texto de Davi Caro
Encontrar álbuns cuja história pregressa pode eclipsar a música contida no trabalho em si é mais comum do que pode parecer. Na maioria das vezes, no entanto, esse tipo de situação ocorre com artistas e grupos de carreiras extensas. Quando a polêmica e controvérsia acabam tomando conta da percepção pública de uma banda nova, porém, cria-se uma situação onde os prospectos de futuro criativo são colocados em cheque, a despeito da qualidade do material artístico.
O recente caso da banda argentina Las Ligas Menores talvez seja o melhor exemplo deste último tipo de circunstância, guardando paralelos, inclusive, com o imbróglio que também envolveu uma banda independente brasileira recentemente, a Selvagem à Procura de Lei: o quinteto portenho – liderado pela guitarrista, vocalista e compositora Anabella Cartolano – anunciou a desvinculação de todos os integrantes à exceção da frontwoman em outubro de 2024 em um processo envolto em mistério e até hoje não muito bem explicado.
De acordo com Anabella, os ex-integrantes Nina Carrara, Angie Cases Bocci, Pablo Kemper e Micaela García – que ainda faziam parte do conjunto na primeira (e única, até agora) passagem do Las Ligas Menores pelo Brasil, no ano passado – “se desligaram conforme decisão própria. Este projeto é minha vida, e hoje estão tentando me impedir de tocar as canções que eu mesma escrevi e compus.” Apesar de indicar um rompimento acrimonioso, porém, Anabella desde então apontou que seguiria acompanhada de novos membros: “Existe muita vontade de sair tocando, crescendo, e com um novo disco a caminho”.
O quanto este novo disco, “A Esta Altura” (2025), o terceiro da discografia do Las Ligas Menores, que finalmente chegou ao público em julho, seria influenciado pelo turbulento rompimento com os ex-companheiros era, até o momento, um enigma. Além disso, outro elemento acabou inevitavelmente influenciando o processo criativo da compositora: o descontentamento de seus próprios fãs frente à dissolução da formação original.
Pesa também o posicionamento de outros artistas da cena musical argentina, como Santiago Motorizado (El Mato), em favor dos quatro dissidentes, além de uma suposta má vontade do público para com a cantora, cuja atitude de simplesmente substituir os ex-companheiros foi vista como arrogante e prepotente (de acordo com os muitos comentários vistos em redes sociais), ainda mais tendo em vista o anúncio de shows em diferentes partes da América Latina prévio à divulgação da mudança de formação.
Agora acompanhada de Faustina Sagasti, Micaela Vainikoff, Lucia Hojman e Paola Maiorana (a nova formação chegou a lançar a sessão acima em janeiro, ainda tocando três canções do material antigo), Cartolano ressurge, sete anos depois do ótimo “Fuego Artificial” (2018), com um álbum que parece incapaz de escapar da confusão que o antecedeu, e se mostra disposto a assumir um posicionamento desde seu título. No entanto, a questão permanece: apesar de sua qualidade, seria “A Esta Altura” capaz de se desvencilhar do conflito que o gerou? Seria o novo disco um símbolo perpétuo de mágoa?
A julgar pela primeira faixa, não. “Las Pirañas” é melancólica e, de forma reveladora (talvez algo pensado?). Começa com Anabella sozinha, acompanhando a si mesma na guitarra. Conforme o restante dos instrumentos se unem à musicista solitária, a melodia cresce, resignada, com coros bonitos e tempo cadenciado. A energia conjurada pela faixa, porém, contrasta com “Éramos Tres”, mais acelerada e cativante, e com uso mais presente de sintetizadores – mais similar aos trabalhos anteriores, e em especial com o último álbum. “Quien es Aquel” é forte candidata ao título de melhor música do novo trabalho, com um refrão que faz referência direta ao rompimento da antiga formação e a repercussão atingida: “Quem é aquele para opinar / Com vontade desmerecida […] Com tão pouca dignidade”.
“Ritual Encantador” é menos amargurada musicalmente, apesar de seguir a mesma linha conceitual, falando sobre demolir tudo e começar de novo mais de uma vez. “Dicen” começa mais “shoegaze”, com guitarras bonitas, para engatar um ritmo mais marcado e uma letra mais intimista. Já “Te Quiero” é uma das canções mais assumidamente pop do disco, com um início que é reminiscente do que o The Cure fez em “Just Like Heaven”. O título, no entanto, é de um duplo sentido que surpreende aqueles esperando uma canção romântica, e se deparam com a magoada resolução: “Te amo / Longe de mim”, Cartolano entoa. “El Desierto”, em contrapartida, é soturna até não poder mais, e talvez por isso destoe em meio ao repertório (embora possa engajar mais o ouvinte depois de várias audições).

Por outro lado, “Alguien Algo” pode ser a mais fraca do registro, em um arranjo que soa um tanto mal resolvido e inconsistente. “Mi Error”, a faixa seguinte, soa um tanto “mais do mesmo”, deixando a impressão de ser uma faixa mais antiga, até que o ouvinte volta a atenção para a letra: “E se você não sabe quem é / Não tenho a explicação”. Por mais que a instrumentação (competentíssima, por sinal) corra risco de soterrar os vocais em algumas passagens, é possível entender bem o gancho da faixa. “Meu erro é querer / Que me ame”, em um dos momentos mais vulneráveis de Cartolano aqui.
Deixar “24/7” para o encerramento do álbum, no entanto, é um grande acerto. Mais climática e ambiciosa, a canção faz uso de samples para costurar uma atmosfera densa, em meio a voz principal, que soa quase como uma lamentação enquanto canta sobre ter “cinzas nas mãos” e “fantasmas ao redor”. Com um som que ajuda a relembrar os primeiros discos do New Order, a faixa pode apontar novos (e auspiciosos) rumos para o futuro deste projeto.
A ideia de um futuro, ao final das 10 canções de “A Esta Altura”, não é tão duvidoso para o Las Ligas Menores: se, por um lado, Anabella Cartolano buscou se reafirmar como a “mastermind” por trás da banda que outrora a acompanhava, esta mesma necessidade de reafirmação cria também o risco de suprimir o potencial criativo do novo conjunto que a vocalista reuniu em torno de si. Lidar com uma separação tão ruidosa quanto esta pode ser (e muitas vezes é) a sina definitiva para muitas bandas jovens que lutam para se fazerem ouvir nos dias atuais. Claro que nem todas as bandas, dentro ou fora da Argentina, são como o Las Ligas Menores: afinal de contas, o volume de trabalho mostrado até agora mostra o tipo de inclinação pop – pareado com uma sólida base de influências – que faz toda a diferença nos dias de hoje.
É importante, contudo, que Cartolano saiba deixar o abalo pelo qual passou se distanciar no retrovisor, para não perpetuar os traumas que a inspirou aqui. Com uma carreira solo promissora (que já conta com um disco, “Sur”, lançado no ano passado), que Anabella saiba fortalecer a linha que separa seus voos solo da banda que diz haver idealizado. “O tempo é o senhor da razão”, diz o ditado. A esta altura (sem trocadilho), compreender tal provérbio se mostra a chave para uma trajetória longeva para o Las Ligas Menores.
Ouça o disco na integra abaixo
– Davi Caro é professor, tradutor, músico, escritor e estudante de Jornalismo. Leia mais textos dele aqui.
