texto de João Paulo Barreto
Em 2022, ao escrever sobre “Top Gun: Maverick“, filme anterior do diretor Joseph Kosinski, um dos trechos da crítica deste escriba pontuava o modo como o longa estrelado pelo astro Tom Cruise dosava com precisão os aspectos técnicos de suas frenéticas sequências junto à sua premissa dramática. O texto dizia: “Sua estrutura narrativa não se equilibraria de maneira tão azeitada se não fosse pela comunhão do apelo emocional de sua trama de fundo com os detalhes técnicos e eletrizantes de suas cenas de ação. Com um desenho de som e efeitos sonoros a criar a perfeita sintonia dando a impressão de estarmos dentro das cabines dos caças (friso: esqueça o streaming, assista no cinema!), o filme tem em seus aspectos de áudio um ponto chave para seu impacto no público dentro da sala de projeção”.
Dessa vez, mantenha com ainda mais destaque o trecho que recomenda uma sessão no cinema, substitua o termo “cabines dos caças” por cockpit de carros de automobilismo e o título “Top Gun – Maverick” por “F1 – O Filme” (2025), e o modo como a análise de três anos atrás destacava o equilíbrio entre as cenas de ação em uma proposta de cinema a partir de um espetáculo visual encontra um novo representante à altura trazido pelo mesmo diretor Joseph Kosinski e tendo um astro do mesmo peso que Tom Cruise a encabeçar seu elenco. Aqui, no caso, está Brad Pitt assumindo sua presença sexagenária.
Em “F1”, Pitt encarna Sonny Hayes, um ex-piloto de Fórmula 1 que retorna aos autódromos após três décadas desde um acidente que quase ceifou sua vida. Nessa volta, precisa lidar com um conflito de egos junto a um piloto mais jovem, mas consegue somar toda sua experiência e conhecimento em prol do avanço do carro azarão, pertencente à escuderia dirigida pelo amigo de longa data (e à beira da falência) vivido por Javier Bardem.
Válido pontuar nesse momento a ideia de cinema-espetáculo que “F1” traz desde sua sequência inicial. Ao som de “Whole Lotta Love”, clássico do Led Zeppelin (que também esteve nos cinemas recentemente), é difícil não se sentir contagiado pela proposta visual do filme. Aqui, vemos o protagonista acordar em seu trailer dentro do caos sonoro da corrida em seu entorno (abafado pelo som do mar em seus fones de ouvido) para assumir o volante no circuito de Daytona, prova de 24h na qual os pilotos se revezam em turnos.
Ciente do poder visual que a captação em câmeras IMAX possui, Kosinski faz valer a construção de suas cenas de corrida com cortes rápidos, mas que valorizam sua fluidez frenética. Com “F1”, fica perceptível a ideia de um filme que requer planos nos quais a velocidade de seus carros seja destacada de maneira a permanecer como algo crível. A busca aqui é embasada em aspectos técnicos focados em algo para além de apenas um fetiche visual de engrenagens de motores e pistões em explosões, artifício tão explorado (e banalizado) nos dez filmes na franquia “Velozes & Furiosos”. Some a isso a possibilidade de se inserir outros elementos espetaculares, como fogos de artifício e helicópteros a sobrevoar todo o circuito de corrida e, bom, ao som setentista da bateria de John Bonham a marcar aquele compasso de ação, fica difícil não se sentir contagiado por tal abertura.
Para leigos no quesito Fórmula 1 como esporte (este jornalista incluído), “F1 – O Filme” acaba sendo uma aula sobre como a categoria esportiva funciona. Sua narração oriunda dos veículos de mídia a transmitir as corridas, mesmo soando excessiva às vezes, serve bem ao efeito de um didatismo necessário ao filme diante de uma audiência que nem sempre vai possuir familiaridade com as diversas regras das intricadas provas. Do mesmo modo, no aspecto visual, o longa apresenta elementos que ajudam a tornar os detalhes do automobilismo de velocidade mais palatáveis, como quando vemos os mapas dos circuitos de corridas surgirem a cada país visitado ou quando dilemas técnicos relacionados à mecânica dos carros são apresentados como aspectos de construção narrativa.
Junto a tudo isso, a abordagem da busca de um apuro físico e mental de seus pilotos e a maneira como o filme apresenta todo o preparo e treino que os mesmos precisam ter antes de encarar o esforço de se pilotar a mais de 300km/h traz para o público geral uma boa amostra de como funciona todo aquele universo regado a vaidades e muita grana.
Na cinefilia recente, alguns exemplares de filmes de automobilismo desenharam bem para o espectador esse universo de rivalidade. Dentre eles, cita-se com destaque o excelente “Rush” (2013), filme de Ron Howard a abordar a rixa e o respeito mútuo entre Nick Lauda e James Hunt, dois lendários pilotos. No mais recente “Ford vs. Ferrari” (2019), de James Mangold, como o próprio título entrega, o tema central era a rivalidade entre duas das mais conhecidas escuderias.
A referência a ambas produções nesse momento se dá pelo fato de nos permitir abordar comparativamente uma das (poucas) fragilidades de “F1 – O Filme”: a trama que inicialmente busca destacar uma suposta rivalidade entre o personagem de Pitt e seu companheiro de equipe, Joshua Pearce, vivido por Damson Idris. Ao menos, tal premissa é logo deixada de lado em prol do desenvolvimento dos traumas individuais de ambos, sendo que, no caso de Hayes, isso vem de algo acontecido há mais de três décadas, quando ele quase morreu em um acidente ocorrido em uma prova que tinha Ayrton Senna como líder. Em paralelo, a partir de uma sequência impressionante, um acidente grave ocorrido com Pearce dá ao coadjuvante uma nova perspectiva em seu modo de encarar aquele universo de vaidades.
Com um desenvolvimento de seu personagem central a valorizar a ideia de um espírito que, apesar de competidor, tem na liberdade sua principal ambição, “F1 – O Filme” se encerra em um ciclo a partir de uma rima temática de forma a corroborar tal foco. Após duas horas e meia de filme, a saída da sessão causa sensação semelhante. Legal ter o cinema como função de entretenimento inteligente ainda como meta.
– João Paulo Barreto é jornalista, crítico de cinema e curador do Festival Panorama Internacional Coisa de Cinema. Membro da Abraccine, colabora para o Jornal A Tarde, de Salvador, e é autor de “Uma Vida Blues”, biografia de Álvaro Assmar.
Por fim uma crítica sem a arrogância já ‘normal’ da maioria dos críticos. É isso aí… uma produção feita para nós levar imaginariamente a um mundo que somente quem pilota sabe como é. Divertido e fascinante… Obrigado pela crítica autentica, madura e equilibrada que acrescenta pontos de vista interessantes e enriquecedores.