introdução por Diego Albuquerque
Faixa a faixa por Raad Abdullah Ferreira
Raad Abdullah Ferreira é um cantor e compositor natural de Londrina, Paraná, que desde 2017 vem experimentando sua criatividade na música nos mais diversos projetos: freegans, solitude, confusão, rio do esquecimento e weird fingers. Como Raad, o artista tem explorado uma veia intimista, sensível, introspectiva e poética. É possível perceber isso em “breves momentos de beleza”, EP lançado em 2022 pelo selo curitibano CPDMG, e também no recém-lançado “artista de domingo” (2025).
“artista de domingo” é um compacto comercialmente despretensioso, contendo quatro canções gravadas em fins de semana, de forma caseira, usando apenas seu celular. “Este EP é um bocado interessante para mim pois é a primeira vez que minhas músicas tem refrão, nunca foi algo que me importou muito, mas, aconteceu e estou feliz com o resultado”, explica Raad. “Lançar esse EP é uma forma de lembrar que minha arte ainda vive e que posso outra vez entrar nos trilhos de uma carreira, que mesmo sem tempo e sem recursos posso fazer algo com significado”, completa.
Através de faixas curtas e simples, o compositor te convida a passear pelo Porto (Raad está vivendo em Póvoa de Varzim, Portugal), revela um romantismo lúdico, põe para fora alguns sentimentos ruins e forma de canção, além de trazer o ouvinte para contemplar a vida com calma, como se estivesse tomando sol num parque. “Eu espero passar uma espécie de abraço solar enquanto se deita sobre a grama, um lugar comum onde o passado presente e futuro se juntam, através das canções deste trabalho”, avisa Raad Abdullah Ferreira.
Abaixo, Raad comenta seu novo EP faixa a faixa.
01) “av. da boavista”: Uma faixa potente em todos seus sentidos. Basicamente é sobre andar nas ruas movimentadas da Av. da Boavista, no Porto, nas solitárias pausas do trabalho, cansado, perdido, desanimado, lutando para manter o coração vivo e puro, no meio de tanta gente que anda também, atrasada, apressada, ocupada, dessensibilizada, distraídas com seus celulares que nunca saem das mãos. Escrevi a maioria das linhas e o refrão em um dia que sentava na grama da rotunda da Boavista e ouvia “Mais um dia de cão” dos Superguidis. Roubei a linha do “colar de lágrimas” da Patti Smith, mas confesso não lembrar de qual música era exatamente. Quase tudo que eu escrevo, me inspiro no David Berman, quem sabe se Deus quiser eu seja 1% do gênio dele para escrever e compor. Na época em que gravei estava numa fase “outlaw country”, ouvindo muito Jim Croce, Jim Ford, Willie Nelson, mas acho que a faixa saiu mais Outsider Country (hahaha)
02) “sabem os céus”: Pequenas cenas do que imagino de uma relação romântica perfeita entre duas pessoas. A faixa é simples, direta, quente e confortável. Escrevi esta canção como um poema em 2022 e cheguei a vender este poema no centro do Porto, na famosa Rua das Flores, enquanto ainda não tinha um trabalho arranjado e tentava explorar a cidade. Algum tempo depois foi uma das primeiras canções que musiquei ao comprar meu violão (que tragicamente se destruiu nas gravações deste mesmo EP).
03) “estranha miséria sentimental”: Aqui se cospe para fora todo o sentimento mais ruim. É sobre estar no limite, sem energia para sequer falar ou participar de qualquer atividade, quase como sair do próprio corpo. Escrevi em um dia tedioso no trabalho e logo no outro gravei. Já há algum tempo queria voltar a fazer uma canção desse tipo, só voz e teclado e fiquei feliz com o resultado. No entanto, ainda penso nesta letra em outras melodias e pretendo fazer diferente versão no futuro. Acho que a inspiração nessa faixa seria Fog Lake.
04) “as paisagens são fugitivas como os anos”: Faixa instrumental bonitinha para ouvir deitado e viajar na melodia. Essa música já existe há alguns anos, na verdade, eu a reencontrei nos arquivos e decidi fazer uns ajustes. E a única faixa deste lançamento gravada quando vivia no Brasil, em uma dessas manhãs de domingo que não são nem um pouco memoráveis mas que ainda existem na nossa memória se pensarmos bem, acho que por isso a escolha deste título: “as paisagens são fugitivas como os anos”, é a ultima frase do livro “No Caminho de Swann” de Marcel Proust.

– Diego Albuquerque é o criador do blog Hominis Canidae, um dos maiores repositórios de discos brasileiros da última década. O blog foi criado em 2009, no Recife, e divulga novos artistas e nomes indies da música brasileira, de norte a sul do país.