Faixa a faixa: Gabriel Araújo apresenta seu EP “LUGAR”

introdução por Diego Albuquerque
Faixa a faixa por Gabriel Araújo

Gabriel Araújo é natural de Campos dos Goytacazes, interior do estado do Rio de Janeiro. Após anos atuando de forma amadora na cena musical local, em 2006 foi convidado a fazer a trilha de um espetáculo de teatro, e começou a explorar linguagens visuais para música. De lá pra cá, são três álbuns solo explorando sonoridades e linguagens diferentes atreladas ao ato de experimentar o som. Em meados de 2010, Gabriel foi morar em João Pessoa, na Paraíba, onde aprimorou o ofício de músico, realizando shows e participando de bandas como a Glue Trip, com quem fez shows pelo Brasil e outros países.

Agora, de volta a Campos, sua cidade natal, apresenta seu novo trabalho, “LUGAR” (2025), um EP visual que conta com um curta metragem em fábula roteirizada e dirigida por Vita Evangelista, cineasta também de Campos. Vita é um artista multidisciplinar e pesquisador transmasculino, cujo trabalho atravessa vídeo, instalações, mídias digitais, escrita e ativismo LGBTQIAPN+ e antirracista. Em sua produção artística, Vita constrói “narrativas auto tecnopoéticas” — fusão de corpo, tecnologia e palavra — a partir de uma perspectiva transfeminista e contra-colonial. Seus trabalhos confrontam as estruturas do capitalismo racializado, os dispositivos de controle migratório e as tecnologias de vigilância, utilizando linguagens que sabotam códigos hegemônicos.

LUGAR” mergulha em escombros materiais e espirituais para reconfigurar os limites entre lixo e sagrado, falha e futuro. Filmado entre ruínas coloniais, usinas abandonadas, centros de reciclagem e zonas costeiras em erosão na zona norte fluminense, o EP investiga os rastros do capitalismo tardio, do racismo ambiental e da exaustão ecológica, tensionando o colapso como matéria viva. “Na hora de falar do filme, a prioridade era colocar uma mensagem que trouxesse reflexão. Então escolhemos algumas locações aqui na região de Campos, que têm algumas ruínas. Na nossa ideia, estamos contando a história de um futuro – que não é tão distante – distópico”, comenta Gabriel. A obra dissolve a linearidade do tempo através de imagens sobrepostas, múltiplos quadros em simultâneo e efeitos de glitch que desestabilizam a percepção visual. As falhas digitais, distorções cromáticas e ruídos visuais operam como parte da própria narrativa especulativa. “Os erros do sistema tornam-se linguagem estética criando camadas de distorção e instabilidade que espelham os atravessamentos do colapso”, explica Vita.

Ao longo das seis faixas, um corpo negro dissidente, interpretado pelo ator e bailarino Jota Z, atravessa esse território como sensor de mundos, incorporando forças ancestrais ligadas às cosmologias afro-brasileiras. Gabriel Araújo enfatiza que a proposta do EP visual é, ainda, refletir sobre como o ser humano faz uso do espaço que habita. “O ‘lixo’ que se produz, o dano que se estabelece e não fazemos um reaproveitamento nestes espaços mais. Estamos vivendo num momento em que observamos muitas catástrofes acontecendo, não só por mudanças climáticas de temperatura, mas também de como tratamos esse ambiente”, comenta. “As referências às cosmologias afro brasileiras atravessam a obra como campos de força que transformam o lixo e os resíduos em matéria de recomposição e reintegração. Assim como entidades transmutadoras transitam entre mundos e limpam zonas tóxicas. LUGAR ensaia imagens onde ruínas não significam fim, mas húmus para outras possibilidades de existência”, complementa o diretor.

As composições sonoras de Gabriel Araújo acompanham esse processo como forças vibratórias e atmosféricas. Ao todo, são cinco composições inéditas, que fazem parte de diversos momentos da vida do compositor, retirada de trechos de trilhas, ideias engavetadas ou novas ondas incitadas pelo processo e pela vida. Na última faixa do EP visual há uma ‘surpresa’ com o resgate do material de um cantador, natural de São Luiz do Maranhão, Humberto Mendes, cuja lembrança póstuma traz a época em que cantava no grupo Boi Bumbá de Maracanã. Abaixo, Gabriel comenta o EP faixa a faixa (ouça e baixe no Bandcamp).

Assista ao EP visual na integra abaixo

01) “YBY” – “Yby”‘ foi um tema que surgiu de uma sessão de improvisos. Ela foi construída a partir do violão. Na sessão rítmica eu usei um tambor de alfaia, garrafas de vidro, vagem de flamboyant (delonix regia) e um motor de ventilador de teto velho. Gravei também um contrabaixo elétrico, guitarra, metalofone (timbre de um piano elétrico) e sax. Ela abre o álbum muito com uma carga mais primitiva e ritualística. Penso nela como um anúncio de chegada de uma entidade.

02) “ETÉ” – Esse tema surgiu em 2018. Eu ainda morava em João Pessoa. Na época eu tinha essa ideia de explorar mais ritmos africanos. Esse tema surgiu muito desse pensamento, harmonicamente e melodicamente ela progride muito como algumas composições minhas. Sem retornos e repetição. Mas a coisa do ritmo 6/8 meio ponto de umbanda meio valsa que sustenta a ideia toda.

03) “EKÓ” – Esse tema surgiu em 2023 aqui em Campos mesmo. Penso nela muito como um bolero. Claro que tem um beat eletrônico e tal. Mas acho que a carga emocional dela é muito na onda do bolero. Escuto brega faz um tempo e recentemente resolvi pegar esse material como estudo. Daí essa faixa tem umas duas ideias que surgiram separadas mas acabaram funcionando bem quando juntei. A primeira parte dela é mesmo a onda do bolero, bossa. A segunda é um tema que eu gosto e surgiu quando eu estava compondo a trilha de um curta metragem chamado “O Tempo”, dirigido por Ellen Correia, mas acabou sobrando. Aí coube um pouco de reciclagem no EP.

04) “CELESTIAL É A COMUNICAÇÃO” – Essa faixa é a mais freejazz. Tem um pouco de Sun Rá e um pouco de Alan Silva and the Celestial Communication Orchestra. Nessa usei um processo de colagem que usei muito no “Presente” (EP de 2015). O tema que entra na marimba eu compus pensando no meu filho que estava pra nascer ainda. Surgiu enquanto eu estudava umas coisas do Roy Ayers. Ele meio que segue na próxima faixa também.

05) “ESPIRITUAL É O MOVIMENTO” – Essa tem uma onda mais disco music. Também tenho escutado bastante desde que voltei a morar em Campos. Cresci ouvindo muito pop dos anos 70 e disco music por causa da minha mãe. Acho que dá pra considerar uma homenagem a ela.

06) “PELO BEM DE TODOS” – Essa música é uma versão. O compositor dela se chama Humberto Mendes. Ele foi um cantador que liderava um grupo de bumba meu boi em São Luís no Maranhão. Tive contato com essa composição quando era aluno na UFPB. Era uma aula de cultura popular ministrada na época pela professora Daniella Gramani, cantora, que é filha do José Eduardo Gramani, violinista, rabequista, compositor, professor e pesquisador musical brasileiro. As aulas dela eram sempre muito ricas, cheias de descobertas. O repertório que ela trazia para sala de aula me fazia sair com a sensação de conhecer mais do Brasil profundo. Quando essa música surgiu numa das aulas, mexeu muito comigo. Nunca mais esqueci que ela existe. Pra mim ela soa como um mantra muito poderoso. A ideia de gravar ela no EP acabou surgindo durante a produção do EP visual. Sentia que faltava algo para amarrar tudo e fechar o conceito do álbum. Quando gravei tive certeza.

– Diego Albuquerque é o criador do blog Hominis Canidae, um dos maiores repositórios de discos brasileiros da última década. O blog foi criado em 2009, no Recife, e divulga novos artistas e nomes indies da música brasileira, de norte a sul do país.



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