrified Teenybop!”, que encerrou a primeira parte do set. O bis veio com mais uma do álbum mais recente (“Immortal Hands”) e outra dos anos 1990 (“Cybelle’s Reverie”), fechando com chave de ouro essa passagem única do Stereolab pelo Brasil. Teria sido lindo mais uma apresentação solo, a exemplo do Yo La Tengo (que deve estar se apresentando no momento em que esse texto está sendo finalizado, lá no Cine Jóia). Mas resta torcer para que o retorno não leve outros 25 anos.

Ao final do evento, fica a certeza de que o Balaclava Fest continua relevante. A ideia de realizar “um festival sem perrengues” (como a própria organização anunciou nas redes sociais) é ótima, ao trazer o formato com um escopo reduzido e mais voltado para o nicho alternativo. Mas seria interessante para as próximas edições repensar o espaço utilizado: a qualidade sonora do Tokio Marine Hall é inegável, mas o espaço claramente não foi pensado para suportar grandes movimentações de público indo de um palco a outro. Ter mantido as portas fechadas do palco Balaclava até pouco antes do show do Georgie Greep não foi uma boa idéia, e mesmo após tirarem esse empecilho, a circulação seguiu intensa até pouco antes do fim. Talvez um modelo a seguir seja o da Popload, que fez um esquema de palco semelhante usando o espaço aberto do Parque Ibirapuera. Quanto à curadoria, se por um lado a aposta no seguro foi bem recebida pelo público, poderia ser mais instigante se buscasse um olhar para artistas fora do catálogo da Balaclava, trazendo mais mulheres ou mais diversidade regional entre seus integrantes, por exemplo. São pontos de atenção que não tiram o brilho do essencial: foi um dia bom para ser fã de música fora do mainstream.

– Fabio Machado é músico e jornalista (não necessariamente nessa ordem). Baixista na Falsos Conejos, Mevoi, Thrills & the Chase e outros projetos.
– Fernando Yokota é fotógrafo de shows e de rua. Conheça seu trabalho: http://fernandoyokota.com.br/