Entrevista: José Emilio Rondeau fala sobre “Será!”, livro em que rememora as gravações do disco de estreia da Legião Urbana

entrevista de Leonardo Vinhas

Em 50 anos de carreira, José Emilio Rondeau foi uma referência no jornalismo de música e cinema: foi desde a primeira versão da Rolling Stone brasileira até a Bizz, da Marie Claire à Playboy, entre outros veículos. No cinema, co-roteirizou e dirigiu “1972” (de 2006), mas é provável que, para muitos, a referência imediata ao seu trabalho seja a produção do álbum de estreia da Legião Urbana, de 1985. E esse é o tema de “Será!: Crises, Genialidade e um som Poderoso: os Bastidores da Gravação do Primeiro Disco da Legião Urbana Contados por seu Produtor” (2025), lançado pela Máquina de Livros.

Rondeau já havia produzido o primeiro álbum do Camisa de Vênus, também homônimo, de 1983, e produziria ainda discos de Picassos Falsos e May East. Mas seu segundo trabalho, o referido disco da Legião, seria o primeiro a trazer a sonoridade inspirada por Joy Division, Smiths, U2, Comsat Angels e outras referências que passavam ao largo do conhecimento de executivos de gravadora e profissionais de estúdio no Brasil do período. Também abriu o caminho para o crescimento daquela que, por anos, seria a maior banda do Brasil.

O livro traz entrevistas com os dois legionários sobreviventes, Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá (Renato Russo faleceu em 1996, e o baixista Renato Rocha em 2015), e também com Mayrton Bahia (então diretor de produção da EMI-Odeon e futuro produtor dos discos da Legião), Amaro Moço (técnico de gravação) e Fernanda Villa-Lobos (empresária da banda à época e, desde 1984, casada com Dado). Estão presentes também fotos inéditas feitas por Mauricio Valladares, um deleite para os fãs de longa data.

Aproveitando a oportunidade do lançamento, o Scream & Yell conversou por videochamada com o autor. Atualmente morando na Espanha e em franca atividade com sua página na Substack, Rondeau contou sobre o processo de feitura do livro e discutiu o legado da Legião Urbana.

Como foi para você, como jornalista, ter as próprias memórias como fonte? (risos) Imagino que as entrevistas com os demais personagens daquela história tenham ajudado muito a separar lembranças dos fatos.
Sem a participação dessas outras pessoas, eu não teria conseguido fazer esse livro de jeito nenhum. Na hora que me foi sugerido escrever um livro sobre a gravação do disco, imediatamente falei: “Isso não não vai dar certo, porque eu não vou lembrar tudo, vou lembrar das coisas erradas, vou ter bastante vácuos de memória”. Eu não tinha nada escrito em lugar nenhum (na época), não fiz um diário da gravação. E uma coisa também que lamentei muitíssimo foi não ter acesso às fitas originais da gravação para poder, pelo menos, ler no labelzinho o que foi gravado naquela fita, qual foi o dia, qual o horário, quem tocou cada instrumento exatamente. Isso certamente teria ajudado muito. E eu insisti muito com a gravadora, com a Universal, mas não consegui. Ainda mais por isso, as memórias das outras pessoas que participaram foram essenciais para que esse livro existisse. Tive a felicidade de contar com essa generosidade deles. Eles corrigiram algumas das minhas lembranças, e eu corrigi algumas das deles também, em alguns casos. Nem todo mundo lembrava da mesma coisa do mesmo jeito. Tinha coisas que as pessoas se lembravam e que eram impossíveis de terem ocorrido daquela maneira, e era minha vez de falar: “Como é que pode ser isso? Tenho certeza de que você está errado nesse caso”, entendeu? Também foram importantes porque eu desconhecia a pré-história da gravação do disco. Eu não tinha participado daquilo, e não sabia de detalhes do que aconteceu antes da minha entrada em cena, e que foram apontadas em primeira mão pelas pessoas que estavam lá. Então foi algo muito interessante.

Legião Urbana, Marcelo Nova e Jose Emilio Rondeau / Foto de Mauricio Valadares

Já no começo do livro você deixa bem claro que a Legião, e mais especialmente o Renato Russo, sabiam o que queria em termos de sonoridade, mas não tinham experiência de estúdio, eram inocentes em relação ao aspecto mercadológico da música. Como essa dicotomia bateu em você, como produtor? Porque imagino que deve ter momentos que você quis jogar a toalha..
Teve, lógico. Mas o que é mais importante de notar – e sempre bato nessa tecla – é que a gravação do primeiro disco deles foi um grande intensivão pra banda. Eles não tinham experiência de estúdio, e estavam extremamente refratários àquela coisa toda no início, porque trabalharam com dois produtores super feras antes de eu entrar, mas não havia dado liga com nenhum dos dois. Então eles estavam com a guarda alta e muita insegurança, e, ao mesmo tempo, com muitas certezas, muitas convicções e insegurança. Chegaram muito crus como banda de estúdio, mas saíram de lá prontos para fazer um segundo disco tão bom quanto fizeram. Tanto que tudo que você ouve no disco é tocado pela Legião Urbana, tá? Não existe nenhum músico convidado, não existe nenhum “clandestino” ali fingindo ser da banda (nota: é muito comum que bandas iniciantes, e mesmo algumas não tão iniciantes, não toquem tudo em seus próprios discos, com músicos de estúdio fazendo esse trabalho). A única pessoa que toca no disco sem ser eles sou eu, que toco sintetizador em “Perdidos no Espaço”. Três notinhas, só isso. A Fernanda [Villa-Lobos, esposa de Dado e empresária da banda] achava que o Fê Lemos [do Capital Inicial] tinha tocado bateria em “Soldados”, mas esse foi um desses casos onde alguém lembrava de um jeito e eu sabia que não tinha sido daquela forma. Nenhum outro músico participou do disco. O perfeccionismo deles naquele primeiro momento era atender as convicções punk que eles tinham: “nosso som é punk, é rascante e agressivo”. Só que com o passar do tempo, eles aprenderam e aceitaram, viram que são uma banda pop também, deixaram vir à tona o romantismo, principalmente o Renato [Russo]. Aconteceu essa transformação do começo até o fim da gravação.

Renato Russo e Dado Villa-Lobos em estúdio / Foto de Mauricio Valadares

É bem documentada o quanto faltavam não só bons estúdios, mas principalmente bons profissionais de gravação, nessa primeira metade dos anos 1980. Quase ninguém tinha referência de sonoridades diferentes, poucos entendiam as linguagens diferentes para baixo, guitarra, bateria… Muito do protagonismo do Liminha como produtor vinha disso, de ele ser um pioneiro no uso de várias tecnologias, de ter mais referências, etc. Olhando agora com a perspectiva do tempo, você diria que as exigências das bandas do rock brasileiro, no que diz respeito à sonoridade que elas queriam, foi instrumental para fazer esse cenário evoluir?
Isso sem dúvida influenciou muito. Foi como aconteceu nos anos 1960, com os artistas de rock inglês que iam pros Estados Unidos para gravar com técnicos americanos, porque eles sabiam melhor sobre gravar rock and roll do que os ingleses sabiam naquela época. Esse movimento forçou que houvesse uma atualização de repertório dos técnicos de som e dos próprios produtores na Inglaterra. Então, no Brasil, assim como surgiram novas bandas, novas linguagens de rock e de pop, houve também um uma expansão e uma proliferação de pessoas mais adequadas àquele tipo de idioma musical, e isso só fez multiplicar esse efeito ao longo dos anos. Tanto que, como você falou, na segunda metade dos anos 1980 a coisa deslanchou graças a um cara como o Liminha. Ele era um craque: tinha um baita ouvido, tinha talento musical pra caramba, o cara sabia técnica para cacete e era versátil em vários instrumentos. E era aquele curioso desde o início, desde pequeno o cara gostava pra cacete daquilo de buscar os sons. Até hoje ele é, para mim, o grande produtor brasileiro.

Você fez essa migração momentânea de jornalista para produtor – um movimento bastante comum na gringa, mas não tanto por aqui. Você chegou a enfrentar alguma resistência, ou pelo menos comentários atravessados, dos colegas de profissão?
De jeito nenhum, mesmo porque havia naquela mesma época, especialmente em São Paulo, uma promiscuidade muito grande de jornalista/músico, músico/ jornalista (nota: só na imprensa paulista estavam presentes integrantes de bandas como Fellini, 3 Hombres, Maria Angélica Não Mora Mais Aqui, Akira S e As Garotas que Erraram, Chance, entre outras). E tivemos o Ezequiel Neves, que realmente investiu muito na carreira de produtor a partir de determinado momento. Então não houve esse estranhamento.

Renato Russo em estúdio / Foto de Mauricio Valadares

A partir dos anos 1990, sua carreira de jornalista dá uma guinada mais para o cinema que para a música, não?
Ela ficou ocupada com o lado cinematográfico por causa das circunstâncias. Eu havia me mudado para Los Angeles, e ali é a Volta Redonda do cinema, né? Então comecei a fazer [cobertura sobre cinema] muito mais que antes. Ali se faz cinema o tempo todo, se respira cinema o tempo todo. Naturalmente, foi um período de grande aprendizado para conhecer mais, para aprender mais sobre fazer cinema, sobre a história dessa arte. Eu estava mergulhado nisso, era o meu intensivão de cinema, mas me dividia ainda entre cinema e música. E eu não deixei de ser jornalista, até hoje. Continuo exercendo a profissão de uma forma mais independente, digamos assim. Tenho a minha newsletter na Substack, a Farol, e ela me obriga a estar atento ao que está acontecendo no mundo todo – em termos de música, de cinema, de novas ideias – e me ajuda a não enferrujar como escritor. Todo dia escrevo, todo dia eu ouço alguma coisa nova. Isso para mim é muito importante: não ficar olhando para trás. “Atrás” está ótimo. Aquilo vai ser sempre uma base, mas estou sempre olhando para a frente. O que que vem ali na frente? A gente tem que sempre ficar ligado no que está por vir, que é o que motiva a gente, faz a gente se movimentar. E hoje, para mim, é mais fácil acompanhar o que acontece no Brasil do que era quando eu estava morando em Los Angeles, por exemplo, porque não tinha internet naquela época.

Renato Russo em estúdio / Foto de Mauricio Valadares

Musicalmente, o que tem chamado a sua atenção no Brasil hoje?
Olha, no Brasil descobri coisas recentes que são muito interessantes. Tem os Boogarins, naturalmente, que são muito bacanas, e faz pouco tempo descobri uma coisa que vem do Pernambuco chamada Batucada Tamarindo. Eles pegam pontos antigos de mestres da Zona da Mata e os misturam com sons eletrônicos. Esse pessoal me chamou muitíssimo a atenção. É fantástico esse acesso que a gente tem hoje em dia a tantas coisas tão diferentes, tantas alternativas de informação. Muitas vezes você está assistindo festival pela televisão, seja qual for o festival, tem aquela banda que você nunca ouviu falar. Todo mundo que está lá no show sabe cantar todas as letras da música, ou seja, já atingiram seu público – só que, até então, você nunca tinha ouvido nem falar deles (risos). E aí, como profissional de comunicação, você quer ir atrás disso, investigar o que é. É muito fantástico isso, muito bonito.

Legião Urbana / Foto de Mauricio Valadares

Voltando ao universo do seu livro: como você vê a presença desse rock brasileiro dos anos 1980 hoje em dia? Sei que você não está morando mais no Brasil, mas você vê bandas em atividade que são influenciadas por esse rock, ou essa geração vive mais da nostalgia?
De uma forma ou de outra, sempre vai haver um elemento de nostalgia, porque a gente vai ter sempre a paixão musical original guardada no coração, em um lugar muito especial, e a gente não abre mão dela, aconteça o que acontecer. Independentemente do que a gente passe a curtir mais tarde. Mas todo mundo que trabalha hoje com rock no Brasil, de uma forma ou de outra, passou por aquilo, foi influenciado por aquilo. Naturalmente, você pode estar falando de bandas que são muito características, com assinaturas muito fortes, como a própria Legião Urbana – não tem nada parecido com eles. Mas o que a Legião fazia, o jeito de construir uma música longa como “Eduardo e Mônica”, as letras deles, aquela sonoridade romântica de “Tempo Perdido”, isso sempre vai encontrar eco. É como acontece no samba, em que as novas gerações sempre vão pegar um pouco do que veio antes deles.

No caso específico da Legião Urbana, o João Marcelo Bôscoli tem uma teoria interessante: quando perguntado porque ele está fazendo todas essas coisas com a Elis Regina, inclusive licenciar a imagem dela para ser usada em anúncio de montadora feito com inteligência artificial, ele diz que quer evitar o que acontece com a Legião Urbana, onde o herdeiro do Renato Russo, Giuliano Manfredini, fica travando um monte de projetos que poderiam ser feitos com o legado da banda e do Renato. Você concorda?
Sim, eles estão perdendo muitas oportunidades em todos os sentidos, mas eu tenho para mim que vai chegar um momento em que essa maré vai baixar e todas as partes envolvidas da Legião vão encontrar um meio termo para que alguma coisa possa ser feita. Eu não sei quem aconselha o filho do Renato, mas seja quem for, impede que ele inclusive venha a ganhar dinheiro pra caramba. De repente, poderiam fazer um disco em tributo à Legião Urbana envolvendo os membros atuais e pessoas das novas gerações, sei lá. Seria uma super oportunidade. Por que não fazem isso? E por que não enxergam que um acordo entre todas as partes vai ser bom para todo mundo? A gente só tem que esperar que o melhor aconteça para eles, porque a Legião tem um catálogo sensacional, tem muito para ser apresentado para as novas gerações, e já poderiam estar fazendo isso há muito tempo.

Você tem 50 anos de carreira, entre jornalismo, cinema, audiovisual, e no meio disso, esse espaço onde você produziu quatro discos. Você colocaria esse do Legião como algo único? Não só um marco, mas um dos momentos de sua vida pelo qual você tem um afeto especial?
Sem dúvida. Eu tenho o maior orgulho de ter feito esse disco, tenho a maior gratidão por ter conseguido participar da feitura dele. E apesar de todos os percalços, de todas as crises e tensões e atritos que acontecem durante esse período em que se fica cinco meses no estúdio, uma porrada de homem cheia de convicção dentro de um mesmo espaço, todo dia, eu faria tudo outra vez, e com o maior prazer. Porque foi muito gostoso. Todos nós tivemos liberdade absoluta para fazer o que a gente queria. Não havia ninguém dizendo “não vá por aqui”, ou “vá por aqui”, só teve a questão do violão, que foi uma coisa folclórica (nota: a gravadora queria que “Geração Coca-Cola” fosse gravada em uma versão mais acessível, quase country), e que tinha a ver com o que [executivo] Jorge Davidson tinha ouvido do Renato como Trovador Solitário. E no fim das contas, o violão acabou sendo a assinatura de todos os discos da Legião dali pra frente. Mas foi um período de efervescência criativa no estúdio, que foi delicioso e que vou guardar pra vida inteira. E o resultado do disco, para mim, é sensacional. Eu tinha certeza de que a gente estava fazendo um disco excelente, mas ele saiu muito mais redondo do que eu achei que ele um dia poderia ser.

– Leonardo Vinhas (@leovinhas) é autor do livro “O Evangelho Segundo Odair: Censura, Igreja e O Filho de José e Maria“.





Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *