Entrevista: Ocean Alley comenta novo disco “Love Balloon”

entrevista de Alexandre Lopes

Diretamente das praias ensolaradas da Austrália, o Ocean Alley está lançando “Love Balloon”, um disco de rock psicodélico carregado de groove e surf vibes. Quinto álbum da carreira, “Love Balloon” marca a estreia do sexteto formado por Baden Donegal (vocais, guitarra), Angus Goodwin (guitarra solo), Lach Galbraith (teclados, vocais), Mitch Galbraith (guitarra), Nic Blom (baixo) e Tom O’Brien (bateria) com o produtor Nick DiDia – que já trabalhou com Bruce Springsteen, Rage Against the Machine e Pearl Jam.

Gravado no norte do estado de Nova Gales do Sul, o disco mostra a maturidade de um grupo que começou no psicodelismo lo-fi, flertou com reggae e rock e agora chega até a brincar com influências de Creedence Clearwater Revival na faixa “Left of the Dealer”. “Ele trouxe ótimas ideias e o processo de gravação foi super fluido. Dava pra fazer o que quisesse, e ele falava: “Isso ficou legal” ou “tenta isso aqui”. Ele nos deu uma boa direção”, conta o baixista Nic Blom.

Mais ensolarado do que o antecessor “Low Altitude Living” (2022), o nome “Love Balloon” veio de uma letra do vocalista Baden, mas também de uma constatação: várias faixas traziam a palavra “love” no título. O resultado é um disco que combina positividade com a pegada já característica do Ocean Alley: jams hipnóticas, guitarras aveludadas, melodias de fácil assimilação e aquele clima relaxado que acompanha a banda desde os tempos de “Lost Tropics” (2016). O último single “Drenched” serve como uma boa síntese disso tudo.

Na entrevista a seguir, Mitch e Nic falam ao Scream & Yell sobre o processo de gravação de “Love Balloon”, a evolução criativa da banda e a influência do oceano em suas composições.

O que inspirou o nome do novo álbum e como o título se conecta com as músicas?
Mitch Galbraith: A gente queria escrever um disco um pouco mais animado do que o anterior, algo mais positivo que “Low Altitude Living”. E tem muitas músicas com a palavra “love” no título.

Nic Blom: percebemos isso só depois de ter finalizado o álbum. Tinham umas três ou quatro faixas com “love” no nome, e pensamos: “OK, então esse é um disco sobre amor.”

Mitch Galbraith: O nome veio de uma letra do Baden, que dizia “in my love balloon”. A gente achou essa frase muito boa, boa o suficiente pra dar nome ao disco todo. E foi assim que nasceu “Love Balloon”.

Este é o primeiro álbum que vocês gravam com o produtor Nick DiDia, que já trabalhou com Pearl Jam e Rage Against the Machine. Como foi trabalhar com ele em estúdio? O que ele trouxe para o som da banda?
Nic Blom: Foi incrível trabalhar com alguém desse calibre. A gente cresceu ouvindo as bandas que ele produziu, então no começo foi até um pouco intimidador. Mas depois que quebramos o gelo, viramos bons amigos e foi super fácil trabalhar com ele. Ele trouxe ótimas ideias e o processo de gravação foi super fluido. Dava pra fazer o que quisesse, e ele falava: “Isso ficou legal” ou “Tenta isso aqui”. Ele nos deu uma boa direção.

Mitch Galbraith: Ele é muito calmo no estúdio, não exatamente quieto, mas até mesmo meio “blasé”, do tipo “ah, tanto faz”, o que combina muito com a gente também. Deu muito certo, nos divertimos.

Porque vocês escolheram trabalhar com ele? Vocês são fãs dos discos nos quais ele trabalhou antes?
Mitch Galbraith: A gente conheceu o Nick através do Bernard Fanning (do Powderfinger). Estávamos procurando estúdio e produtor novos, e o Bernard nos apresentou o Nick, que tinha um estúdio na mesma região onde a gente mora, no norte de Nova Gales do Sul. E tudo começou daí.

A faixa “Left of the Dealer” faz referência a rock clássico como Creedence e Canned Heat, e também a pôquer. Como essa música surgiu?
Nic Blom: O Baden apareceu com aquele riff de guitarra com uma pegada meio “rolling”, e já tinha até escrito algumas letras. Aí, quando nos juntamos pra tocar, a música foi tomando esse caminho naturalmente. A gente decidiu seguir nessa linha mais “creedenceana”, com esse som roqueiro contínuo e nostálgico.

Mitch Galbraith: Nunca tínhamos feito algo com esse estilo antes, então seguimos por esse caminho e foi divertido. Ficamos bem empolgados com esse som novo.

Nic Blom: é, foi divertido de tocar.

Ao longo dos anos, o som de vocês evoluiu do psicodélico lo-fi para o reggae, rock e até momentos mais introspectivos. Como vocês enxergam essa evolução musical de “Lost Tropics” até “Love Balloon”?
Nic Blom: A evolução é louca. Quando ouvimos aquele primeiro disco hoje, percebemos que nosso processo de composição mudou muito. No começo, a gente não pensava tanto nas transições entre as partes, em como criar espaço nas músicas.

Mitch Galbraith: Quando éramos mais jovens, era mais uma vibe de jam de garagem, todo mundo tocando junto, sem tanta preocupação com estrutura. Hoje em dia, tem muito mais intenção e cuidado. A gente quer fazer algo mais limpo, bem construído e que soe bem. Algo que chame atenção, mas de forma acessível.

Como funciona o processo criativo da banda? Vocês têm algum ritual de composição ou cada música tem seu próprio caminho?
Nic Blom: Todos nós escrevemos. A gente marca uma data pra se encontrar e cada um traz ideias: um demo, uma progressão de acordes que alguém trabalhou em casa, qualquer coisa. A partir disso começamos a experimentar juntos naturalmente e ver no que aquela música dá.

Mitch Galbraith: É um processo bem aberto e democrático. Todos estamos juntos na sala testando as ideias um do outro. Se alguém diz “isso tá horrível” ou “isso soa bem”, a gente simplesmente aceita e segue em frente. Não tem ego, o foco é fazer boa música. Aí acabamos podando as arestas. Alguém pode vir falando “eu acho que essa é a melhor ideia” e os outros podem dizer “mas isso é horrível” (risos). Então você apenas lida com isso e segue em frente.

Com este álbum vocês acham que fizeram algo de diferente nesse processo democrático em relação aos anteriores?
Mitch Galbraith: É basicamente o mesmo criativamente.

Nic Blom: Esse processo continua parecido com o dos álbuns anteriores, mas neste disco a gente experimentou mais com sons diferentes e pensou melhor onde cada elemento deveria estar do que fazemos normalmente.

Eu sei que a maioria de vocês é surfista, menos o baterista, certo?
Sim sim (Mitch e Nic rindo)

Mas a música de vocês tem uma vibe ensolarada e fluida de surf. Essa influência do oceano é intencional ou acontece naturalmente?
Nic Blom: A gente cresceu na costa, surfando, andando de skate, indo à praia. Então essa influência está sempre ali fazendo parte, mesmo que inconscientemente.

Mitch Galbraith: Todos nós temos personalidades bem tranquilas, não lidamos com as coisas de forma muito séria e isso reflete na forma mais tranquila de como fazemos música, quando é apropriado. Recebemos bastante essa pergunta, mas a forma que você a formulou foi mais profunda que o normal, porque geralmente nos perguntam: “O oceano inspira suas músicas?” (risos). “Sim, nos inspira, mas não diretamente”. E é difícil dizer que sim de forma direta, mas acho que é algo que acaba influenciando nosso jeito de ser e de compor naturalmente.

A faixa “Confidence” viralizou no TikTok em 2023. Como vocês reagiram a esse sucesso repentino? Isso mudou a maneira como vocês enxergam o catálogo da banda?
Nic Blom: Foi bem legal. Nenhum de nós tem TikTok, então nem sabíamos o que estava acontecendo na hora. Mas definitivamente ajudou a espalhar nosso nome. Quem gostou dessa música acabou descobrindo o resto da discografia e outras faixas. Foi uma porta de entrada para um público mais jovem.

Mitch Galbraith: E qualquer publicidade acaba sempre sendo boa mesmo que não tenhamos que fazer nada. Mas é legal se conectar com mais gente. O TikTok é mais uma rede de pessoas mais novas e é legal poder interagir com esse público. A gente interage de maneira diferente com os fãs mais velhos, geralmente nos shows, mas foi ótimo ver “Confidence” ganhando uma nova vida por lá.

Vocês vão para a América Latina pela primeira vez, com shows no México, Brasil e Chile. No dia 23 de outubro tocam em São Paulo. O que esperam do público brasileiro? Já ouviram falar da energia dos fãs por aqui?
Mitch Galbraith: Sim, ouvimos que os fãs brasileiros são muito apaixonados e adoram música. A gente já vê nas redes sociais o amor que vem da América Latina, América do Sul e do Brasil, então estamos esperando sentir isso ao vivo. Mas, acima de tudo, estamos animados por estar em um lugar novo e conhecer novas pessoas!

– Alexandre Lopes (@ociocretino) é jornalista e assina o www.ociocretino.blogspot.com.br

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