Crítica: Desorientador, “Pavements” é muito mais que um documentário – a exemplo da banda e sua música

texto de Davi Caro

A palavra “alternativo” sempre pareceu pouco para o Pavement. Formada no fim dos anos 1980 em Stockton, Califórnia, pelos guitarristas, vocalistas e amigos Stephen Malkmus e Scott “Spiral Stairs” Kannberg, para mais tarde incluir Mark Ibold (baixo), Bob Nastanovich (vocais, teclados e percussão) e Gary Young (bateria), depois substituído por Steve West, a banda confundiu muito mais do que explicou em uma carreira originalmente finalizada em 1999. Sua discografia compreende cinco álbuns de estúdio (além de uma porção de outros lançamentos como EPs e reedições especiais, entre outros) entre os quais alguns, gradualmente, cobram reconhecimento tardio avesso à intriga e choque despertados em sua época original: mesmo trabalhos como “Wowee Zowee” (1995), desafiadores pontos de interrogação aos olhos daqueles despertos para a musicalidade diversa e idiossincrática expressa em “Crooked Rain, Crooked Rain” (1994) são vistos por cada vez mais pessoas como clássicos à frente de seu tempo hoje em dia. A julgar pela última passagem da banda pelo Brasil – no C6 Festival de 2024 – a quantidade de admiradores do Pavement se renova ano após ano. Nada mal para uma banda que construiu para si uma reputação que se opunha ao sucesso mainstream, talvez por uma suposta “incapacidade” de alcançá-lo, ou sequer lidar com o mesmo.

De forma parecida, chamar “Pavements” (Alex Ross Perry, 2025) de “documentário” pode ser um pouco reducionista. Não que seja exatamente fácil descrever o que, exatamente, a produção realmente é. Inicialmente descrito como um “experimento semiótico” pelo diretor, o filme (agora disponível em streaming via Mubi) combina registros de ensaios do quinteto (agora acrescido da tecladista Rebecca Cole) em antecipação aos shows de sua segunda tour de reunião, de 2022, com filmagens da produção, elaboração e encenação do musical “Slanted! Enchanted! A Pavement Musical”, que faz uso extenso do songbook do grupo para contar uma história inspirada na trajetória dos cinco. Essa combinação, por sua vez, é entrecortada com tomadas, à frente e por trás das câmeras, de “Range Life: A Pavement Story”, cinebiografia focada na complexa relação dos membros com o sucesso alcançado na metade dos anos 90 (culminando na problemática performance do Pavement no Lollapalooza de 1995, onde o público alvejou os músicos com lama e o show foi interrompido), sob direção do próprio Perry e contando com o também compositor Joe Keery (de “Stranger Things”) no papel de Malkmus, acrescido de nomes como Nat Wolff (como Spiral Stairs) e Jason Schwartzmann (como Chris Lombardi, fundador da gravadora Matador).

Se isso tudo já parece muito, pode ser um pouco chocante perceber que “Pavements” também funciona como um documentário da banda, recontando de forma despretensiosa a trajetória do quinteto empregando um sem número de imagens de arquivo e também pinçando cortes de entrevistas exibidas anteriormente em “Slow Century” (2002) – embora siga uma estrutura cinematográfica bem menos tradicional – e também incluindo filmagens da exibição “Pavements 1933-2022: A Pavement Museum”, com direito à participação dos membros originais (que também contracenam com suas contrapartes biográficas) e também de novas bandas alternativas abertamente inspiradas pelo grupo, como Soccer Mommy e Snail Mail.

Em uma contradição típica de um grupo que um dia lançou um álbum duplo com um lado inteiro de vinil composto inteiramente de silêncio, tudo isso não deveria funcionar, mas funciona. Como narrativa da jornada da banda, passando por sua dissolução e seus eventuais retornos, “Pavements” não chega a suplantar “Slow Century” como porta de entrada para curiosos interessados na história da banda, mas é um trabalho claramente feito para apelar a fãs mais dedicados (ou obcecados). Enquanto documento da criação do já citado musical – embora não exiba a peça teatral na íntegra – o longa ajuda a evidenciar o potencial melódico das composições de Malkmus e Kannberg (quem diria que “Spit On A Stranger” poderia soar assim?) quando interpretadas por um coral de vozes e adaptadas para um contexto muito diferente daquele de suas origens.

O processo de produção da cinebiografia, por sua vez, aprofunda ainda mais a mítica da banda enquanto transborda ironia: é no mínimo instigante ver Joe Keery, um ator jovem e conhecido mundialmente, se preparando para viver uma personalidade tão espontânea e desconectada como a do vocalista e líder do grupo. De passagens nas quais assiste, repetidas vezes, entrevistas antigas de Malkmus a fim de captar o sotaque do músico, até momentos onde, imerso no papel, o intérprete finalmente toma conhecimento da dimensão que o personagem que interpreta realmente tem. “Range Life” ganhou inclusive uma “premiere” (que na verdade consistiu na primeira exibição de “Pavements”), o que conjura imagens da pretensão cinematográfica da qual a banda parece tirar sarro – contando inclusive com uma produtora fictícia, Paragon Vintage, e igualmente imaginárias indicações a prêmios.

O ponto chave secreto de “Pavements”, no entanto, talvez seja a cobertura da exposição a respeito da história da banda, que rodou diferentes partes do mundo, e cuja passagem por Nova York é coberta aqui. Colocadas lado-a-lado com as imagens dos ensaios mais recentes do quinteto à medida que a história do Pavement é (re)contada, as tomadas das peças de memorabilia compiladas na exibição (que vão desde a propaganda da Apple protagonizada por Malkmus até uma unha do pé do falecido ex-baterista Young) são testemunhadas pelos membros da banda com um misto de admiração, perplexidade e incredulidade. Enquanto Ibold, Nastanovich e West enxergam o peso do legado que deixaram com entusiasmo, e Kannberg vê o apelo ainda colecionado pelo grupo como uma vitória tardia (tal qual a súbita e misteriosa ascensão recente do lado-B “Harness Your Hopes” nas plataformas de streaming), Stephen (ou “professor Malkmus”, como o baixista o chama em uma filmagem de arquivo) se mostra calculadamente desconectado da atenção que sua arte, tão sedutora quanto divisiva, convida para si até hoje. É quase um esforço consciente, e constante, de não se levar tão a sério – algo que o aproximou do antigo parceiro de Silver Jews, o saudoso David Berman, e o distanciou de contemporâneos mais ególatras (alô, Billy Corgan).

Não é de se espantar que “Pavements” possa ser uma experiência desorientadora mesmo para admiradores de longa data, ainda que os clássicos sirvam como uma espécie de acalanto: lá estão “Shady Lane”, “Summer Babe”, “Cut Your Hair”, “Stereo”, “Perfume-V”, etc. Mesmo assim, a atitude experimental de Alex Ross Perry pode afugentar aqueles à espera de uma produção documental mais ortodoxa. Uma vez administradas (ou contidas) as expectativas, entretanto, está não apenas uma ambiciosa – e falsamente pretensiosa – obra que faz jus aos indivíduos que representa, como talvez o melhor tipo de tributo que uma banda como o Pavement poderia receber: “E as histórias que você escuta/Você sabe que elas nunca batem”, diz o disclaimer logo no início, cooptando a letra de “Frontwards”. Esta é a história, contada de tantas formas possível, de uma banda que aprende a lidar com o próprio legado, embora sem tanta preocupação em defendê-lo, ou mesmo entendê-lo, mas sim de apreciá-lo. Documentário ou não, metatextual ou só irônico, ficcional ou real: deixar todas estas questões de lado, no que diz respeito a “Pavements” (e a seus personagens principais) é o primeiro passo em direção a entender a importância e a longevidade de uma banda que sempre foi grande demais para qualquer rótulo.

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– Davi Caro é professor, tradutor, músico, escritor e estudante de Jornalismo. Leia mais textos dele aqui.

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