Crítica: “Amores à Parte” se beneficia do besteirol para arrancar risos do público

texto de Leandro Luz

Vendido como uma comédia “não exatamente romântica”, “Amores à Parte” (“Splitsville”, 2025), de Michael Angelo Covino é, em última instância, um filme de atores carregado de reflexões acerca dos relacionamentos contemporâneos. Até certo ponto, faz coro a algumas discussões presentes no mais recente longa-metragem de Celine Song, “Amores Materialistas” (texto aqui), para além de compartilhar da presença blasé e sedutora de Dakota Johnson. Covino, além de dirigir e estrelar a produção, divide o roteiro com o também ator Kyle Marvin. Ambos tomam para si boa parte do controle de um filme que preza pelo humor físico em primeiro lugar e, em boa parte do tempo, é bem sucedido nesse objetivo.

Dois casais em via de separação protagonizam o filme: Kyle Marvin e Adria Arjona são Carey e Ashley, em crise após um ano de matrimônio e algumas traições por parte da moça; Michael Angelo Covino e Dakota Johnson dão vida a Paul e Julie, ricos, supostamente bem sucedidos e que navegam pelas águas turbulentas de um relacionamento aberto recém estabelecido. Quando Carey recebe a triste notícia de que o amor de sua vida quer o divórcio, quem o acolhe em sua casa é Julie, que decide colocar em prática, pela primeira vez (descobrimos mais adiante na trama), a permissividade de seu acordo matrimonial. O conflito se estabelece para valer quando descobrimos que tal pacto é mais frágil do que as paredes de vidro do casarão luxuoso e que Paul não consegue deixar o ciúme de lado ao saber da conexão entre a esposa e o melhor amigo.

Como esperado, o trabalho de Covino na direção privilegia as performances dos atores ao estabelecer planos mais abertos e valorizar os duelos entre personagens, tanto por meio do diálogo quanto pelo embate físico. São diversas as brigas entre os personagens masculinos do filme que acarretam em móveis destruídos e dolorosos galos na testa. Carey e Paul fazem o tipo infantil e romântico-compulsivo, provavelmente repetindo tramóias e desavenças que vivenciam desde a quinta série. Ashley e Julie, por outro lado, trilham um caminho mais complexo, priorizando, cada uma à sua maneira, o próprio bem-estar e a autodescoberta.

Enquanto Carey lambe as suas feridas, Ashley experimenta uma dezena de novos relacionamentos fugazes e díspares. Ao mesmo tempo em que Paul encara a solidão e traça mil artimanhas para reconquistar a esposa, Julie se concentra em cuidar do filho e em viver uma nova – e mais pacata – experiência amorosa. Corvino é habilidoso o suficiente para incorporar à narrativa cada uma dessas nuances, transitando suavemente entre a melancolia chistosa no retrato dos machos de coração partido, a efemeridade do estilo de vida de Ashley – aqui, a montagem ágil de Sara Shaw ajuda bastante – e a classe sempre exibida por Julie.

Nem sempre um filme demanda profundidade para funcionar, mas é inegável o quanto “Amores à Parte” carece de desenvolvimento no que tange às questões ligadas aos novos relacionamentos estabelecidos entre os casais. Não só os conceitos que norteiam a ideia de relacionamento aberto são abandonados ao sabor da superficialidade, mas principalmente o impacto dos novos arranjos amorosos vividos por Carey é deixado de lado em benefício do besteirol. Sim, se trata de uma comédia capaz de causar o riso frouxo e genuíno, contudo, nem sempre o caminho mais fácil se traduz na melhor solução.

Por um lado, o roteiro é inteligente ao evitar o espelhamento da situação de Carey e Julie na outra dupla protagonista do filme, safando-se, assim, de uma solução sedutora de tão simples e clichê. Por outro, o texto peca por não conseguir construir algo mais interessante para a personagem de Ashley, para além de colocá-la, cena após cena, em situações cada vez mais esdrúxulas com os homens que passam a habitar a sua vida e a sua casa. A piada recorrente de Carey em sintonia com os novos amantes da ex é uma boa manobra, mas não o suficiente para sustentar a gag até o fim.

Um dos trunfos da obra é conseguir capturar o espectador por meio de cenas marcantes – a da porradaria principal e a dos peixinhos dourados no parque de diversões se destacam -, fundadas em diálogos afiados e em soluções visuais que as tornam não só memoráveis como imprescindíveis para a construção das personagens e para o desenvolvimento da história. A breve, porém certeira participação de Nicholas Braun (um dos atores mais queridos da série “Succession”, da HBO, que interpreta o patético Greg), por exemplo, consegue trazer um frescor necessário à parte final do filme e, ao mesmo tempo, é importante para que o espectador volte a torcer por Carey e Ashley, em dado instante no qual essa chama parecia completamente apagada.

Separações, divórcios, amores livres, formas de lidar com o ciúme: em última instância, apesar da tendência em infantilizar os personagens masculinos, os temas levantados aqui corroboram para certa noção de que os relacionamentos precisam mesmo de respiro e de novos acordos o tempo todo. Há também muita humanidade em Carey e em Paul – na maneira como eles sofrem, guerreiam, hostilizam-se, mas também no jeito deles expressarem os seus sentimentos e os seus desejos mais profundos e desprotegidos (se as personagens femininas recebessem a mesma atenção, o filme cresceria um bocado). O plano que encerra o filme parece propor um espelhamento entre os adultos e as crianças, trazendo certa doçura lacrimosa, e nos faz sair da sala de cinema com um gosto agridoce na boca, ainda com os músculos da face um tanto doloridos em virtude dos inevitáveis e abundantes sorrisos.

– Leandro Luz (@leandro_luz) pesquisa e escreve sobre cinema. Coordena a área de audiovisual do Sesc RJ, atuando na curadoria, programação e gestão de projetos em todo o estado do Rio de Janeiro. Exerce atividades de crítica no Scream & Yell e nos podcasts Tudo É BrasilPlano-Sequência e 1 disco, 1 filme.

2 thoughts on “Crítica: “Amores à Parte” se beneficia do besteirol para arrancar risos do público

  1. Um filme que simplismente instiga , influencia e normaliza a traição.
    Chamaria de “atual”, mas nada criativo tendo em vista que o público atraído busca contextos e situações inteligentemente engraçadas.
    Bons atores, péssimo roteiro e triste entrega de conteúdo de valor, mesmo que tenha intencionado trazer a realidade moderna.

  2. O filme se propõe a ser uma comédia, mas não conseguiu arrancar mim nenhuma risada. Ao contrário, a única coisa que consegui sentir foi raiva de ter saído de casa, perdido meu tempo e gastado o meu dinheiro para ver esta porcaria. Foi tão medíocre, que não consegui terminar. Me retirei da sala no meio da sessão.

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