texto de Paulo Pontes
fotos de Rafael Strabelli / Divulgação
Menos de um ano depois de tocar em São Paulo, nos dias 15 e 16 de novembro de 2024, o Linkin Park voltou à capital paulista no último sábado, 8 de novembro, e deixou claro que não se trata mais de uma fase de testes. O que se viu foi uma banda consolidada, segura e em plena forma, pronta pra unir passado e presente sem precisar depender da nostalgia.
O Scream & Yell esteve presente novamente no Morumbis a convite do Santander, que tem um camarote exclusivo no estádio, o que deu uma visão privilegiada não só do palco, mas de toda a dinâmica do público: fãs antigos e novos, jovens e adultos, misturados em uma só emoção. A garoa fina que caía sobre o estádio em alguns momentos não diminuiu a energia, só acrescentou um clima paulistano à noite, dando textura a cada riff e a cada verso cantado a plenos pulmões.

Antes da entrada do Linkin Park, quem abriu a noite foi Poppy, responsável por um show curto, mas intenso. Diferente da apresentação que trouxe ao Knotfest 2024 (quando a artista parecia presa a backing tracks e com pouca interação com a plateia), desta vez Poppy conseguiu equilibrar a parte eletrônica com presença e entrega vocal. Foram 40 minutos que funcionaram como um aquecimento foda, com músicas pesadas e melódicas, mas com grooves que dialogavam naturalmente com a sonoridade do Linkin Park. A artista norte-americana mostrou evolução, um pouco mais de interação e presença de palco.
O show principal começou às 21h10 com “Somewhere I Belong”. A banda entrou de forma precisa, sem surpresas, mas com energia suficiente pra tomar o estádio inteiro. Emily Armstrong estava segura, alternando do vocal limpo ao gutural com naturalidade, sem jamais tentar ocupar o lugar de Chester Bennington. Sua voz encontra o próprio espaço dentro dos clássicos e brilha nas faixas do novo álbum, “From Zero” (2024), como “The Emptiness Machine”, “Two Faced” e “Heavy is the Crown”.
Mike Shinoda continua sendo o motor do Linkin Park. Cantando, tocando guitarra, comandando o público e interagindo com humor e carisma. Em pequenos gestos ele mostra não só proximidade com o público, mas também o controle absoluto sobre a energia do show. Tecnicamente, o som não estava perfeito, principalmente nos primeiros minutos, mas o impacto emocional compensa qualquer falha. A banda, consolidada e confiante, mostrou que não precisa mais provar nada. Emily Armstrong já não é novidade, ela já é parte integral do Linkin Park, com autoridade e presença próprias.

O show se desenrolou em quatro atos, seguido de um bis, somando 27 músicas que conseguiram manter um equilíbrio impressionante entre clássicos e músicas da nova fase. O primeiro ato chegou com energia total: “Somewhere I Belong”, “Lying from You”, “Up From the Bottom”, “New Divide” e “The Emptiness Machine” incendiaram o MorumBIS, com o público cantando cada nota do início ao fim, sem qualquer ponto baixo.
No segundo ato, a banda explorou seu lado mais experimental, incluindo faixas eletrônicas como “The Catalyst”, “Burn It Down” e “Waiting for the End”, além da participação de “Where’d You Go”, do Fort Minor, projeto paralelo de Mike Shinoda. Poppy voltou ao palco pra se juntar a Emily em “One Step Closer”, reforçando a conexão entre abertura e banda principal, enquanto o solo de Joe Hahn, acompanhado por Colin Brittain na bateria, virou um verdadeiro espetáculo visual e sonoro que manteve todos em êxtase.
O terceiro ato trouxe um momento de introspecção e melodia, com “Lost”, “Good Things Go” e “What I’ve Done”, permitindo que a emoção da plateia respirasse antes da explosão final. E que explosão: o quarto ato e o bis foram o ápice absoluto do show, com “Overflow”, “Numb”, “Over Each Other”, “In the End”, “Faint”, “Papercut”, “Heavy is the Crown” e “Bleed It Out”. Sinalizadores acesos, braços erguidos, gritos e rodas transformaram o estádio em um mar de energia coletiva, deixando claro que o Linkin Park segue potente, relevante e capaz de emocionar em qualquer fase.

O que tornou a noite ainda mais memorável foi um momento inusitado no meio de “Numb”: se em Curitiba, a música ganhou uma inesperada e surpreendente introdução tecnobrega, em São Paulo rolou uma interação com uma fã, que ergueu um cartaz e um envelope diante de Mike, que chamou Emily pra participar. E ali, no meio do estádio e do hit, rolou um chá revelação de gravidez: uma menina estava a caminho.
Menos de um ano separou os shows da primeira passagem em 2024 desta noite de 2025, mas a diferença era clara: não se trata mais de experimentar ou testar a recepção do público. Trata-se de afirmar, com música, riffs e performance, que o Linkin Park continua relevante, potente e emocionante. A banda soube equilibrar passado e presente, clássicos e novidades, nostalgia e inovação, soando surpreendentemente familiar, e isso cria um espetáculo que não depende de saudade pra existir.
Quando o último acorde de “Bleed It Out” ecoou pelo MorumBIS, o que ficou foi a certeza de que o Linkin Park tá aí pra mostrar que ainda tem muito chão pra percorrer, sem precisar se apoiar só no passado. E, convenhamos, isso é foda.

– Paulo Pontes é colaborador do Whiplash e escreve de rock, hard rock e metal no Scream & Yell. É autor do livro “A Arte de Narrar Vidas: histórias além dos biografados“.