texto de Renan Guerra
Desejo, poder e fama são tópicos que andam bastante interligados, mas que ganham camadas bastante intrincadas em “Ato Noturno” (2026), de Marcio Reolon e Filipe Matzembacher. Na trama, Matias (Gabriel Faryas) é um jovem ator de teatro que conseguiu um importante papel em uma celebrada companhia de teatro de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. Já Rafael (Cirillo Luna) é um jovem político em ascensão que saiu candidato à prefeitura da capital gaúcha. Os dois personagens se conhecem e se encontram via aplicativo de encontros – um não sabe da história do outro, tudo o que sabem é que a química entre os dois se torna inflamável. Enquanto suas carreiras parecem crescer, a tensão sexual entre os dois apenas vai assumindo novos limites, já que Matias e Rafael estão cada vez mais entregando-se ao seu fetiche por sexo em público, caminhando cada vez mais num limiar que arrisca suas carreiras e imagens públicas.

Para contar essa história de desejo e moral, Reolon e Matzembacher, conhecidos pelos longas “Beira-mar” (2015) e “Tinta Bruta” (2018), mergulharam em uma série de referências ao cinema de gênero flertando descaradamente com o cinema noir e com o formato clássico de thriller – sem nenhuma vergonha de se aproximar dos thrillers eróticos que abundavam nos anos 1980 e 90 e que eram sucesso no fim de noite das TVs, uma vibe “Supercine”, da TV Globo. E para dar vida a esse universo, construindo essa Porto Alegre estilizada, a diretora de fotografia Luciana Baseggio buscou uma paleta de cores e tons delimitada, que trafega entre o vermelho, o azul e o amarelo de uma forma muito natural, criando uma ambiência que flui dos jogos de encenar do palco e da política para os jogos de seduzir do cruising e dos encontros públicos. Esse universo estético é completado pela trilha sonora assinada por Thiago Pethit e que traz composições originais dele ao lado de Arthur Decloedt e Charles Tixier. O trabalho do trio traz ecos desse universo dos thrillers e do cinema noir, ao mesmo tempo que adiciona camadas de estranheza que conversam demais com o universo transgressor do filme.
Essa transgressão se dá em dois universos: um) “Ato Noturno” bagunça as noções morais ao apresentar personagens moralmente falhos e dúbios, dois) o filme em nenhum momento os culpabiliza por seus desejos ou por seu prazer, pelo contrário, o rumo criado aqui é de uma explosão de desejo independente de tudo. A relação dos protagonistas Matias e Rafael vai se entrelaçando de forma bastante interessante na tela à medida em que suas explorações sexuais aumentam. Ao lado desse potente desejo, acompanhamos o desenrolar das carreiras de ambos: o ator que pode ter a chance de um papel de galã na televisão; o político que pode chegar ao posto de prefeito. Todos esses cargos requerem um certo decoro, uma construção social do que se espera de homens nesses espaços e é aí que “Ato Noturno” se torna mais interessante: até que ponto esses personagens conseguem esconder seus desejos e mascarar suas verdades? Até quando vai a encenação do jogo político e teatral? Aliás, somos todos intérpretes dos nossos personagens sociais?
Esse rico jogo ganha vida pelas atuações muito bem desenhadas de Cirillo Luna e Gabriel Faryas. Cirillo cria muito bem as nuances de Rafael, o político que defende o bem da família porto-alegrense e que busca a todo custo manter a imagem de bom moço perante os patrocinadores de sua campanha; esse personagem, aliás, pode render interessantes paralelos com diferentes políticos brasileiros, mas isso é outro papo… Já Gabriel Faryas, premiado por sua atuação no Festival do Rio deste ano, faz de seu personagem Matias a espinha dorsal do filme. Seu olhar e todo o seu gestual físico nos desenham de forma muito bem estabelecida as transformações do personagem, adicionando nuances que apenas enriquecem o filme. E mais que isso: Faryas tem um rosto que parece seduzir e dialogar com a câmera, cada pequeno gesto dele é como uma dança com o espectador, são minúcias muito específicas do cinema e que tanto o ator quanto os diretores conseguem encapsular de forma muito sábia.
“Ato Noturno” é um filme que pode ser incômodo para quem não se deixa levar por seu jogo erótico; mais que isso, pode gerar leituras rasas de quem espera narrativas cada vez mais moralizantes e com uma “mensagem” muito didática. Marcio Reolon e Filipe Matzembacher, felizmente, não estão nenhum pouco interessados nisso, eles querem é brincar com o espectador e nos levar para um passeio noturno pelas ruas de Porto Alegre sem os julgamentos pré-concebidos. Trata-se de um convite para que a gente se desprenda de certos ditames e se questione sobre muitas das nossas construções sociais. É um jogo divertido de sedução e tensão, em um thriller extremamente autoral e criativo, que nos embrenha no inesperado. Não tenha medo e se deixe levar!
“Ato Noturno” estreia nos cinemas brasileiros no dia 15 de janeiro.
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– Renan Guerra é jornalista e escreve para o Scream & Yell desde 2014. Faz parte do Podcast Vamos Falar Sobre Música e colabora com o Monkeybuzz e a Revista Balaclava.