entrevista de Bruno Lisboa
Sete anos após o lançamento do primeiro EP, “This Is Hell We Shall Believe” (2018), a banda porto-alegrense Diokane surge com um novo registro, “Cheiro de Enchente”, single que chega com videoclipe e tem como inspiração a maior tragédia climática da história do Rio Grande do Sul: as inundações que devastaram Porto Alegre e centenas de municípios em maio de 2024.
Em meio ao caos que todo o país acompanhou, havia algo que só quem estava lá podia sentir: um forte odor vindo do lodo e dos detritos, carregados de sedimentos variados – como animais mortos e esgoto – que tornaram a experiência ainda mais perturbadora. Homero Pivotto Jr. (voz), Billy Valdez (baixo), Gabriel ‘Kverna’ Mota (bateria) e Rafael Giovanoli (guitarra) a transformaram em canção. “A ideia pra música é que ela fosse perturbadora como foi a situação que a inspirou”, explica Homero.
Junto ao videoclipe a banda produziu um documentário que acompanha o lançamento. Dirigido pelo baixista Billy Valdez, a produção conta com imagens captadas em áreas atingidas e depoimentos de familiares, amigos e vítimas que sofreram das agruras do desastre e que escancaram a falta de políticas públicas para eventos extremos.
“’Cheiro de Enchente‘”’ é um expurgo de dor e revolta, é um relato, um grito pra que todo aquele descaso das políticas públicas não aconteça mais”, afirma Rafael. “Era algo que precisava ser falado”, pontua Caverna. “A música (surge) como forma de exorcismo desse sentimento engasgado mesmo um ano depois da tragédia”, opina Billy. “Uma das intenções de ’Cheiro de Enchente’ é não deixar que a tragédia caia no esquecimento, pra que se busquem formas de evitar algo similar no futuro”, revela Homero. Abaixo, o quarteto aprofunda o tema.
Assista ao documentário/clipe “Cheiro de Enchente”, da Diokane, abaixo
“Cheiro de Enchente” nasce a partir de uma experiência coletiva de dor e sobrevivência, mas também de uma percepção muito sensorial, quase insuportável, que é o odor deixado pelo dilúvio. Como foi o processo de transformar algo tão físico e visceral — esse cheiro de morte, de luto e de contaminação — em música, ritmo e poesia?
Homero – Falando por mim: era algo que precisava jorrar, pra seguirmos uma analogia com a força das águas. Foi um transbordo de perturbações. Quando éramos crianças/adolescentes (nos anos 1980/90), bandas das quais gostávamos falavam sobre a iminência da terceira guerra mundial, da possibilidade de degradação sem volta do meio-ambiente e do perigo das pestes que assolaram a humanidade no passado voltarem para assombrar no presente. De uns anos pra cá, esse cenário de ficção e distopia tornou-se a vida real. Estamos testemunhando uma espécie de apocalipse parcelado. E isso abala. Fiquei de alguma maneira (mais) desestabilizado desde a pandemia, e a enchente – que se tornou a maior tragédia climática do Rio Grande do Sul, superando a inundação histórica de 1941 – intensificou a agonia, a incerteza com o futuro e a revolta. Então, esses sentimentos precisavam verter de alguma maneira. Foi na arte, na música mais precisamente, que conseguimos dar vazão. Ainda que não tenha sido atingido diretamente pela catástrofe, mexeu comigo as consequências da enxurrada que arrastou vidas e sonhos impiedosamente. O bodum sentido durante aqueles dias tensos de maio de 2024 pareceu algo ilustrativo, um sintoma olfativo, mas de potencial sinestésico, da combinação doentia de descaso com a natureza e falta de atenção do poder público. Como disse no documentário a irmã do Rafael, guitarrista da Diokane, numa fala que resume bem: “era cheiro de morte, de vazio pelas perdas”.
Kverna – De certa forma tudo aconteceu muito naturalmente, foi um processo semelhante à criação das nossas outras músicas. Tínhamos esse som, ainda sem letra, que era bem arrastado e denso, que era um pouco diferente dos que estávamos compondo, que costumam ser mais rápidos e mais caóticos. O Homero comentou que estava querendo fazer uma música sobre o desastre causado pelas enchentes e sobre como o odor ainda estava presente, messes depois do ocorrido. Foi então que sugeri para usar esse som que estávamos fazendo, até pelo peso e cadência. E casou muito bom, pois a letra e a clima soturno causam certa agonia e aflição. Como baterista, pensei em deixar a música bem grave, explorando elementos possíveis, e o Thiago Caurio (responsável pelas gravações) me ajudou bastante, inclusive usando um tambor chamado alfaia, tornando o som grave como os trovões.
Rafael – Reviver aquela catástrofe é sempre difícil. É difícil visitar minha família na cidade/bairro/rua onde cresci e ver que está tudo diferente (pra pior) hoje em dia. As coisas se transformam, né? Aquele sentimento de revolta misturado com tristeza é uma boa fonte de inspiração pra fazer música. A ideia de criar uma faixa falando sobre isso surgiu em uma conversa da banda, e a parte instrumental foi toda composta em jams mesmo: uma ideia de tema de guita e surge outro tema, que puxa um groove, depois refrão e a estrutura dela foi se montando naturalmente. Saiu bem rápido até. A ideia inicial seria um ostinato de guitarra que fosse incômodo e riffs mais lamacentos, densos e lentos, o que dá a sensação de agonia.
O documentário/clipe não só reforça o peso da letra como coloca a banda literalmente dentro da tragédia, tocando em cenários alagados, ao lado de familiares e amigos que viveram a enchente. Como foi a decisão de expor-se nesse nível, unindo o depoimento íntimo de quem perdeu quase tudo com a performance artística da Diokane?
Homero – A ideia pra música é que ela fosse perturbadora como foi a situação que a inspirou. Tipo uma lancha no lodo. Então, tentamos fazer algo mais arrastado, e ainda pesado, temática e musicalmente. Pra ilustrar isso e passar ideia de o quão avassalador foi, pensamos em usar cenas da tragédia registradas por pessoas do nosso círculo. Em meio a essas imagens, o clipe tem takes da banda tocando ao vivo, que foram gravados no estúdio Áudio Porco, em Porto Alegre, um local em área central da cidade que foi inundado. Pensamos também em incluir depoimentos de amigos e familiares atingidos, num primeiro momento, falando sobre o cheiro pestilento ao qual tiveram contato. Mas no decorrer das filmagens, percebemos que essa galera precisava de um canal pra despejar toda a desolação a qual foi submetida. Pensávamos que iam ser depoimentos curtos, talvez acanhados. Mas em cada entrevista, as pessoas abriam o coração, pareciam se sentirem ouvidas. Então, esses testemunhos viraram o documentário que acompanha a música.
Kverna – Era algo que precisava ser falado. Muitos artistas do Sul estão usando suas produções para retratar essa tragédia, seja por música, fotografia, audiovisual, pintura ou escultura, até usando objetos que foram destruídos. Acredito que a arte seja um espaço propício para se abordar um tema tão sensível, mostrando pontos e até histórias que não foram contadas, mas que estão engasgadas. A ideia do documentário começou sem nenhuma pretensão, iríamos apenas gravar um clipe com as imagens que tínhamos e que nos mandaram. Porém, o Homero queria ouvir das pessoas que foram afetadas, que lembranças esse odor da enchente trazia a elas e se isso realmente ainda incomodava. Quando fizemos as entrevistas, percebemos que não se tratava mais do nosso som, e sim de histórias, sonhos e vidas que foram levados por essa tragédia. E que isso deveria ser visto, principalmente por quem não vivenciou.
Billy: Tivemos receio no início, tanto da criação da música quanto na ideia de transformar ela em clipe e depois documentário. Aquele medo de ser taxado de “estar se aproveitando da desgraça”. Contudo, todos da banda foram impactados de certa forma. E além de “músicos” somos “arteiros”. Homero é jornalista e eu sou produtor audiovisual, no Coletivo Catarse cooperativa em que atuo, e sempre entramos de cabeça nas produções. Sempre tem muita entrega pra não ser apenas mais um clipe, filme, registro que fale sobre a enchente. Estivemos de perto auxiliando amigos, família e até desconhecidos, como todos, e foram momentos perturbadores em todas as esferas. Então, a ideia desde o início era ser perturbador tanto no som, com toda gritaria, e na edição, que mesmo tendo formato padrão de filme, é chocante e fecha com a música como forma de exorcismo desse sentimento engasgado mesmo um ano depois da tragédia.
Rafael – Também de uma troca de ideias e junção de arquivos pessoais de cada um de nós e amigos. Na verdade, a ideia nasce e tem um começo, mas como vai se desenvolver a gente não sabia muito. Foi acontecendo e novas ideias foram rolando até que o resultado ficou muito mais pesado do que o imaginado. “Cheiro de Enchente” é um expurgo de dor e revolta, é um relato, um grito pra que todo aquele descaso das políticas públicas não aconteça mais.
Ao trazer personagens próximos — gente do círculo de vocês — o vídeo mostra que a catástrofe não é uma estatística distante, mas algo que atravessou todas as bolhas. Como foi ouvir, gravar e revisitar esses testemunhos tão próximos e, ao mesmo tempo, tão devastadores?
Homero – Foi triste, porque eram relatos de quem esteve imerso no pesadelo que foi a enchente. Uma das intenções de “Cheiro de Enchente” é não deixar que a tragédia caia no esquecimento, pra que se busquem formas de evitar algo similar no futuro. Ouvir as pessoas despejarem lágrimas e vivências amargas diante das câmeras reforçou o senso de urgência para que coloquemos o assunto em evidência. Pra que as pessoas assistam e tenham noção de que pode sim acontecer de novo. Com qualquer um de nós. E, assim, que busquem se mobilizar pra cobrar quem deve ser cobrado. É uma amostragem pequena que aparece no vídeo, mas que contempla a experiência muitos. Os números não nos deixam mentir: foram 478 dos 497 municípios gaúchos atingidos, conforme a Defesa Civil do RS. Houve impactos para cerca de 2,4 milhões de pessoas (entre as que precisaram deixar suas casas e as que tiveram interrupção de serviços), com mais de 180 mortos e 25 desaparecidos. Além disso, o governo do Estado estima cerca de 20 mil animais resgatados. Somos submetidos a uma avalanche de informação diariamente e acabamos nos dessensibilizando, de alguma maneira, e esquecendo daquilo não é falado com frequência. Penso que a enchente talvez estivesse ficando demais no passado, tipo aquela mensagem de whatsapp que, apesar de importante, vai sendo deixada pra baixo e a gente não responde.
Kverna – Foi muito pesado, assim como foi na época. Eu pessoalmente trabalhei em alguns resgates e depois fui até a casa do Tiago Severo “Taz” (que deu testemunho e fez uma participação no som) auxiliar na limpeza. Haviam bairros inteiros destruídos, ruas quase fechadas por conta de pilhas de móveis e objetos pessoais que foram descartados. Aquilo mexeu muito comigo. Ver aquelas pessoas que perderem tudo e tinham que ter forças para limpar e recomeçar suas vidas foi muito pesado. Quando recebemos as imagens e ouvimos os relatos, foi impactante, e posso dizer que todos nós ficamos emocionados e, de certa forma, incrédulos que realmente vivemos aquilo. Mas o que mais dá angústia é que catástrofes dessa magnitude podem voltar a acontecer, e esse documentário, infelizmente, pode ser a recordação de um futuro próximo.
Billy – Não estive em todas as captações de entrevistas, mas como fiz o trabalho de edição, foram dias com as falas ecoando. Foi um processo muito complexo de editar. Eu já editei diversos filmes, documentários, mas nunca sobre tragédia. E, mesmo sabendo e tendo visto muitas imagens, além de ter estado presente em locais na época auxiliando, foi um baque ver os arquivos pessoais que foram compartilhados conosco. Não teve um momento em que não “batia” a emoção, até chorei nos primeiros processos de decupagem e montagem. Às vezes tinha de parar a edição e fazer outra coisa.
Rafael – Foi triste, ainda é triste. Os relatos são pesados e sempre que se ouve, a gente volta naquele início de maio de 2024.

Em Porto Alegre e na Região Metropolitana, os mais atingidos foram justamente os mais pobres e negros como foi noticiado na época. Vocês pensaram, em algum momento, que a música poderia também servir como denúncia dessa desigualdade social escancarada pela enchente?
Homero – Previamente, confesso que não. No entanto, conforme o processo de trabalhar som/vídeo foi acontecendo, isso se tornou uma possibilidade plausível.
Kverna – A letra foi escrita muito pensando no odor desgraçado que a enchente deixou por messes, e que essa tragédia, como diz a letra “não poupou nem gente nem bicho”. Acredito que o documentário faça mais esse trabalho de denúncia social, pois praticamente todos os entrevistados moravam, e ainda moram, em bairros periféricos, que obviamente foram os mais atingidos. Os dados mostram que praticamente todo o RS foi impactado, inclusive deixando durante meses o principal aeroporto do estado, em Porto Alegre, fechado. Contudo, os detentores do poder tinham força politica e financeira para se recuperar. Já os mais pobres ainda batalham para buscar o que foi perdido. Mas em se tratando de capitalismo selvagem brasileiro, não é nada que já não se tenha visto.
Billy: A música pesada e barulhenta geralmente tem esse papel de denúncia. De gritar o que é contido pela sociedade. A ideia da composição e do documentário, pra mim, não é denunciar, mas sim fazer com que não esqueçamos o que aconteceu e atingiu muita gente por incompetência dos nossos gestores públicos. Se tudo (casa de bombas, comportas e outros equipamentos anticheia) estivesse nos conformes e funcionando, com manutenção em dia, desde o temporal e avisos em setembro de 2023, não teria impactado tanto a cidade.
Rafael – Sim, como comentei anteriormente, a arte tem esse poder transformador de denúncia também, pra que isso não seja esquecido e nunca mais se repita.
A presença do Tiago “Taz” Freitas, que perdeu quase tudo em Vila Farrapos, dá uma dimensão de testemunho à faixa, sobretudo pelo refrão que ele canta junto. Como se deu essa participação e o quanto ela foi essencial para dar corpo e verdade ao relato?
Homero – O Taz (da banda Pull the Trigger) é um dos tantos camaradas da cena independente que sofreu com o dilúvio. Ele parece ser uma pessoa forte. Conheço o cara há anos, mas nunca de maneira muito próxima. É uma pessoa que toca a vida adiante numa filosofia meio PMA (one life, one chance), superando os obstáculos da vida. Ele é mais bruxo do Kverna, baterista, que foi ajudar na limpeza da casa do Taz quando a água baixou, e contou que era um cenário desolador. Enfim… Quando pensamos em colocar na música amigos do underground que foram atingidos, o nome do Taz foi o primeiro a surgir. Desde o convite, ele se mostrou disposto a fazer acontecer. E disposto mesmo, no sentido de se esforçar pra estar no estúdio, de querer sacar a ideia. A voz dele no som é o grito da verdade que legitima nossa intenção. Dessas coisas mágicas que a música tem capacidade de fazer: no momento da gravação, a parte dele veio com tanta força que arrepiou. A gente não sabia ainda como ia usar, mas tinha certeza de que era algo que precisava aparecer com algum destaque, não apenas como backing. É mais que um feat, porque tem um simbolismo forte e deu veracidade pra composição. Convidamos também outros amigos do submundo da música pesada que foram atingidos, mas acabou que nenhum pode participar no período em que estávamos gravando.
Kverna – Ao longo do processo de gravação é que surgiu a ideia da participação de outros vocalistas, e pensamos em pessoas que tinham bandas e que foram atingidas. Chamamos o Fernando Antônio “Tampa” (vocalista da Vultures), a Izza (ex-vocalista da Valika) e o Taz. Porém, por questão de agenda, acabou que só o Taz conseguiu gravar, e ficou tão legal e com tantos elementos sonoros que acabamos deixando somente ele. E esse grito estava sufocado nele. Eu comentei com ele antes, mostramos a letra e ele topou na hora a ideia. Gostamos muito do resultado da participação dele, não só pela veracidade da vivência, mas pelo peso que deu no som, pois seu vocal é bem diferente do Homero, e essa diferença ficou bem acentuada, dando uma dinâmica caótica. Além dessa participação na música, tentamos produzir as fotos, o clipe e o show de lançamento em lugares que foram atingidos. Isso tudo mostra quantos espaços e vidas foram impactadas, mas mesmo com todas as perdas, seguem fortes e buscam se reerguer.
Rafael – Pensamos em convidar vocalistas de bandas de amigos nossos que foram atingidos diretamente pela catástrofe. A ideia inicial era de que todos cantassem, mas não conseguimos conciliar as agendas pessoais. O Taz, além de um grande amigo, é um baita vocalista e frontman da Pull the Trigger. A participação dele somou muito à composição, e o resultado ficou muito foda. Deu aquele peso a mais no refrão.
Existe sempre uma discussão sobre o papel da arte diante da tragédia: é memória, denúncia, catarse, ou tudo isso junto. Para vocês, “Cheiro de Enchente” é mais um grito de revolta e/ou uma tentativa de preservar a lembrança, para que esse trauma não seja naturalizado e esquecido?
Homero – Penso que tudo junto. Tem ali a revolta por acreditar que, mesmo com a magnitude do evento climático, parte do que aconteceu poderia ter sido evitado ou amenizado se estruturas feitas para conter as águas estivessem funcionando como deveriam. E tem a intenção de marcar um momento na história que não pode ser jogado para baixo do tapete, pra que não se repita.
Kverna – Em um primeiro momento, não tínhamos a intenção de criar essa lembrança, queríamos apenas jogar isso pra fora. Todas as imagens que recebemos e vimos sobre a tragédia causam impacto. No entanto, além disso, o relato das pessoas, suas lágrimas, ouvir sobre suas perdas, nos fez perceber que tínhamos muito mais que um som ou um clipe. É um material que relata essa tragédia com a força de quem sobre com ela. Sentimos que esse som seria apenas só mais um se deixássemos passar todas essas histórias e relatos.
Rafael – Sim, é tudo isso. A galera não pode esquecer que boa parte da culpa por essa tragédia foi falta de prevenção e de medidas emergenciais mais efetivas.
O som da Diokane já tinha uma carga de urgência. Como foi a construção musical dessa faixa dentro do estúdio, especialmente com a produção do Thiago Caurio e a masterização do Renato Osório, nomes vindos do metal gaúcho que também carregam a experiência de sons pesados e intensos?
Homero – A composição estava estruturada quando fomos gravar. Tínhamos o instrumental e as vozes compostos, e algumas ideias de complementos para fazer no estúdio. Primeiramente, sobre o trampo do Caurio, que aparece antes no processo. O Caurio é um profissional experiente, um músico que é gente da gente, e que também atua com produção. As orientações dele foram muito importantes para que conseguíssemos colocar na música a sensação de agonia que tínhamos em mente. Da minha parte, acho que a boa vontade e atenção dele durante a captação do vocal deram confiança pra dar umas ousadas. Tipo: além do vocal principal, tem uma dobra de vozes mais gutural, diferentes da principal, que foram sugestão dele, além de uma gritaria que eu queria fazer e ele se mostrou receptivo com a ideia. O trampo do Renato, que é outro músico e produtor do som pesado que entende as bandas, é parte fundamental pra deixar a música com o senso de urgência que gostaríamos. Ele sacou o que a gente tentava dizer, algumas vezes de um jeito torto.
Kverna – Foi muito bom! O Caurio atuou como um produtor e agregou elementos percussivos, como o alfaia (tambor usado nos maracatus), entendeu e trouxe sugestões. Ele foi fundamental na produção. O Renato pegou a ideia do som e agregou toda sua experiência e deu aquele tempero metal para que o som soasse com o peso que buscávamos – junto com um monte de elementos sonoros, percussivos e vocais que gravamos. Ficamos animados pra caralho com o resultado final, que com certeza vai nos fazer trabalhar juntos com essas duas feras mais vezes.
Rafael – Eu já tinha trabalhado com o Renato com uma antiga banda minha em 2013/2014, e o Caurio mais recentemente em outro projeto que eu tenho, o Neptunn. Já é notório a competência e talento deles, tanto na música quanto na produção. Além de “ter a mão pra coisa” os dois são bem exigentes na hora de tirar o melhor do músico que está gravando com eles. Isso certamente faz toda diferença no resultado final, que ficou matador.
Assistindo ao clipe, há uma sensação constante de desconforto, como se fosse impossível dissociar o barulho das guitarras do barulho da água invadindo as casas. Essa mistura de som e imagem foi intencional desde o início ou foi algo que nasceu organicamente no processo de filmagem e edição?
Homero – Essa fica pro Billy responder, que é nosso departamento de audiovisual. Porém, adianto que, na minha cabeça, sempre quis que fosse algo complementar e perturbador. Mas o Billy, que é nosso baixista e trabalha com audiovisual, conseguiu ir além da expectativa. Aqui aproveito pra saudar e agradecer o camarada Leandro Monks, quinto elemento da Diokane, que também é profissional da imagem e nos ajuda desde o começo da banda. Foi ele que, num domingo cinzento, fez fotos de divulgação e passou o dia conosco filmando as cenas da banda.
Kverna – Quando fizemos essa música, e o Homero colocou a letra, começamos a pensar em usar barulhos e elementos que trouxessem esse “desconforto”. Para isso, afinei os tambores da bateria muito mais graves (para dar ideia de trovões), o Rafa deixou os riffs mais densos e melancólicos, o Billy usou o baixo com timbre mais “sujo” e o Homero fez gritos agoniantes. Como o doc/clipe foi produzido pelo Billy, que também é editor no Coletivo Catarse (cooperativa de comunicação e produção cultural), ele colocou nossa intenção em prática usando imagens e relatos. Então, acabou sendo projetado naturalmente, pois nossa ideia é relatar e retratar o que aconteceu, algo que foi e ainda é muito angustiante.
Billy: Primeiro veio a música e ela, por si só, já tem clima perturbador e agoniante. Conseguimos musicalmente criar uma atmosfera de partida muito boa para o que veio se tornar documentário/clipe. O processo de edição e filmagens da banda tocando foi tudo muito orgânico e se transformando a cada etapa. Tínhamos uma ideia inicial que era mesclar banda com imagens, e só. Mas quando fomos fazer as imagens da gente tocando, não tínhamos recebido todas as imagens da enchente que o pessoal nos mandou. Então, achávamos que apareceria mais a banda. Na sessão de fotos que fizemos com o Monks, que fez direção de fotografia e filmagem junto, usamos muito o espaço do estúdio e planos de filmagem pensando na edição, com a ideia de sobrepor as imagens, mas pensando que teria muito mais banda. Mas aí, ao colocar tudo isso na linha de edição e montagem, tinha diversas cenas “diferentes” e agoniante. Tudo passado a nós pessoas que vivenciaram a tragédia e tinham aquilo guardado – não usamos nenhuma imagem de terceiros ou retiradas da internet, foram as pessoas dando seus relatos e as imagens que elas mesmas fizeram. Antes de termos o doc pronto, editamos o clipe só com imagens da banda tocando e já ficou muito legal. Aí, o processo de encaixar imagens da enchente foi mais um quebra cabeça orgânico artístico de qual cena casa melhor e dialoga com a música. No processo do doc usamos elas “clean” como imagem de cobertura das falas e, no clipe, a ideia era deixar elas perturbadoras mesmo, quase que como sem entender o que se está vendo. Isso porque são imagens que, querendo ou não, todo mundo já viu ou viveu algo semelhante. No clipe foi proposital de elas entrarem e ficarem artisticamente perturbadoras e desconfortantes para quem olha, foi algo que fiz pensando em prender o espectador mesmo até o final. Pra que quem ver sinta um alívio e desconforto de ter que refletir sobre o que assistiu. Usamos também as tracks isoladas de voz e instrumentos da gravação da música durante o doc, isso foi a última coisa que encaixamos. Na ideia de que a música foi sendo criada a partir dos depoimentos e ao desfecho ela aparece em forma de clipe.
Rafael – Tanto a música quanto o clipe foram se construindo a partir de uma ideia inicial, foi acontecendo e tomando forma. Depois da música composta e gravada, já tínhamos sentido mais ou menos qual seria o clima do clipe. O Billy mais uma vez fez um trabalho sensacional de edição.
Para além do registro artístico, a enchente de 2024 parece ter marcado um divisor de águas no imaginário gaúcho, algo que atravessa música, política e sociedade. Vocês acreditam que a cena musical do RS — e a própria Diokane — vão carregar esse trauma daqui para frente, seja como discurso, estética ou identidade?
Homero – Suponho que uma merda desse tamanho não se esquece, e acho que vai reverberar por uns bons anos. Na real, pra sempre. Afinal, se até pouco tempo atrás se lembrava da tal enchente de 1941, que atingiu a capital gaúcha, imagina agora, com esse acontecimento que foi ainda maior. É um capítulo da história que precisa ser lembrado com causas e consequências. No imaginário popular ainda é presente, embora seja um assunto delicado. Que seja possível tocar a vida adiante, mas sem deixar o tema se perder no tempo. Seja como inspiração para arte, nas conversas de quem tem um mínimo de empatia, em estudos acadêmicos… Por outro lado, como comentado em trecho anterior da entrevista, a gente vive soterrado de informações novas o tempo todo. E, nesse furacão de novidade, vai se deixando lembranças importantes pra trás.
Kverna – Não digo exatamente só esse, mas vivemos em um país com muitos problemas sociais. E, além de estarmos submersos nisso, absorvemos essas experiências. Como fazedores de arte, obviamente, isso vai acabar influenciando em nossa criação. Seja nas letras, nos discursos, na estética visual, não vejo como escapar. Nem quero, pois a arte ajuda a ressoar e debater certas ideias que não gostamos de lidar no dia a dia. Como a gente deixa bem claro “Somos o kão que perturba seu santo sossego”. Que assim continue.
Rafael – O discurso da Diokane sempre vai ser de revolta. A tragédia diária da nossa sociedade não para por aí, tem muita coisa errada acontecendo o tempo todo.

– Bruno Lisboa escreve no Scream & Yell desde 2014. As fotos são de Leandro Monks / Divulgação