texto de Fabio Machado
fotos de Stéfano Pinheiro
A edição de 2025 do Sesc Jazz traz uma curadoria que celebra a linhagem da música improvisada de raiz africana, com suas diversas diásporas pelo Brasil, América Latina e outros pontos do planeta. Essa linhagem atravessa diferentes gerações de artistas que, cada um à sua maneira, agregam e reinventam ritmos, melodias e tecnologias ancestrais muitas vezes à frente do seu tempo. Um exemplo pôde ser visto no encontro entre os pianistas Dom Salvador e Amaro Freitas: dois expoentes da criatividade e ancestralidade características da música instrumental brasileira, com influência global – Dom Salvador, pelo trabalho essencial no desenvolvimento do samba-jazz nas décadas de 1960 e 1970, que alcançou vôos internacionais por meio do seu trabalho com os conjuntos Rio65Trio e Abolição; e Amaro Freitas, igualmente ganhou o mundo pela trajetória de discos como “Y’Y” (2024), que desafiam a linguagem convencional do piano com sonoridades inspiradas na fauna, flora e folclore do Brasil.

Apesar da diferença de idade (Salvador tem 87 anos e Amaro, 34), ambos bebem da mesma fonte e adotam o mesmo instrumento para conjurar diferentes caminhos melódicos e rítmicos. Não por acaso, a expectativa desse encontro musical resultou em um teatro do Sesc Pompéia lotado (por três dias), que recebeu calorosamente Salvador e os demais músicos de seu Samba Jazz Quartet: Gili Lopes (contrabaixo acústico), Graciliano Zambonin (bateria) e Laura Dreyer (saxofone e flauta). O repertório inicial foi calcado na mescla perfeita entre jazz, blues e samba aperfeiçoada pelo pianista natural de Rio Claro (SP), mas que reside nos Estados Unidos há algumas décadas – tanto que é possível notar um leve sotaque norte-americano quando se dirige à platéia em português. Mas a brasilidade segue intacta no toque de seu piano e na interação com os demais músicos, em arranjos de temas como “Temátrio”, onde o gingado do samba conversa com o swing jazzístico sem qualquer falha de comunicação.

Após as primeiras canções da noite, Salvador faz uma pausa para agradecer ao público e ao Sesc pela recepção, e anuncia a primeira participação da noite: Armando Marçal (percussionista com um currículo extenso de participações em discos de MPB e instrumental), que aumenta ainda mais o tempero brasileiro e afrolatino nos arranjos do grupo. Na sequência, outra participação, agora com Zé Carlos (guitarrista que fez parte do Abolição, conjunto formado por Dom Salvador nos anos 1970 – foto abaixo) caprichando nas bases rítmicas e solos inspirados em sons como “Meu Fraco é Café Forte” e “Gafieira”, que ainda contaram com intervenções de bateria e percussão quase remetendo a uma escola de samba em pleno Carnaval.

Já havia passado cerca de uma hora desde o início da apresentação, quando Salvador anuncia Amaro Freitas, o último e mais esperado convidado, ao segundo piano. Amaro chega animado e faz uma divertida denúncia logo de cara: “Dom Salvador me enganou ontem, né? Desde nosso primeiro show que ele está me devendo um frango a passarinho, mas quando eu saí do camarim ele já tinha ido pro hotel”, arrancando risadas da plateia e até do decano pianista. Mas o começo alegre evoluiu para uma fala que foi o momento mais bonito da noite, e que dialoga diretamente com a proposta do festival. “Quando eu vejo Dom Salvador, eu vejo pessoas incríveis que carregam uma identidade da música brasileira”, comentou o pianista recifense, citando nomes como Elza Soares, Alaíde Costa, Naná Vasconcelos e outros artistas essenciais da música preta brasileira. “Se eu sou o que sou hoje é porque essa pessoa começou antes de mim, e essa pessoa é Dom Salvador”, completou, sob aplausos.

Era o momento perfeito para traduzir esse reconhecimento ancestral em música, que veio com um tributo ao percussionista Naná Vasconcelos e à Amazônia. Em sua versão original, Amaro usa seu piano preparado (técnica onde são adicionados objetos dentro do instrumento, com o intuito de explorar novos timbres e sonoridades) em conjunto com loops que criam uma ambiência de ruídos e sons que parecem surgidos do meio da mata. Na companhia de Salvador e os demais músicos, a proposta é ampliada pelas contribuições do coletivo, que surge discretamente com detalhes de pratos e tambores salpicando o ambiente, e que se somam a notas esparsas do contrabaixo, sax e piano. Incluir esse repertório após uma hora de canções mais “tradicionais” dentro do cânone do jazz pode parecer algo deslocado, mas a quebra de clima é mais do que bem-vinda, envolvendo o público em um ambiente totalmente novo, criado pela própria improvisação daquele momento. Em meio a essa imersão, um groove de bateria nos leva para outro lugar, com os pianos dialogando e orquestrando um crescendo musical em meio à essa floresta de notas. O ápice termina minimalista, somente com os pianos de Amaro e Dom Salvador conversando, em volume cada vez menor, até o silêncio.

O diálogo entre os dois pianistas segue em outros temas do repertório, com contornos mais soul jazz, e pontuando ainda mais a diferença de abordagem entre ambos. Amaro é praticamente um piano-fluxo-de-consciência, com muitas notas porém sem cair em um virtuosismo vazio. Ele vai tensionando as notas até onde pode, enquanto Salvador parece mais comedido, com intervenções pontuais em acordes e frases que contrapõem e ao mesmo tempo direcionam as notas do recifense. E tudo isso deságua num belo final puxado pelas palmas dos músicos e do público, exceto pela guitarra e percussão que terminam fazendo a levada essencial da canção. A conversa continua e em certo momento, ficam apenas os pianistas, que começam um tema que lembra um choro, sem grandes revoluções na forma ou no conteúdo.

A noite também teve um momento solo com Dom Salvador contando histórias e demonstrando muito carinho a Elis Regina. Na sequência, tocou “Para Elis”, tema de rara beleza melódica dedicado para a cantora, que também foi um respiro dentro do repertório. Mas a banda já retornava a seus postos (acompanhados por Amaro Freitas logo depois) e a brasilidade deu o tom nos arranjos até o final com mais samba-jazz, fechando o ciclo temático do repertório e trazendo uma execução e intensidade ainda maiores do que no início da apresentação. É óbvio que teve bis (pedido pela platéia de pé, em uníssono), que veio com “High Energy” e “Xambá”, temas marcados por arranjos instigantes com ritmos que grudam na alma e arranjos que apontam para o coração da música afrobrasileira: a capacidade de se reinventar, de propor melodias do vazio e de inspirar por meio da arte.

– Fabio Machado é músico e jornalista (não necessariamente nessa ordem). Baixista na Falsos Conejos, Mevoi, Thrills & the Chase e outros projetos.
– Stéfano Pinheiro é responsável pelo “fotografia da classe trabalhadora”. Conheça aqui!