Ao vivo: Esperanza Spalding presenteia São Paulo com ecos de Bituca e Hermeto

texto de Fabio Machado
fotos de Fernando Yokota

Entre os muitos testemunhos de amigos e colegas de ofício do gigante Hermeto Pascoal, chamou a atenção uma frase de Itiberê Zwarg, baixista e companheiro musical de longa data do compositor alagoano falecido em 13 de setembro de 2025: “O Hermeto foi, é e sempre será uma orquestra viva, capaz de transformar passarinho, vento, bicho e silêncio em música universal”. Impossível, portanto, não lembrar dessa alegoria ao testemunhar a musicalidade de Esperanza Spalding no palco da Audio (SP), não só pela escolha da norte-americana por abrir a noite com uma homenagem a Hermeto, por meio da canção “Ginga Carioca” (do disco “Festa dos Deuses”, de 1992). Toda a apresentação é também um testemunho de como a música é capaz de romper barreiras culturais e linguísticas por meio das melodias e improvisos trazidos pela voz e baixos de Esperanza, aqui acompanhada por Matthew Stevens (guitarra e vocais), Eric Doob (bateria e vocais) e Morgan Guerin (sax, teclados e vocais).

A homenagem do início, acompanhada por um “Viva Hermeto Pascoal!” exclamado por Esperanza, foi recebida da melhor forma possível por uma Audio lotada com pessoas de todos os gêneros, idades e matizes. Em comum, havia ali a vontade em prestigiar a cantora e contrabaixista, que devolvia a recepção calorosa com sorrisos e mais música. E assim seguiu a noite, com uma escolha ousada: um solo de bateria de Eric Doob (que sabiamente optou por brincar com ritmos brasileiros ao invés de transformar o momento em mera exibição de técnica) como introdução para “I Know You Know”, canção mais conhecida do auto-intitulado “Esperanza”, de 2008. Aqui, a roupagem samba-pop da original é trocada por temperos mais jazzísticos, com solos e momentos inesperados surgidos da conversa entre os músicos e Esperanza, agora empunhando seu baixo elétrico.

Um dos grandes momentos de comunhão musical da noite foi a execução de “Thang (hips)”, de “12 Little Spells” (2018). Aqui, Esperanza consegue a proeza de ensinar os presentes a cantar o refrão da música, mesmo com a letra sendo um “weird english, porém mais correto que o inglês oficial” nas palavras dela: “Stride grease / For to loosen up your hip / Joints and sink into / Your thang, your thang”. Um tema cheio de alma e balanço, com raízes negras que envolvem e conclamam o ouvinte a sentir o…”azeite em suas cadeiras”, também na tradução da própria Esperanza. Vale um parênteses aqui para comentar que a norte-americana consegue se comunicar com o público num eficiente bem-bolado entre português e inglês, não muito distante de Adrian Younge, outro norte-americano que está quase com o CPF na mão. “Eu tenho um bom sotaque, mas as palavras…”, Esperanza dá de ombros e sorri, sob aplausos.

Ela ainda fez questão de explicar a próxima música em português: “Dancing the Animal (mind)”, uma meditação jazz-prog onde ela simula o uso do celular com as mãos e alerta sobre o espaço que a internet e seus dispositivos ocupam em nossas vidas (e talvez um lembrete oportuno para o público largar de mão do celular um pouco e prestar atenção no show). Na sequência veio mais Brasil, com a melodia de “Ponta de Areia”, clássico de Milton Nascimento, citada pelo contrabaixo de Esperanza. A canção, que ressoou em peso pela Audio, logo virou um improviso que teve seu auge em um solo lindo de voz e baixo, as notas em uníssono, executadas com precisão pela cantora/baixista. Ela sabia que parte considerável do público estava ali para ouvir alguma coisa do premiado “Milton + esperanza”, premiado trabalho de Spalding e Bituca lançado em 2024: brincou com a plateia trazendo a um tanto desconhecida “The Way you Are” (que faz parte do registro) e prometeu que teria mais do disco, mas antes pediu licença para tocar “Endangered Species”, de Wayne Shorter – mas também gravada por ela em “Radio Music Society”, de 2012 – nada mais justo, já que Shorter foi quem apresentou Esperanza a Bituca. Na versão de Esperanza, os contornos jazz-funk da canção são expandidos pela melodia vocal da cantora e do sax de Morgan Guerin.

Fechado o ciclo de influências, ela cumpriu a promessa e celebrou a obra de Bituca em versões magníficas de “Cais” e “Outubro”, clássicos da música brasileira que também fazem parte de “Milton + esperanza”, com aprovação imediata do público. E depois seguiu para o piano, pediu para a produção abaixar um pouco a luz (sem sucesso) e tocou “All Limbs Are (limbs)”, um momento de respiro onde prevalece apenas o piano entrelaçado pelas vozes de Esperanza e dos demais músicos. Antes de anunciar o próxima número, a cantora lembrou a todos, em inglês: “You don’t have to keep up with the machines (vocês não têm que competir com as máquinas)”. Um prenúncio da dificílima “Formwela 11” (de “SONGWRIGHTS APOTHECARY LAB”, 2021), um delírio formado por vocais agudíssimos, guitarra, bateria e sax tocando a melodia em uníssono – não à toa, na primeira tentativa ela pediu para pausar e começar de novo, e ainda brincou com a situação: “Isso é o que acontece quando você tenta competir com as máquinas”. Apesar da aparente dificuldade, tudo é tratado com leveza por ela e pelos músicos, o que provavelmente faria o homenageado Hermeto abrir um sorriso.

O encerramento veio com “Black Gold” (do já mencionado “Radio Music Society”), que Esperanza mais uma vez fez todos e todas cantarem, desejando ainda que um dia essa canção se tornasse obsoleta “pois todo menino negro já iria saber do que se trata”. Em um mundo como o nosso, ainda se faz muito necessário cantar a letra em alto e bom som: “Now maybe no one else has told you so / But you’re golden, baby / Black Gold with a diamond soul / Think of all the strength you have in you / From the blood you carry within you / Ancient men, powerful men / Built us a civilization”. Novamente, a cultura negra e a música universal trazem um clima de congregação a todos ali presentes. E esse clima continuou no bis, onde Esperanza cativou a todos com uma versão acapella de “Little Fly” (um tema não tão conhecido do álbum “Esperanza”) e fez história na sequência, ao cantar “Overjoyed” (Stevie Wonder) acompanhada apenas de seu contrabaixo acústico. Ali, naqueles momentos finais, pelas mãos e palavras de uma jovem nascida em Portland (EUA), havia Hermeto (Alagoas), havia Bituca (Minas Gerais) e havia a música universal de Esperanza, uma manifestação de som, alegria e eletricidade no ar.

– Fabio Machado é músico e jornalista (não necessariamente nessa ordem). Baixista na Falsos Conejos, Mevoi, Thrills & the Chase e outros projetos.
– Fernando Yokota é fotógrafo de shows e de rua. Conheça seu trabalho: http://fernandoyokota.com.br/

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