texto de Davi Caro
Pode parecer óbvio, mas é importante ressaltar, antes de mais nada, que “Quarteto Fantástico: Primeiros Passos” (Fantastic Four: First Steps”, 2025) é a melhor adaptação da primeira – e mais icônica – família da Marvel. Desde a incepção do time de super-herois, em 1961, pelas mãos de Stan Lee e Jack Kirby, houve diversas tentativas de adaptar as histórias de Reed Richards (o genial e elástico Sr. Fantástico), Susan “Sue” Storm (a exuberante Mulher Invisível), Jonathan “Johnny” Storm (o rebelde Tocha Humana) e Benjamin “Ben” Grimm (o rochoso Coisa) para as telas: se a tosca e caricata versão dirigida por Roger Corman, em 1994, tornou-se mítica por nunca haver sido lançada e conhecida ao ponto de ter originado até um documentário, as visões de Tim Story – que conduziu “Quarteto Fantástico” (2005) e sua sequência, “Quarteto Fantástico e o Surfista Prateado” (2007) – e de Josh Trank – responsável por um confuso reboot em 2015 – foram verdadeiros desserviços que pouco, ou nada, fizeram em prol de cativar novos fãs para um grupo de personagens mais importante do que a maioria poderia pensar.
Coube, então, a Matt Shakman (que já havia trabalhado com o Marvel Studios ao dirigir “Wandavision”, de 2020) finalmente introduzir os quatro superpoderosos ao MCU, após anos de especulação que se seguiram à compra da 20th Century Fox – anteriormente proprietária dos direitos de adaptação dos personagens – pela Disney. Com um elenco repleto de nomes já conhecidos e bem estabelecidos, e um roteiro que se diferencia da maioria das produções que pertencem ao mesmo universo cinematográfico por ser uma história de época (se passando no início dos anos 1960), o longa tinha muito correndo a seu favor desde quando anunciado. E também muito a provar, no que diz respeito ao potencial de desenvolvimento de seus principais personagens dentro do cenário mainstream atual.

A grande sacada do enredo é não passar tempo recapitulando a origem do Quarteto, se ambientando em um universo retro-futurista onde Richards (Pedro Pascal), Grimm (Ebon Moss-Bachrach) e os irmãos Storm (Vanessa Kirby e Joseph Quinn) já são celebridades semelhantes ao que, no mundo real, foram os Beatles. Mais do que heróis reconhecidos pelo público, a mera existência dos quatro, em uma realidade na qual não existem outros protetores super-dotados (denominada “Terra-828”) mudou completamente a forma de vida das pessoas. Basta olhar a paisagem da Manhattan habitada pelos quatro, repleta de construções futuristas para sua época. Um histórico de vitórias contra ameaçadores vilões – em especial contra o grotesco Harvey “Toupeira” Elder (Paul Walter Houser) – bem como a alegria da iminente chegada do filho de Reed e Sue, Franklin, são, no entanto, interrompidos pela chegada de uma entidade alienígena, a Surfista Prateada Shalla-Bal (Julia Garner). A visitante chega com uma mensagem: a Terra está com seus dias contados. O planeta, ela anuncia, está na rota do gigantesco ser devorador de mundos conhecido como Galactus (Ralph Ineson). Cabe aos quatro confrontarem a entidade milenar, e correr contra o tempo na tentativa de salvar o próprio planeta de um fim que já acometeu inúmeros outros.
O potencial estelar do (impressionante) elenco é o grande trunfo de “Primeiros Passos”… embora por vezes também seja o calcanhar de Aquiles da trama: Pedro Pascal faz por merecer a elevada posição que atingiu dentro de Hollywood, sendo um dos mais cobiçados intérpretes da atualidade. Sua disfuncionalidade intelectual, embora um pouco afetada em momentos, funciona bem quando posta lado-a-lado com o pragmatismo de Vanessa Kirby, cuja Sue Storm é, não sem motivos, decididamente diferente da personagem original dos quadrinhos. Ebon Moss-Bachrach consegue o improvável ao transmitir real empatia e humor por trás de milhares de prostéticos e efeitos visuais, e Paul Walter Houser faz uso de todas as oportunidades que tem para destilar o carisma que já havia usado em “Cobra Kai”. O elo fraco do núcleo principal, porém, é o Johnny Storm de Joseph Quinn, que trabalha muito bem junto aos colegas de time, mas cuja trama individual carece de consistência e mereceria mais desenvolvimento. Julia Garner poderia fazer muito mais no papel da Surfista Prateada (basta ver seu desempenho dramático em “Ozark” ou “Apartamento 7A” para entender), e Ralph Ineson, se não decepciona emprestando seu vozeirão a um dos mais antológicos antagonistas da história da Marvel, definitivamente se beneficiaria de mais tempo de tela.
É importante ressaltar, no entanto, que muitas das falhas vistas aqui tem menos a ver com as atuações em si, e muito mais que se deve ao próprio roteiro: embora saiba equilibrar momentos dramáticos com passagens leves e bem-humoradas, Matt Shakman mostra irregularidade em dar vida a um roteiro escrito a oito mãos (e que inclui créditos a Eric Pearson, que trabalhou em outras produções anteriores do MCU). Muitos detalhes da trama são resolvidos de maneira abrupta, podendo até prejudicar a imersão dos espectadores. Embora mostre conhecimento e apreço pela mitologia original dos personagens, é inegável que alguns elementos esperados por todos (a relação fraternal complexa entre Johnny e Ben, por exemplo) não são tão aprofundados aqui, à exemplo da muito especulada participação, por fim cortada, de John Malcovich como um dos vilões enfrentados pelo Quarteto. Já os efeitos visuais, que cumprem bem o papel de apresentar um universo alternativo plausível dentro da proposta da história, ficam, em algumas passagens, aquém do esperado de uma produção deste porte. O mesmo não pode ser dito da ótima trilha sonora, a cargo do veterano Michael Giacchino, ou da cinematografia de Jess Hall, que reproduz com fidelidade muito da estética sessentista com esmero e cuidado ímpares.
Por mais inevitável que seja a comparação, é difícil ignorar a possibilidade de que “Primeiros Passos” teria se dado muito melhor se não tivesse sido lançado no mesmo mês que outro, igualmente “quadrinístico”, filme de super-heróis. A romântica ingenuidade que permeia a jornada do Quarteto Fantástico é parte indispensável do apelo visto em “Superman”. A diferença está na associação conceitual: ao mesmo tempo em que a “Distinta Concorrência” se aproveita de um recomeço fresco e singular para o Homem de Aço, o Quarteto é vítima da grandiloquência de um universo expandido enorme, ao qual já possuem data para se incorporar. Embora se valham da segurança de uma realidade própria, e distante das figuras mais conhecidas da Casa das Idéias no cinema, todos os caminhos apontam para o retorno, já confirmado, dos quatro em “Doomsday”, próximo longa dos Vingadores (com estreia marcada para Dezembro de 2026). Não que não haja motivos para empolgação: Shakman provou, com “Primeiros Passos”, que é, sim, possível fazer um filme honesto e seguro de si, capaz de fazer jus a um legado maior do que a maioria pode supor – como as belas homenagens a Jack Kirby fazem bem em ressaltar. Dizer, no entanto, que este é o melhor longa já feito do Quarteto Fantástico é nivelar (muito) por baixo, embora seja uma verdade inquestionável. Seja como for, “Quarteto Fantástico: Primeiros Passos” é um admirável, apesar de falho, início para a mais nova fase do MCU, que, ao invés de soar como uma arrogante certeza de esmagadores sucessos vindouros, parece mais uma tentativa comendável, daquelas que carregam consigo a promessa de muitas, e muito bem vindas, melhorias.

– Davi Caro é professor, tradutor, músico, escritor e estudante de Jornalismo. Leia mais textos dele aqui.