Entrevista – Upchuck e o expurgo punk de “I’m Nice Now”, produzido por Ty Segall: “Ele deixou a gente fazer o nosso rolê”

entrevista de Alexandre Lopes

“And I’m tired of darker news” é um lamento que poderia traduzir a experiência de abrir qualquer feed de notícias dos últimos anos. Mas também é a primeira frase cantada por Kaila “KT” Thompson em “I’m Nice Now”, novo álbum da banda norte-americana Upchuck, lançado em outubro. Apesar do título, a obra está longe de soar agradável: é um disco sobre resistir em um mundo sufocado pelo racismo, sexismo e desigualdade, transformando a frustração em catarse punk.

Formado em Atlanta em 2018, o Upchuck nasceu como tantas bandas de garagem: amigos se juntando sem grandes planos, apenas para tocar alto. Primeiro vieram o guitarrista Mikey Durham e o baterista Chris Salgado; depois se somaram o também guitarrista Alex Hoffman e o baixista Ausar Ward. E foi Ward quem chamou KT para assumir os vocais – uma guinada surpreendente para quem, até então, preferia tocar violoncelo. Hoje, sua presença de palco feroz é a alma do grupo.

Sem redes sociais no começo da carreira e apenas com demos em circulação, a banda rapidamente se tornou um nome quente na cena local. Depois do EP “Upchuck” (2020), os álbuns “Sense Yourself” (2023) e “Bite the Hand That Feeds” (2024) chegaram aos ouvidos de lendas como Iggy Pop e Henry Rollins, que fizeram questão de incluir faixas do conjunto em seus programas de rádio. E agora, o quinteto estreia em uma gravadora maior (Domino) com “I’m Nice Now”.

O disco foi gravado no isolado Sonic Ranch, no Texas, sob produção de Ty Segall e masterização de Heba Kadry. Registrado majoritariamente ao vivo, o álbum preserva a aspereza de uma performance do Upchuck no palco: riffs que flertam com o grunge, vocais que transitam entre rap, spoken word, gritos e algumas passagens em espanhol que introduzem ecos da cumbia em meio ao caos punk. Mais que um detalhe étnico, essa dualidade de línguas também sugere que a raiva e o punk seguem como expressão de vozes múltiplas.

O próprio nome da banda – “vomitar” – ​​reforça essa ideia de expor nervos, expurgar insatisfações e transformar o desconforto em energia coletiva. “Anger is an energy”, já dizia sabiamente o PiL desde 1986. Em entrevista realizada antes do lançamento de “I’m Nice Now“, KT e Chris falaram laconicamente ao Scream & Yell sobre a gênese da banda, o processo de gravação com Ty Segall, a influência da cumbia no som, como é estar em uma gravadora maior, entre outras poucas coisas.

Ouça “I’m Nice Now” na integra abaixo

Primeiro de tudo: como vocês se conheceram e começaram a banda?
Chris: Bom, eu e o Mikey, o guitarrista, trabalhávamos juntos. Já éramos amigos antes, mas trabalhávamos juntos, e um dos caras com quem a gente trabalhava disse: “Ei, sabia que eu toco bateria?”. Então eu e o Mike começamos a tocar juntos, só nos divertindo. E o Mike meio que reuniu todo mundo e começou a banda. Aí a KT apareceu do nada. O Michael estava testando alguns vocalistas e a KT acabou sendo a que ficou, sabe?

Como vocês normalmente escrevem as músicas? Houve algo diferente que fizeram neste álbum em comparação aos anteriores?
KT: Para mim, não. A gente meio que só… pelo menos no meu caso, eu só começo a escrever. Eles gravam as faixas, demos, instrumentais, e eu entro e escrevo o que estou sentindo e depois gravo os vocais, que é basicamente como sempre fizemos, sinceramente. Acho que isso tudo acabou soando mais cru no resultado final.

O nome Upchuck é bem agressivo. De onde veio e o que significa para vocês?
KT: Cara, nem lembro mais! Faz tanto tempo… Acho que surgiu porque gravamos uma música chamada “Upchuck”, e essa foi a primeira coisa que eu disse. Estávamos pensando em nomes e falamos: “Por que não simplesmente Upchuck?”. Acho que “upchuck” é meio que uma purificação. Dá para sentir no jeito que falo e também no que canto, e no modo como todos nós liberamos… até na plateia, com o mosh, é um jeito de soltar qualquer merda que seja. É isso. (risos)

Como foi gravar o novo álbum quase que ao vivo com o Ty Segall? E o que vocês acham que ele trouxe para o som da banda?
KT: Bom, não sei para o Chris e os instrumentos, porque gravei meus vocais separadamente. Mas acho que ele deixou a gente fazer o nosso rolê, o que é muito legal. E o fato de já termos gravado com ele antes fez a gente se sentir confortável. Mas ele dava uma notinha aqui, outra ali, vários pequenos comentários, e isso ajudava a moldar o som até chegar no que queríamos. Queríamos que soasse como um disco ao vivo, isso era muito importante. Como se estivéssemos tocando no palco mesmo. E é meio difícil fazer isso em apenas 10 dias no estúdio, gravando uma faixa atrás da outra. Sei que ele enchia uns balões e estourava para nos manter acordados (risos), para manter a energia de um show. Mas ele é ótimo.

Legal. Chris, você quer acrescentar algo?
Chris: Cara, estou só tentando ficar acordado agora (risos). O que eu amo no Ty é que ele nos dá liberdade, mas também tenta nos guiar na direção certa, no que é essencial. Algumas músicas, tipo “Plastic”, nem estavam nas demos iniciais, sabe? Simplesmente apareceram no estúdio, né, KT?

KT: É, fizemos essa bem rápido.

Chris: “Plastic” surgiu do nada. Estávamos tentando gravar uma música, mas ela não estava funcionando bem, e o Ty disse: “Vocês têm mais alguma coisa?”. Aí mostramos uma ideia básica e começamos a escrever no estúdio mesmo. Então saiu do nada. Ele nos dá liberdade e estrutura ao mesmo tempo.

KT: É, ele é bem mais profissional…

Quais artistas e sons influenciaram este novo álbum?
KT: Não sei (risos)! Acho que quando me perguntam quem nos inspira e influencia, eu não sei dizer. Para mim, quando escrevo, é só sobre o que estou vivendo na hora, sabe? Então acho que minha vida me inspirou, minhas circunstâncias e toda a merda disso.

Dá pra perceber pelos vocais em espanhol do Chris uma certa influência de cumbia no som punk que vocês fazem. Como isso apareceu?
Chris: Essa é só a segunda banda da qual faço parte. A primeira foi com meu pai, tocando cumbia desde criança. Para mim é natural, faz parte da minha cultura. É o que eu amo. Eu amo punk, mas na real nem escuto tanto punk assim… Escuto muita cumbia, muitos corridos. Essa é a minha influência, de onde eu venho. Não sei como isso se mistura com o punk, mas acabamos fazendo isso. Sobre cantar, eu nunca pensei em cantar. Eu ia ser só baterista. Mas nosso guitarrista principal, o Mike, me jogou no estúdio dizendo: “Só fala alguma coisa, entra lá”. Eu dizia: “Não, não quero entrar lá”. Aí ele entrou junto comigo, me incentivando e aconteceu. Se não fosse o Mike, eu nem estaria cantando!

Que bom que ele te incentivou, porque a maioria dos bateristas não canta, não tem espaço para isso numa banda. E você canta três músicas neste álbum, certo?
Chris: Sim, sim. Em “Plastic”, “Homenaje” e “Un Momento”.

Legal. O novo álbum sai e vocês vão fazer vários shows na Europa. Já têm planos de uma turnê no Brasil ou em outros países da América Latina?
KT: Não por enquanto, mas com certeza estará nos nossos planos futuros.

Agora que vocês vão lançar um disco novo por uma grande gravadora, vocês sentem alguma pressão? Como estão lidando com isso?
KT: Eu não sinto nenhuma pressão, porque a Domino é incrível e todos são muito gente boa. Se sinto alguma coisa, é mais ansiedade. Só quero que o disco saia logo, que seja lançado logo!

Vocês enxergam as letras deste álbum como algo político, pessoal ou as duas coisas? Ou você só escreve as letras sem pensar muito em uma mensagem a ser passada?
KT: Acho que sempre tem uma mensagem por trás de cada música que escrevo. É literalmente sobre o que está acontecendo, em tempo real. Estamos vendo muita coisa desanimadora acontecer diante dos nossos olhos. Então é meio que tudo junto, sobre tudo isso. Pelo menos para mim.

– Alexandre Lopes (@ociocretino) é jornalista e assina o www.ociocretino.blogspot.com.br

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