Entrevista: “Por trás de uma musiquinha divertida de bar, pode ter uma baita história”, avisa Braulio Lorentz

entrevista de Leonardo Vinhas

O que existe por trás da história de um sucesso? Calma, a pergunta parece discurso de coach, mas não é o caso. Na verdade, os bastidores de algo que “deu certo” em termos mercadológicos (grande exposição, bastante dinheiro, elogios públicos, etc) podem trazer uma mistura complexa de trabalho duro, rancores, acaso, esforço mercadológico consciente, exploração do trabalho, brigas de ego, realização pessoal – às vezes, tudo junto. Especialmente se o objeto de tal sucesso é uma canção.

Ciente disso, o jornalista Braulio Lorentz, editor de cultura do G1, se dedicou a um projeto apaixonado de investigar as histórias por trás de hits das décadas de 1980, 1990 e 2000. Orientando-se não só pela popularidade das canções, mas também pelo interesse pessoal, Lorentz conversou com gente tão diferente quanto Kelly Key, Semisonic, Right Said Fred, Dr. Silvana & Cia., Counting Crows, KT Tunstall e vários outros. O resultado é o livro “Baseado em Hits Reais” (2025), lançado pela editora Máquina de Livros em agosto.

Projeto de fã, sim, mas de um fã tão apaixonado pela música quanto pelo jornalismo. As entrevistas de Lorentz trazem mais do que meras curiosidades: elas satisfazem a vontade de quem gosta das pitorescas histórias do tipo “behind the music”, mas trazem também uma visão bastante interessante sobre o processo criativo dos artistas, a indústria da música, a convivência com um legado que quase sempre eclipsa a obra completa, a perda do sucesso massivo e afins. É um prato cheio para quem entende a música pop como uma metáfora para a vida real. Para quem gosta de boas histórias, também.

Infelizmente, a falta de tempo obrigou este repórter a realizar a entrevista com o autor por e-mail, perdendo assim a oportunidade de travar uma conversa tal como as que fazem parte de “Baseado em Hits Reais”. Mas Lorentez mostrou-se um entrevistado com tanto a contar como os personagens de seu livro. Eis, portanto, um breve “behind the book” sobre o livro em questão.

Apesar de haver um capítulo próprio para os “one hit wonders”, é o caso de pensar que muitos dos outros nomes ali poderiam ser colocados nessa categoria, principalmente se pensarmos no mercado brasileiro – Counting Crows, por exemplo, não teve nada à altura de “Mr. Jones” em termos de popularidade por aqui. Essa explosão, graças a uma, no máximo duas canções, é algo emblemático do período que você abrange no livro?
Discordo do Counting Crows, mas só de estarmos debatendo a quantidade de hits da banda já sinto que o livro está cumprindo seu papel. Eles foram indicados ao Oscar com “Accidentally in Love”, trilha do grande “Shrek 2” (o melhor da franquia), mas perderam pro Jorge Drexler. Para o povo mais novinho, o único sucesso do Counting Crows seria essa. E, pra mim, a grande canção deles, que foi bem nos charts americanos, é “Long December”.

Mas concordo com você, no geral: antes, era mais difícil ter um hit, porque os artistas lançavam menos músicas e trabalhavam por muito tempo a mesma canção. Isso explica a quantidade de recordes batidos na Billboard nos últimos tempos: a ótica do streaming permite mais rotatividade nas paradas e mais possibilidade de um artista ter mais de um hit ao mesmo tempo.

Você deixa claro na apresentação do livro que ele nasceu de um interesse pessoal e de uma relação de admiração com essas canções. Como você fez para não deixar a afetividade se interpor ao escrutínio jornalístico?
O principal é assumir para si mesmo que a gente é humano e não tem nada mais humano do que gostar e não gostar de coisas. Ou de se interessar ou não por coisas. Adoro histórias de artistas que sumiram. E adoro mais ainda os bastidores da música pop. Dos mais de 40 artistas entrevistados, claro que sou mais fã de alguns do que de outros. O livro me fez redescobrir o talento da Vanessa Carlton e da KT Tunstall. Mas me fez lembrar o quanto as baladas do Daniel Powter e os hits dançantes do Right Said Fred podem ser irritantes e esquemáticos. Independentemente disso, acho que todos que estão no livro têm boas histórias para contar.

Na abertura você também cita a postura de fã para conseguir entrevistas – como no caso dos Spin Doctors (e que acabou não rolando, até onde sei). Pensando de forma ampla, adular o ego ainda é o caminho mais fácil para ter acesso a um artista?
Não rolou com o Spin Doctors. Uma pena. Mostrar interesse é, definitivamente, o melhor caminho para conseguir uma entrevista. Mas não estou falando de ficar adjetivando, ficar puxando saco. Na minha opinião, a maioria gosta de falar sobre música e sobre a vida no geral quando nota que do outro lado tem alguém que ouviu os discos, leu entrevistas anteriores. Enfim, fez o dever de casa direitinho.

Muitos dos artistas entrevistados foram alvos de preconceito da crítica e até de parte do público, apesar do sucesso estrondoso que fizeram. Você percebeu se a maioria deixou esse preconceito para trás, ou se ainda se ressente da falta de reconhecimento?
Ressentimento, em graus variados, faz parte da vida de quem fez muito sucesso e hoje não faz mais. São raros os casos em que senti um desprendimento: talvez o Vinny seja o mais bem resolvido neste ponto. Não por acaso, quando fez uma pausa na carreira foi estudar Psicologia e Filosofia. Mas com certeza quase todo mundo no livro tem alguma questão: quer mostrar que vai além do maior sucesso e quer deixar claro que não é mais a mesma pessoa. Estranho seria se fosse, né?

Ainda nesse mesmo quesito: muitos artistas entrevistados sempre vão ser lembrados por aquele hit ou, quando muito, por um álbum específico. Imagino que alguns abracem isso com leveza, enquanto outros veem como uma maldição. Como foi a relação deles com a obra que lhes deu sucesso e dinheiro?
Por coincidência, apenas um artista do livro deixou de tocar seu maior sucesso durante um tempo. É o Counting Crows. Falando com o vocalista, você nota que ele não gosta mesmo de “Mr. Jones”. Mas, hoje, como os outros artistas, ele toca a música fazendo uma concessão aos fãs. Além deles, acho que Daniel Powter (“Bad day”) e Hoobastank (“The reason”) são os mais incomodados com seus maiores hits.

Você diria que a maioria lida bem com ter ficado fora dos holofotes por tanto tempo?
Sim, a maioria lidou bem. No geral, eles entendem que voltaram ao patamar anterior ao período de sucesso. Para alguns, essa decadência fez mal, mas com o tempo eles redimensionaram suas expectativas. Foi comum ouvir o discurso de que é melhor ter menos fãs que curtem de verdade do que um mega fã-clube que pode largá-los de uma hora pra outra.

A memória afetiva sempre vai pesar na apreciação de obras do passado. Para alguém que não viveu a época, os hits listados vão soar de uma maneira; para quem viveu, sempre vai ter essa ligação emocional. É possível falar em “apreciação isenta” dessas canções à luz do tempo? Ou isso é algo que nem faz sentido?
Eu acho que uma canção, uma série, uma refeição… tudo muda quando você descobre como ela foi feita, quem é a pessoa por trás daquilo, quais as histórias sobre aquele produto que você está consumindo. Se alguém ouvir Chumbawamba depois de ler o livro e não der um sorrisinho, sinto que não cumpri meu papel. Os caras tinham uma banda anarquista que doava os lucros com anúncios para ONGs que fiscalizavam as empresas desses mesmos anúncios. Por trás de uma musiquinha divertida de bar, pode ter uma baita história.

– Leonardo Vinhas (@leovinhas) é produtor e autor do livro “O Evangelho Segundo Odair: Censura, Igreja e O Filho de José e Maria“.

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