texto de introdução de Marcelo Costa
faixa a faixa de Gustavo Ortiz
Cantor e compositor do interior paulista, Gustavo Ortiz encerra, em 2025, um processo que começou a ser gestado em 2009, e que ganha corpo agora com o lançamento do EP “Desafogo”, registro de cinco canções que marcam sua estreia em gravações autorais. “O termo desafogo também diz respeito ao meu próprio desafogo de colocar, enfim, minhas canções no mundo”, comenta Ortiz.
Por sugestão de Romulo Fróes, que assina a produção e direção musical do EP, “Desafogo” ganhou novos contornos com as contribuições de Rodrigo Campos (cavaquinho) e Thiago França (sopros). Participam ainda Daniel Antônio (percussão) Bruna Lucchesi, Mari Tavares e Tati Burg no coro. “Trata-se de um trabalho de canção, essa força estruturante da música brasileira. O coração do EP reside nas histórias que cada faixa conta”, explica Ortiz.
Com formação em Ciências Sociais e Antropologia, Gustavo Ortiz reflete inquietações sobre formas de existir e resistir em seu trabalho. “O tema que conecta as músicas é o desafogo – a necessidade de criarmos modos de viver em que não nos sentimos sufocados”, afirma o artista. O projeto parte da vivência cotidiana, do trabalho, das relações e do corpo para propor pequenas fugas e possibilidades. Abaixo, Ortiz comenta o EP faixa a faixa!
01) “Trago”: Essa música se inicia com um saxofone preparando o clima para a entrada de um riff de violão que desemboca numa batida com influência de João Gilberto e um cavaco executado menos como função harmônica do que como uma lança certeira que atravessa a canção e pontua acentos, ou uma agulha rija costurando seu tecido, um pouco como algumas guitarras do Radiohead. Além da conga tocada por Daniel Antonio, que já apresenta a importância da percussão no meu trabalho e as influências das matrizes rítmicas africanas. A letra curta flutua num jogo semântico em torno da primeira pessoa do singular dos verbos trazer e tragar, como uma ode ao prazer de cantar o que já trazemos em nós e o que tragamos do mundo para dentro de nós. Quando a letra se repete, um pandeiro chega para marcar a intensificação tanto dos vocais quanto dos instrumentos, especialmente do cavaco, que acentua suas flechadas e agulhadas, e do saxofone, que delineia o caminho da canção e então finaliza com um solo com influências de John Coltrane enquanto se ouve como algo quase distante: “Tanto faz o que trago, se vem chegando um trago a mais”.
02) “Desafogo”: Faixa título do EP, composta em 2009, quando eu tinha apenas 21 anos. É minha canção mais antiga a ser gravada e também aquela que me despertou a atenção para uma autenticidade em minhas composições, que até então não passavam de cópias dos músicos que ouvia. A faixa traz uma introdução com uma levada de violão com influências de Baden Powell que subitamente se transforma em uma espécie de samba-canção, acompanhado por flautas e percussão ambientando a canção, além de um cavaco com efeitos. A letra começa por narrar imagens de um cotidiano estafado e afogado na estagnação para então chegar em pitacos que devem soar não como opiniões julgadoras, mas como conselhos sussurrados ao pé do ouvido, com o intuito de cantar que haveremos de criar nossos próprios desafogos, individualmente e coletivamente. O arranjo acompanha a crescente da canção, especialmente a percussão, o coro que enfatiza o caráter coletivo da mensagem e o saxofone que lança o convite para uma dança insubmissa: a dança cotidiana que permite criar os desafogos. “Desafogo” gerou também um videoclipe – com direção de Marco Escrivão, direção criativa de Gabriela Loreti e coreografia de Marina Sanches – que quer expressar a criação de uma vida possível em meio àquela casa em ruínas, uma dança que deseja um desafogo.
03) “Casca Cascata”: Parceria com Thiago Ribeiro, poeta e esquizoanalista. A letra de Thiago tem apenas duas orações, que quando pronunciadas soam exatamente iguais, mas com significados diferentes e complementares (A casca tá dentro, que caiba tendo / uma cascata dentro, que cai batendo). Apenas um violão acompanha a melodia das frases que se repetem numa crescente e decrescente, buscando destacar cada sílaba a fim de atentar para a mensagem central da canção: as cascatas que trazemos dentro de nossas cascas e que precisam ser desafogadas para que possam correr livremente. A faixa funciona como um interlúdio do EP, o que é realçado pelo efeito e timbre escolhidos, imprimindo a sensação de uma enunciação de um narrador mais etéreo.
04) “José, João”: Um samba urbano com nuances de samba-baião e uma forte influência do partido-alto nos refrões. Na faixa, tive o prazer de dividir os vocais com Romulo Fróes, por sugestão dele, inclusive, o que me deixa honrado. O cavaco do Rodrigo (Campos) é crucial na condução da narrativa com frases melódicas que dialogam com a mensagem da canção, enquanto tamborim, pandeiro e surdo sustentam a base rítmica com sutileza e tensão. O violão traz a cadência bem marcada do samba tradicional, reforçando o caráter coletivo da canção e convidando os instrumentos a jogarem em favor da letra. A canção começou a ser escrita em 2022, no ano seguinte à morte de meu pai. Caminhoneiro, zagueiro de futebol de várzea e amante de palavras-cruzadas, ele começou a trabalhar aos dez anos e se aposentou pouco antes de falecer, durante a pandemia, poucos dias antes de tomar a vacina. A canção nasceu desse luto e também das memórias dos trabalhadores da minha família — com boias-frias, professoras da rede pública, pedreiros, operários etc. Então a letra foi construída a partir dessas lembranças pessoais, mas também de referências literárias (algo sempre presente em meu trabalho), pois em 2024, li o livro “O que é meu”, de José Henrique Bortolucci — também filho de caminhoneiro. A obra reforçou em mim o desejo de cantar sobre essas vidas que muitas vezes passam despercebidas, as vidas desses trabalhadores, a partir de meus entes próximos, ainda que o título faça referência a nomes comuns, escolhidos para representar uma coletividade. Ela é a tentativa de contar a história de dois personagens que são, na verdade, a de tantos e tantos trabalhadores. Neste EP, ela é a que mais revela minha formação em Ciências Sociais e Antropologia, por conta do tema, e sinto que ela toma outra proporção em tempos em que o trabalho com carteira assinada virou motivo de deboche entre jovens, e num momento em que a redução da jornada de trabalho voltou a ser uma pauta relevante no debate público.
05) “Botafé”: Foi a faixa escolhida para fechar o EP, ela também traz o tema do desafogo, embora de um jeito mais velado, até mais enigmático, e um pouco apoteótico no final, o que senti que fazia sentido pra terminar o EP. É uma canção com tempos um tanto quebrados, em 5/4, 9/8 e que desembocam em “refrões” – que não são bem refrões pois não se repetem – em 6/8, um tempo bem característico do candomblé e de outras matrizes rítmicas africanas. A letra tem também um quê de conselho sussurrado (“Bota fé no ser”), para então criar imagens não convencionais, sugerindo que esse botar fé no ser diz respeito a modos de ser desviantes que podemos criar (“Ser a dança nos varais / Ser ruído em recitais / Ser esquina a batucar/ Ser batuque em pleno altar”), essas brechas de existência que criamos e nas quais podemos ser outras coisas. Como a literatura exerce grande influência em minha escrita, essa letra surgiu durante um exercício de escrita em fluxo de consciência realizado em um curso da atriz e escritora Letícia Bassit. Tanto o saxofone do Thiago (França) quanto o coro (Bruna Lucchesi, Mari Tavares e Tati Burg) foram cruciais para dar o tom quase apoteótico do final da canção, uma apoteose que diz respeito, assim como todo o EP, não à narrativa dos vencedores, mas sim dos desacreditados que ainda buscam seus desafogos. Como uma ode épica ao triunfo do desejo dos oprimidos e de uma coletividade por vir.

– Marcelo Costa (@screamyell) é editor do Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne.
As duas canções apresentadas na matéria são muito boas mesmo. Boa surpresa.
Salve Ismael, tudo bem?
Aqui é o próprio Gustavo Ortiz.
Massa demais que curtiu as duas canções. Te convido a ouvir o EP todo.
Abraço!