Ao vivo: Thundercat esbanja entrosamento, improvisos e músicas inéditas em São Paulo

texto de Fabio Machado
fotos de Fernando Yokota

Quando perguntado em entrevista ao Scream & Yell sobre o que o público poderia esperar dos shows que faria em agosto no Brasil, Thundercat foi evasivo e evitou detalhes sobre o assunto, com exceção de uma possibilidade de músicas novas deixada no ar. Não que o baixista/vocalista/produtor norte-americano não estivesse a fim de papo (e o restante da conversa pode atestar – leia aqui).

Após assistir a apresentação realizada na Áudio (SP) no último dia 20/08, a impressão é que ele pouco fala sobre o que acontece no palco em parte para manter o elemento surpresa, mas também porque muito do que acontece em cena é concebido no momento, fruto da construção coletiva entre os músicos: além de Thundercat cantando, tocando e criando, temos Justin Brown na bateria e vocais, e Dennis Hamm nos teclados e vocais. Em atividade há alguns anos, essa mesma formação já havia passado pelo Brasil em 2017, quando Thundercat foi uma das atrações do Sesc Jazz ocorrido naquele ano em um show impecável, mas num escopo menor do que foi mostrado no palco da Áudio – ainda houveram outras passagens por terras brasileiras em 2018 e 2023.

Em 2025, Hamm, Brown e Thundercat esbanjam entrosamento e improvisam solos aparentemente impossíveis, mudanças de andamento e dinâmica que desafiam o mais acostumado a músicas “fora do padrão”. Tudo isso emoldurado em um tempero pop e moderno que é característico da produção de Stephen, com o público alternando entre cantar e dançar as músicas do setlist (fortemente representado pelo disco mais recente, “It is What it Is”) ou prestar atenção nas melodias que produzia passeando por toda a extensão do baixo.

Para além do virtuosismo que já não é novidade em sua performance, o Thundercat de 2025 também se mostra um frontman com pleno controle da situação, seja interagindo, pedindo a participação da galera em momentos-chave (a exemplo de “Friendzone”, “Dragonball Durag” e “A Fan’s Mail/Tron Song Suite II” com direito a coro de miados), reagindo a declarações de amor ou falando sobre amigos, como o compatriota Louis Cole antes anunciar a homenagem “I Love Louis Cole”; e o brasileiro Pedro Martins, guitarrista e parceiro musical que o acompanhou nas gravações de “Chromakopia”, registro recente de Tyler The Creator – a história toda foi contada com riqueza de detalhes e risadas por um entusiasmado Thundercat, que logo depois tocou “Isn’t It Strange”, canção presente no último disco solo de Martins, “Rádio Mistério” (2023).

Outra amizade lembrada e eternizada durante a noite foi o rapper Mac Miller, que faleceu tragicamente em 2018. Colaborador frequente do baixista, Mac foi homenageado com um trecho de “What’s the Use?” ao final de “Black Quails”, um momento que obteve aprovação imediata dos presentes. O clima positivo se via tanto no palco quanto fora dele; Thundercat criava solos do nada e se comunicava com os músicos com um sorriso no rosto, enquanto a plateia acompanhava o frenesi dançando, pulando, aplaudindo e cantando o nome artístico de Stephen Lee Bruner.

O auge dessa conexão veio com uma sequência de hits deixada para o final, começando com “Show You the Way” (gravada em conjunto com os ícones do yatch rock Kenny Loggins e Michael McDonald), seguida por “No More Lies” (parceria com Tame Impala) e talvez a mais conhecida do setlist, “Them Changes” (lançada em 2015 mas que ganhou projeção posterior com o disco “Drunk”, de 2017), para o encerramento.

Vale dizer que a noite não foi só de músicas conhecidas, já que ao longo do set Thundercat cumpriu o que disse na entrevista e apresentou alguns sons aparentemente inéditos, como “Candlelight”, “ADD Through the Roof”, “Walking on the Moon” e “Children of the Baked Potato” – essa, apresentada no bis entre uma versão baixo e voz de “Is it Love?” e “It is what it Is”, faixa-título de seu último álbum. É complicado definir sons recém-ouvidos no calor do momento, mas a julgar pelo dançante delírio jazz fusion testemunhado naquela noite, ainda teremos mais exemplares legítimos da música de Stephen Lee Bruner pelos próximos anos.

Setlist

Candlelight
How Away/Uh Uh
I Love Louis Cole
Overseas
Isn’t It Strange?
ADD Through the Roof
King of the Hill
Black Quails/What’s the Use (trecho)
Dragonball Durag
Walking on the Moon
A Fan’s Mail (Tron’s Song Suite II)
Heartbreaks + Seatbacks/Friendzone
Bye for Now
Show You the Way
Funny Thing
No More Lies
Them Changes

bis:
Is It Love?
Children of the Baked Potato
It Is What It Is

– Fabio Machado é músico e jornalista (não necessariamente nessa ordem). Baixista na Falsos Conejos, Mevoi, Thrills & the Chase e outros projetos.
– Fernando Yokota é fotógrafo de shows e de rua. Conheça seu trabalho: http://fernandoyokota.com.br/

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