texto de Renan Guerra
São Paulo é uma cidade cheia de teatros de todos os tamanhos e portes, das grandes casas que abrigam os musicais mais pops até os pequenos espaços independentes que resistem com espetáculos feitos na garra. Essa diversidade de produções cria um mercado múltiplo para as mais diversas formatações e montagens, bem como para a construção de uma nova geração de atores e profissionais. Num tempo de interessante movimentação do teatro brasileiro, indo das grandes montagens até o sucesso de produções de artistas estrelados, é importante ver que as diferentes cenas do teatro independente seguem firmes.
Não deixa de ser interessante observar que, dentro do segmento independente, há espaço tanto para a ousada experimentação quanto para produções que apostam em narrativas pop e acessíveis. Tudo isso auxilia na construção de um novo público para o teatro e, ainda, na possibilidade de se trafegar por novas narrativas e personagens. Esse último é o caso de “Tudo o que nos cabe” (2025), com direção de Alessandro Marba e texto de Bruno Oliver e Dávison Souza, uma comédia dramática de narrativa pop e simples que acompanha uma noite de um pequeno grupo de amigos gays e bissexuais.
Em curtíssima temporada na Cia do Pássaro, no Anhangabaú, bem no centrão da capital paulista, o espetáculo é uma espécie de polaroid dos temas mais usuais dentro da comunidade gay nas grandes cidades: amor, identidade, sexualidade, solidão e pertencimento se misturam a debates como as diferentes formatações amorosas ou mesmo a experiência de viver com HIV na atualidade.
A trama se desenrola inteiramente na sala do apartamento de Salvador (Jura Cipriano) bem na noite de seu aniversário. Reunidos pela celebração, o grupo de amigos vai das piadas ácidas e do flerte ao desaguar de mágoas e segredos, num jogo de trocas e embates. É uma formatação simples, que se sustenta de forma leve e fluida, especialmente pelo jogo de cena dos atores com a plateia, que ocupa em forma de U o pequeno espaço do teatro, de maneira bem próxima, quase borrando o limite da boca de cena.

Construído de forma coletiva através de relatos e experiências do próprio elenco, o espetáculo se desenha a partir de uma linguagem simples, entremeada por uma série de gírias LGBTs – não chega a ser um texto tão cifrado, como as narrativas em Pajubá, mas ainda assim é costurado por expressões que podem não ser usuais para quem não é do meio. Essa linguagem de bate-papo entre amigos, algo comum, trivial, é o que ajuda no desenrolar da narrativa de “Tudo o que nos cabe”, pois se constroi uma naturalidade ao trafegar do humor quase bobinho até os momentos mais densos. Isso possibilita ao espetáculo se desvencilhar dos ditames de um “grande teatro”, com todas as suas cerimônias. Pelo contrário, aqui a proposta é ser algo direto, simples, que acolhe e chama aquele público a participar durante aquele curto espaço de tempo.
A montagem tem suas fragilidades e limitações. Há passagens que poderiam ser melhor definidas ou exploradas, como no caso da inserção de tópicos mais densos, que ganhariam se melhor trabalhados. A narrativa sobre a vivência com HIV, por exemplo, é bastante bonita, mas ainda assim expositiva demais, didática de uma forma que quebra a naturalidade de outros momentos da peça. Na mesma medida, há uma oscilação entre o tom dos atores, alguns deles seguem numa medida que busca certa seriedade, mas que quase encontra o monocórdico; em contraponto, outros abraçam o exagero, sem medo do caricatural, e são esses os mais interessantes – somos gays e latinos, precisamos de mais Almodóvar meets Miguel Falabella em nossas vidas.
Ainda assim, “Tudo o que nos cabe” é uma experiência singela, quase de carinho, que nos relembra que o teatro também é leveza e que pode funcionar como esse encontro com nossas pequenas questões cotidianas. Navegando por temas comuns do universo gay, a peça consegue se desenhar como uma pequena pausa no exagero algorítmico de nosso cotidiano, para que seja possível se desligar por uma hora, dar risadas, se emocionar e lembrar que o dia a dia não precisa ser tão pesado.
Atenção: a peça segue em cartaz no fim de semana dos dias 27 e 28 de setembro. Ingressos aqui

– Renan Guerra é jornalista e escreve para o Scream & Yell desde 2014. Faz parte do Podcast Vamos Falar Sobre Música e colabora com o Monkeybuzz e a Revista Balaclava.