Em noites contrastantes, Afropunk balançou Salvador com encontros frutíferos

texto por Nelson Oliveira
fotos de Afropunk Brasil

No fim de semana dos dias 8 e 9 de novembro, Salvador voltou a pulsar com o som do Afropunk. Em sua quinta edição no Brasil, o maior festival de cultura negra do mundo mais uma vez ocupou o Parque de Exposições com dois dias de música, memória e reinvenção, como um ponto de convergência onde o país negro se reconhece, se celebra e se reflete.

Em 2025, o evento reuniu mais de 50 mil pessoas e pareceu consolidar esse papel, mesmo em um formato mais enxuto – sete shows por dia, contra os nove e oito de 2024, embora com convidados em apresentações que equilibraram o corte. O sábado foi de energia oscilante, mais voltado ao público fiel dos artistas; o domingo, por sua vez, mostrou o festival em estado pleno, diverso e contundente.

No fim das contas, o que mais chamaria atenção seriam os encontros planejados especialmente para esta edição, que figuraram entre os momentos mais altos do fim de semana. O Scream & Yell, presente desde a primeira edição brasileira, acompanhou de perto tudo o que de melhor (e mais revelador) aconteceu nessas duas noites.

DJ Boneka

Sábado, 8 de novembro
Line-up: Coco Jones (EUA), BK’ (RJ), Péricles (SP) Budah (ES) & Wyclef Jean (Haiti), ÀTTØØXXÁ (BA), Núbia (MA) convida Muzenza (BA) e DJ Boneka (PE)

O sol se punha sobre o Parque de Exposições quando a pernambucana DJ Boneka assumiu o palco principal. A abertura, calcada em batidas afro-eletrônicas e no bregafunk do Recife era o prenúncio de uma noite que flutuaria entre o ancestral e o pop, ou o tambor e os beats.

Núbia e Célia Sampaio

A primeira grande performance veio com Núbia, representante do reggae maranhense que atravessou o Nordeste para dividir o palco com o bloco afro Muzenza, ícone do samba reggae de Salvador, num encontro entre artistas que carregam consigo referências de dois dos maiores polos da cultura negra do país. O show ainda teve a participação surpresa de Célia Sampaio, a dama da Jamaica Brasileira, que entrou no palco envolta numa bandeira do Maranhão e reviveu com Núbia a parceria de “Cartas a uma Negra”, numa comunhão de gerações e vozes femininas que versam sobre dor, exílio e renascimento.

A apresentação de Núbia, baseada no álbum “Sabores” e no EP “Peso da Ilha”, teve como destaques “Voo de Renúncia” (com arranjo bastante potente), “Sabores” e “Andamento”, que deixaram o público ligado – a ótima “Bomber Man”, porém, ficou de fora do repertório. Só por volta dos 50 minutos de show o Muzenza entrou em cena, chegando juntamente ao cantor e compositor Dja Luz e levando sua percussão característica para o Parque de Exposições. Claro, não poderia faltar um medley de “Swing da Cor” e “Brilho de Beleza” para encerrar o encontro.

Budah & Wyclef Jean

A sequência, com Budah, mostrou outro tipo de força. A rapper subiu ao palco em clima de ritual íntimo, num espetáculo centrado na turnê “Púrpura”, homônima a seu primeiro álbum de estúdio, lançado no fim de 2024. Por si só, já foi uma escolha instigante a decisão de, em um festival que volta e meia revela uma curadoria de viés mais comercial, abrir a programação com uma maranhense e uma capixaba – artistas vindas de estados historicamente sub-representados nos grandes circuitos musicais do país.

Em faixas que versam sobre amor e desejo, como “Púrpura” e “Cansei de Ser Só Minha”, Budah criou uma atmosfera quase hipnótica, reforçada por um público devoto, que entoava cada verso – mais para o fim do show, também ganhou destaque o arranjo com guitarra e bateria marcantes em “Lingerie”, canção que a projetou em 2020.

Budah & Wyclef Jean

O momento mais esperado, porém, veio com a entrada de Wyclef Jean, lenda haitiana e membro fundador dos Fugees. Ele chegou em festa, emendando “Hips Don’t Lie”, “Fu-Gee-La” e “911”, chegando até a partir para uma performance mais agressiva e tocar guitarra com sua língua. A química com Budah foi imediata e ele não poupou elogios à capixaba, comparando-a a estrelas como Lauryn Hill, Beyoncé, Mary J.Blige, Whitney Houston e Shakira.

Juntos, tocaram ao vivo pela primeira vez o feat “Montanha Russa (Would You Be Mine?)”, lançado na semana anterior, e depois emocionaram com uma versão de “No Woman, No Cry”. Após a catarse, a rapper capixaba ainda chamou MC Luanna, uma das atrações do Afropunk no domingo, para a incendiária “Não Adianta Me Ligar”.

Coco Jones

Mas o clima esfriou um pouco com a apresentação seguinte. A americana Coco Jones, uma das novas vozes do R&B, fez sua estreia na América Latina com um show mais performático do que musical. Sem banda ou DJ, acompanhada apenas de bases pré-gravadas e um corpo de baile impecável, Coco investiu em um espetáculo visual, pautado pela coreografia e pela sensualidade. Vestida de dourado e irradiando brilho, acabou sendo associada à Oxum, num paralelo inevitável com o tema do palco, inspirado nas orixás femininas.

O público fiel da norte-americana não deixou de cantar junto em nenhum momento, mas o restante dos presentes oscilou entre a contemplação e a distração. Momentos como “Taste” – faixa que inclui o refrão do hit “Toxic”, de Britney Spears – e “On Sight”, se destacaram, recuperando a atenção de quem estava aéreo. O ponto alto, curiosamente, veio num interlúdio: enquanto Coco Jones recuperava o fôlego no backstage, suas dançarinas surpreenderam com uma improvável coreografia ao som do sucesso “O Baiano Tem o Molho”, d’O Kannalha. Certamente ninguém ali estava aguardando uns minutinhos de pagodão naquele show.

Péricles

Em seguida, o veterano Péricles trouxe o público de volta ao calor. Em sua estreia no Afropunk, o “Rei do Pagode” mostrou por que é uma instituição da música popular brasileira. Carismático e impecável na voz, comandou um repertório que soou como trilha coletiva da vida amorosa de muitos dos presentes. “Até Que Durou” e “Melhor Eu Ir” ecoaram nos celulares e nas gargantas dos apaixonados – que cantavam olhando para suas telas em stories gravados ao vivo ou eram captados pelas câmeras da transmissão oficial com olhos marejados.

Por sua vez, “Quando a Gira Girou” e “Se Eu Largar o Freio” fizeram o festival virar uma grande roda de samba. Homenagens a Martinho da Vila (“Canta, Canta, Minha Gente”) e Arlindo Cruz e o Fundo de Quintal (“O Show Tem Que Continuar”) trouxeram as raízes do gênero para o Parque de Exposições e mostraram a versatilidade de Pericão quando o assunto é pagode.

BK’

Depois dele, o rapper BK’ assumiu as rédeas do Afropunk. Vindo do elogiado “Diamantes, Lágrimas e Rostos para Esquecer”, lançado no início de 2025, o carioca apresentou um repertório construído sobre este álbum, mas também com algumas faixas de “Icarus” (2022). Ao vivo, porém, ficou evidente um pequeno dilema: o aplauso à música brasileira em sua pluralidade, tão central no último trabalho, acaba soando mais alto do que os próprios versos do rapper. O brilho das participações e dos samples frequentemente se sobrepõe ao do anfitrião.

“Não Adianta Chorar”, que resgata o Trio Mocotó, e “Só Eu Sei”, moldada sobre “Esquinas”, de Djavan, são grandes momentos do show, mas é difícil não sentir que o encanto vem, sobretudo, das referências, dos samples e das participações. O mesmo vale para as delicadas “Cacos de Vidro” e “Só Quero Ver”, ambas com Evinha – que deixaram no ar que a curadoria do festival paraense Psica mandou bem ao optar por levar o encontro entre os dois para sua próxima edição, em dezembro. Essa impressão já se insinuava em Icarus, como em “Se Eu Não Lembrar”, parceria inspirada com Marina Sena.

No rap, isso é conhecido como “roubar a faixa”. Em suma, algo que ocorre quando um convidado se impõe com seus versos sobre o artista principal – e, no caso de BK’, talvez isso aconteça por pura generosidade nas faixas citadas. Abebe Bikila, afinal, continua capaz de chamar o jogo para si e manter o público em transe, como em “Planos”, “Só Me Ligar” e “Continuação de um Sonho”, em que sua voz retoma o centro e reafirma a força que o projetou entre os nomes maiores do gênero.

ÀTTØØXXÁ

A primeira noite de shows terminou com o ÀTTØØXXÁ, que retornou ao festival após três anos com uma formação encorpada por mais percussão e um corpo de baile. Depois de certa falta de coesão e consistência em shows recentes, a banda voltou em grande forma – embalada pelo peso da percussão, pela guitarra sempre insinuante de Chibatinha e flertes do pagodão e das bases eletrônicas que marcam o trabalho do grupo com gêneros como o reggaeton e o amapiano, que vêm sendo trabalhados por RDD em sua carreira paralela.

“Tranca Rua”, “Caixa Postal” e “Blvck Bvng” reacenderam o público, que transformou o parque em pista de dança. O repertório foi direto, potente, com poucos intervalos e muita entrega. O paredão final selou o sábado com uma energia que resgatou o espírito do Afropunk: o da mistura entre corpo, som, cultura popular e ancestralidade.

Domingo
Line-up: Tems (Nigéria), BaianaSystem (BA) convida Sister Nancy (Jamaica), Liniker (SP), Tatau (BA) convida Márcia Short (BA) & Lazzo Matumbi (BA), Os Garotin (RJ), MC Luanna (SP) e DJ Umiranda (DF)

O segundo dia começou com o DJ Umiranda, de Brasília, abrindo a pista com uma seleção de batidas quebradas e remixes de clássicos da black music brasileira, aquecendo o público sem pressa. Quando MC Luanna surgiu, o festival explodiu. A paulista entregou um show que reafirma o protagonismo feminino no funk e no rap. Entre versos autorreferenciais e beats pesados, Luanna desafiou convenções, fez rir e dançar, e ainda encontrou espaço para se emocionar em meio ao caos.

MC Luanna

“Rotina 2” foi o primeiro estouro, com dezenas de celulares filmando a apresentação, enquanto “99 Problemas”, parceria com a baiana Duquesa, levou o público ao delírio – embora a paulistana tenha optado por apresentar a versão original da faixa e não o seu remix em pagodão, o que, na visão deste escriba, faria mais sentido para o momento. A reta final, com o peso de “Botano (Útero Baixo)” em sua gravação de funk mandelão, numa parceria com os DJs Thiago Martins, Caio Prince e Mu540, fez o chão tremer em uma performance que uniu erotismo, ironia e contestação de convenções sociais.

Logo depois, Os Garotin suavizaram o clima. O trio de São Gonçalo, vencedor do Grammy Latino de 2024, trouxe seu R&B nostálgico, misturando carisma, charme carioca e leveza quase adolescente. “Zero a Cem” e “Queda Livre” fizeram o público sorrir; “Nossa Resenha”, parceria com Caetano Veloso, coroou um show doce e despretensioso. Se após Luanna eles pareciam meninos no jardim de infância, a ingenuidade virou trunfo. O Afropunk ganha também com esses respiros.

Os Garotin

Em crescendo, a noite continuou com Tems, em sua primeira e única apresentação no Brasil. Assim como Coco Jones, a nigeriana surgiu vestida de amarelo, evocando Oxum, a deusa das águas doces e da beleza. “Crazy Tings”, “Wickedest” e “Burning” abriram a apresentação com uma elegância rara: o R&B da cantora de Lagos é sofisticado, mas não distante; pop, mas sem diluir suas raízes africanas.

“Found” marcou o ponto alto de seu carisma. A artista desceu do palco para interagir com o público e convidou alguns homens da plateia para duetos sensuais, em clima intenso de flerte – dois deles se declararam para ela, que pediu que cantassem olhando nos seus olhos. Assim, entre espiadas constrangidas e risadas, provocou um dos momentos mais hilários do festival, com caras totalmente derretidos e envergonhados, balbuciando de forma desafinada as letras das canções para tentar impressioná-la. A reta final, com “Love Me JeJe” e “Me & U”, encerrou uma estreia empolgante: espirituosa e conectada com os presentes.

Tems

Liniker entrou em seguida e mudou a temperatura. Em sua apresentação de 2022 ela ainda parecia tatear o próprio espaço, e, na participação especial na última edição, a convite de Lianne La Havas, pouco tempo teve para se expressar – cantou apenas uma música. Agora, com o repertório de “Caju” (2024), está em pleno domínio da voz e do corpo. Com mais controle de palco e mais segurança de si própria, protagonizou um show potente, capaz de chamar a atenção até daqueles que consideram que a colcha de retalhos do seu álbum mais recente não é assim tão bem costurada.

A banda impecável, com oito backing vocals, os arranjos polidos – principalmente os do naipe de sopro, com seis integrantes – e uma presença magnética sustentaram um dos shows mais emocionantes do fim de semana. “Negona dos Olhos Terríveis”, “Pote de Ouro” e “Febre” condensaram a força e a vulnerabilidade que fazem de Liniker uma das mais reconhecidas intérpretes brasileiras do momento. “Veludo Marrom” e “Baby 95” mostraram a transição entre fases – da introspecção de “Índigo Borboleta Anil” (2021) à expansão solar de “Caju”. O show foi um mergulho afetivo e espiritual, que ainda trouxe versões de Djavan e Edson Gomes, e emocionou os milhares de fãs que foram ao Afropunk apenas para vê-la.

Liniker

Na sequência, foi a vez do encontro de parentes próximos entre Bahia e Jamaica. Retornando ao Afropunk, onde se apresentou em 2023, o BaianaSystem subiu ao palco num formato de show diferente, no qual receberia Sister Nancy, pioneira do dancehall, em um espetáculo que sintetizou o espírito do festival. De cara, uma surpresa: o Ministereo Público, grupo no qual Russo Passapusso emergiu como MC, abriu o caminho com clássicos do reggae brasileiro, como “Camelô” e “Me Abraça e Me Beija”. O Baiana então deu sequência à festa com “Sulamericano”, na primeira descarga de adrenalina da apresentação, que teria o clima habitual de transe coletivo.

Para introduzir Sister Nancy, puxaram “Malandrinha”, e músico, compositor e ativista baiano Arygil, conhecido por sua forte identificação com a cultura negra local, comandou os vocais neste momento. Quando a lenda jamaicana apareceu acompanhada de um MC, já foi logo brincando: “só faremos três músicas, então vamos aproveitar”. O hino “Bam Bam”, com toda sua levada inovadora no flow, fechou a participação da artista de 63 anos em alta. Mais tarde, outra canção fundamental do reggae ganharia espaço na voz de Larissa Luz: “You Don’t Love Me (No, No, No)”, de Dawn Penn, embalou os passinhos na plateia e houve até quem dançasse agarradinho, ao modo maranhense de curtir o ritmo.

Sister Nancy

Em seu show, o BaianaSystem ainda trouxe um pedacinho de “Oxe, como era doce”, que não vinha fazendo parte do seu repertório, e encaixou seus hits, “Lucro (Descomprimindo)”, “Saci”, “Balacobaco”, “Reza Forte” e “Forasteiro”, com as já tradicionais megarrodas se abrindo no público – dessa vez, com sinalizadores acesos por alguns dos fãs que costumam “orientar o carnaval” completando o cenário apoteótico. Para variar, um showzaço cheio de energia, digno de lavar a alma com (muito) suor.

Para fechar o domingo, era hora de recuperar a história da música afrobaiana. O espetáculo “40 anos da Afro-Axé Music”, liderado por Tatau, ex-Ara Ketu, com Márcia Short e Lazzo Matumbi, foi mais que um show – foi uma aula. A tríade simbolizou as origens, a força e a continuidade do axé como expressão de negritude e resistência.

Márcia Short, Lazzo Matumbi e Tatau

Tatau abriu os trabalhos com a potente “Protesto Olodum”, de sua autoria, que ficou famosa em diversas interpretações – como a do próprio bloco afro, a da Bamdamel e a da Banda Reflexu’s. Dando sequência à celebração, o repertório passou por sucessos do Ara Ketu (“Mal Acostumado”, “Amantes”, “Pipoca” e “Ara Ketu Bom Demais”), que levaram o público a um coro coletivo – assim como “Guerrilheiros da Jamaica”, que homenageia o Muzenza. A primeira convidada a participar foi Márcia Short, que brilhou com “Meu Samba Reggae”, “Crença e Fé” e “Faraó (Divindade do Egito)”, reafirmando a centralidade das mulheres na gênese do gênero. Lazzo Matumbi, por sua vez, emocionou com “14 de Maio”, “Alegria da Cidade” e “Me Abraça e Me Beija”, lembrando por que é um dos grandes monumentos da música afro-brasileira e “a voz da Bahia”. O público pediu mais, mas o tempo havia se esgotado e a alta madrugada de segunda terminaria em paredão.

Cinco anos depois de desembarcar no Brasil, o Afropunk se consolidou como uma instituição cultural que vai além do entretenimento. Ainda que mais compacto, o evento de 2025 reafirmou sua vocação para a mistura – entre gêneros, gerações e geografias. Do reggae maranhense de Núbia ao funk mandelão de MC Luanna, dos diálogos de sofisticação e música popular de Liniker ao samba-reggae ancestral de Tatau e do Muzenza, o festival mostrou que o som negro brasileiro é múltiplo e inclassificável.

Mais do que um desfile de artistas, o Afropunk segue sendo um espaço de disputa simbólica — um lugar onde se negocia o que é ser negro no sul global hoje. Há ali tanto a espiritualidade de Oxum quanto o suor das pistas; tanto o rap cerebral de BK’ quanto a festividade política do BaianaSystem; o pioneirismo de Sister Nancy e o R&B global de Tems. É essa convivência, tensa e fértil, que mantém os tambores e os corações pulsando. Salvador e o Brasil ainda festejam – e, enquanto celebrarem, resistirão.

Top 5 Afropunk Bahia 2025, por Nelson Oliveira

1 – BaianaSystem convida Sister Nancy
2 – Núbia convida Muzenza
3 – Tatau convida Márcia Short e Lazzo Matumbi
4 – Liniker
5 – Budah & Wyclef Jean

– Nelson Oliveira é jornalista e fotógrafo residente em Salvador. É diretor da Calciopédia, foi correspondente de esportes do Terra na Bahia e colaborou com UOL, VICE e Trivela. 

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