Entrevista: Alberto Continentino fala sobre seu novo disco, que traz parcerias com Ana Frango Elétrico, Negro Leo e Silvia Machete

entrevista de Danilo Souza

Um disco que mescla palavras, sons, imagens, figuras… o terceiro álbum do carioca Alberto Continentino, “Cabeça a Mil e o Corpo Lento” (2025), pode ser interpretado e sentido de diversas formas diferentes. É o que ele mesmo conta: “Não é uma coisa feita para uma compreensão muito objetiva e sempre gostei muito disso. Acho que tem a ver com a minha musicalidade.”

Baixista experiente que já gravou com Ed Motta, Adriana Calcanhoto e Milton Nascimento, participou do “Acústico MTv” de Cássia Eller, além de acompanhar Caetano Veloso na turnê do álbum “Meu Coco” (2021), Continentino revela  que sua colaboração com Silvia Machete o influenciou muito: “Ela foi a primeira artista com quem musiquei letras (…). Abriram janelas dentro da minha cabeça, de novas possibilidades do que eu poderia fazer”, conta.

Presente na lista da APCA 2025, o novo álbum traz parcerias de Alberto, que rascunhou as melodias em meio à pandemia, com Domenico Lancellotti, Quito Ribeiro, Ana Frango Elétrico, Gabriela Riley, Kassin, Silvia Machete, Cabelo, Jonas Sá,  Nina Becker, Laura Erber e Negro Leo – Ana, Nina, Silvia e Gabriela ainda cantam no disco junto a Dora Morelembaum e Nina Miranda.

Cabeça a Mil e o Corpo Lento” faz jus ao nome e funciona como um retrato pessoal do musicista a respeito do período pandêmico e o que veio depois dele. São várias ideias e estímulos ao mesmo tempo, e nem sempre o corpo acompanha o ritmo. “Tem muito a ver com o momento da pandemia, e eu acho que continuou depois [da pandemia], a gente está com a cabeça muito acelerada e tal e eu sinto [isso] muito forte”. Abaixo, Continentino fala mais sobre o disco.

Ouça o álbum na integra abaixo.

Alberto, seu novo disco inverte a tradicional fórmula de compor canções, já que nasce a partir das letras e não das melodias. Como foi esse processo de criar o álbum e o que mudou na sua forma de sentir ou pensar a música ao começar pelas palavras?
Comecei o processo de composição durante a pandemia, naquela situação que a gente chamava de isolamento / quarentena. Eu estava morando numa casa em Teresópolis com a minha família num momento depois de ter lançado dois álbuns, “Ao Som dos Planetas” (2015), que é um esquema metade canção e metade instrumental, e o “Ultraleve” (2018), que é instrumental. Eu já estava pensando em fazer outro.

Na verdade, teve um álbum que cheguei a começar e parei no meio, perdi um pouco a identificação com ele porque eu sentia que peguei um material que já tinha, como músicas que tinha composto há cinco ou dez anos com algum objetivo, tipo, sei lá, ser gravado por algum artista e não foi, aí ficaram guardadas. Parei de me identificar com aquilo e comecei a pensar “e se eu fizesse um álbum todo novo, com as composições todas voltadas para ele e para mim…”

Comecei a pensar de uma forma voltada para mim, com as minhas limitações e com a minha liberdade também, então pude pirar mais nas melodias, fazer mais, ousar mais… eu quis fazer esse processo da letra e, a partir dessa ideia, moldar a melodia. Escolhi artistas que eu me identifico porque escrevem de uma maneira abstrata, indireta, não tem aquela mensagem diretamente, é um trabalho com imagens, com paisagens, com coisas… não é uma coisa feita para uma compreensão muito objetiva e eu sempre gostei muito disso. Acho que tem a ver com a minha musicalidade.

O título “cabeça a mil e o corpo lento” parece um retrato emocional dos anos mais recentes em nossa sociedade. Pandemia, reclusão, excesso de estímulos… Esse disco é mais sobre você ou sobre o mundo?
Eu acho que, quando me identifiquei com esse verso da Ana [Frango Elétrico], foi, na verdade, uma coisa muito íntima minha. Uma coisa que realmente me identifico, uma coisa de inércia, da cabeça estar sempre com muita ideia, com muita inspiração e também com uma sede de consumir, ouvir, pesquisar, trocar ideias que instigam. Tem muito a ver com o momento da pandemia, e acho que continuou depois [da pandemia], a gente está com a cabeça muito acelerada e tal e eu sinto [isso] muito forte. Mas é realmente uma identificação minha. Quando olhei esse verso [“cabeça a mil e o corpo lento”, da faixa “Manjar de Luz”], falei: “Parece que foi feito para mim”. A Ana, quando escreveu, devia também estar [com a cabeça acelerada], porque a letra é cheia de ideias e faz parecer que ela estava também nessa.

Apesar de ser um disco solo, há colaborações com outros artistas em 11 das 12 faixas. No material de divulgação, você definiu que “a escolha de parceiros foi a primeira composição desse álbum”. Que critérios, emocionais ou estéticos, te guiaram nessa seleção dos nomes?
Eu sempre gostei muito dessa forma como eu canto, acho que combina muito. No processo de gravação de vozes eu uso muitas dobras e coros, às vezes gravo camadas de voz, sabe? E sempre acho um timbre feminino bonito, para mim complementa muito, é uma coisa de orquestração, de textura sonora mesmo essa mistura de voz masculina e feminina, e aí eu quis ter. E achei também que a cada hora ser uma [convidada diferente] vai apresentando uma dinâmica boa para quem está ouvindo, são timbres diferentes e vozes lindas.

Eu tenho uma história de parceria, e [os artistas convidados] são pessoas com quem eu fui tocar, com quem eu tive algum encontro musical em algum momento da minha vida, e daí nasceu uma identificação. Pessoas que gostam das mesmas coisas, como a Nina [Becker] e a Silvia [Machete], a Ana [Frango Elétrico], que também já conheço há um tempo e sempre a gente tem vontade de fazer coisas juntos. São pessoas que fazem parte de uma cena musical que eu [também] faço parte, então foi um convite muito natural, são pessoas que fazem parte mesmo do meu dia a dia e eu tenho uma relação e uma história com todas elas.

Muitos dos artistas convidados possuem relação com o campo das artes plásticas e visuais, além da música. Isso influenciou na sonoridade e no conceito do seu álbum?
Acho que tudo influencia. Estou muito aberto a ser influenciado, a ser inspirado pelas ideias, acho que isso foi a grande coisa desse processo de composição, porque eu abri a minha cabeça para as ideias que vinham desses artistas e, como eu acho que eles têm essa relação com as outras artes, eu vejo muito isso. Vejo uma sequência de imagens, uma coisa cinematográfica que não é tão usual assim em canções, eu achei genial, mas às vezes eu mostrava pras pessoas e elas falavam: “Nossa, que letra maluca, que doideira! Mas que doideira boa!”

É uma coisa que tem a ver com as letras, com as palavras, um monte de letra amontoada, e acho que só podia vir realmente de um artista como o Cabelo e o Negro Leo também. Isso compensa uma coisa em mim que considero até uma certa alienação, porque eu sempre fui muito voltado para a música [parte instrumental]. Eu nunca consegui escrever uma letra e eu tinha pouca relação também com letra de canção, apesar de ouvir muita canção americana e brasileira, eu ficava sempre viajando nas notas, nos arranjos, nos sons, na sonoridade dos acordes, nos ritmos… e aí acho que esses artistas meio que me completam e me tiram dessa alienação da música para criar um álbum que é interessante não só pela musicalidade, mas pelas palavras, pelas frases, pelas imagens…

Uma coisa curiosa dentro desse processo criativo é que você não se coloca como um cantor, mas sim como alguém que “usa a voz como um instrumento”. De que modo você colocou isso em prática no estúdio?
Essa maneira de gravar as vozes – fazer as dobras, sempre colocar coro… – dilui um pouco a atenção e mistura o vocal com os instrumentos. Isso é o que eu penso como um orquestrador e arranjador. Não penso como intérprete, não tenho esse dom de pegar uma canção e, através do canto, elevar essa canção a um nível maior, com uma potência como a Dora Morelenbaum tem, a Silvia [Machete] também. Acho que isso é de cada um. A minha sensação é muito de dentro, então, não sei como é para uma pessoa estar ouvindo esse disco pela primeira vez e ouvindo as vozes. Mas sinto isso, como se fosse realmente mais uma peça ali, junto com sintetizadores que fazem um contraponto, junto com os metais que fazem outro contraponto. Sinto tudo muito equilibrado, é a minha maneira de ouvir música, percebo muitos detalhes e não só o vocal.

Que tipo de escuta esse álbum pede? É algo mais contemplativo ou até sensorial? O que você espera que as pessoas sintam ao escutar esse disco?
Antes de lançar o disco, nessa parceria, por exemplo, com o selo Risco, eles escutaram, demoraram um tempo, depois me retornaram e a reação deles me surpreendeu positivamente. Eles consideraram um disco interessante musicalmente e também com um certo potencial pop em algumas músicas. E nas audições também percebi isso, que foi uma surpresa positiva para mim. Me sinto muito distante do mainstream porque sinto que a informação hoje em dia chega muito acelerada. A nossa atenção está disputada. parece que, hoje em dia, a atenção das pessoas é uma das coisas mais valiosas, tudo é muito gritante visualmente. A linguagem de hoje em dia é tudo muito urgente, muito emergente. Não faço tanto parte e não tenho essa pretensão de fazer parte de um mundo mainstream.

Fiz meus discos, minhas músicas, para aquelas pessoas que gostam de ouvir um álbum, que não gostam de ouvir só sua playlist, que não gostam de ouvir só um single, que gostam de um álbum, ouvir vinil, músicas de outras épocas… Sempre achei que meu disco é voltado para esse público, que tem realmente interesse em parar e escutar. Mas tenho visto também que tem algumas músicas que são pop, que são dançantes, que a pessoa escuta e começa a se mexer, a se envolver de uma forma mais direta. Tenho sentido isso na reação das pessoas e tenho gostado.

Você tem outros dois álbuns na discografia, que são discos colaborativos. Já o “Cabeça a Mil e o Corpo Lento” parece ser um ponto de virada e uma exposição mais clara da sua identidade autoral. O que ele significa para você neste sentido?
Eu encontrei uma maturidade, sinto que é parte do momento mesmo, participei de alguns projetos que me fizeram amadurecer como produtor. Por exemplo, o da Silvia Machete. Foi um processo que me influenciou muito, ali eu descobri coisas e se abriram janelas dentro da minha cabeça, de novas possibilidades do que eu poderia fazer, inclusive esse processo de composição, porque ela foi a primeira artista com quem musiquei letras. Cresci ouvindo muito jazz, ouvindo muita bossa nova, canção – e o formalismo da canção, e também olhava muito para trás, para os anos 70. Essa foi a coisa mais forte que me pega na música: a maneira como se fazia a música nos anos 70, em termos de composição, de produção e toda aquela revolução estética sonora, para mim é muito interessante. Black music, soul music, a Motown [Records], o funk, essas coisas… O disco tem essa intenção, mas acho que ele é mais moderno, mais maduro, ele tem uma coisa não tão alegre e solar quanto as outras coisas que eu tinha uma tendência de fazer e eu gosto disso.

Você sente que o “Cabeça a Mil e o Corpo Lento” abriu os caminhos para outras coisas que você pretende explorar sonoramente mais adiante?
Bom, eu tenho um processo que demora muitos anos para gravar um disco, então preciso pensar no próximo. Tenho possibilidades até de fazer discos diferentes, talvez discos mais curtos, com oito músicas e que sejam diferentes. De repente fazer um instrumental, porque o instrumental também tem muita coisa que gosto. Por exemplo, curto muito o grupo Azymuth e aquela mistura que eles fazem de grooves e sintetizadores. [Pretendo] também fazer alguma coisa livre da canção instrumental e, talvez, fazer um álbum cantado, um pouco na onda assim do “Milky Way”, uma coisa meio que até ainda mais dançante. São dois desejos que eu tenho de fazer, que talvez sejam a próxima coisa, [mas] que eu não sei quando eu vou fazer, talvez no meio do caminho surja…

O disco tem a estreia ao vivo marcada para 7 de agosto, no Rio de Janeiro. Você já passou por várias cidades do Brasil e acumulou bastante experiência de palco ao acompanhar outros músicos e bandas na carreira. Tem algum lugar especial onde você quer passar, agora com um projeto autoral?
Ah, tem várias cidades maravilhosas: Salvador, Porto Alegre, Brasília, Recife… adoraria fazer show nessas cidades. Todas elas têm um público maravilhoso. Belo Horizonte, que é a cidade que eu morei [por] sete anos e tem um público maravilhoso que mergulha e vai junto com a gente no som… É um público que gosta dessas doideiras aí que a gente faz.

– Danilo Souza é estudante de jornalismo da UESB (Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia). Acompanhe seu trabalho em instagram.com/danilosouza.jornalismo. A foto que abre o texto é de Flavio Marques.

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