entrevista de Leonardo Vinhas
Meio Amargo é uma banda paraense que tem 11 anos de estrada e que, nos últimos quatro, fez mais coisas que nos primeiros sete. No meio do caminho ela teve um momento quase “projeto solo”, encarou uma pandemia, e se manteve coesa para sair do confinamento com muito mais tesão de tocar e de abrir portas para o som que fazem, um rock cancioneiro cheio de texturas que não é exatamente o tipo de música que o resto do país associa com a capital do Pará.
Curiosamente, “O Lugar que Ninguém Conhece” (2025), novo álbum da banda, traz canções compostas anteriormente à pandemia, que Lucas Padilha, guitarrista e vocalista da banda, escreveu entre 2016 e 2019, num período em que esteve entre Belém e São Paulo. Sonoramente, é mais próximo de “Ruído Branco” (2021), feito em parceria com a cantora conterrânea Ana Clara (conversamos com ela aqui), do que com os anteriores, o álbum “Tudo O Que Dissemos Que Não Era” (2017) e os EPs “Far From Moscou” (2015) e “Canções simples para pessoas complicadas” (2013).
Esse som meio sombrio, de texturas e ambiências entre o introspectivo e o urbanóide, começa a se confirmar como a característica da banda. Ao mesmo tempo, o caráter coletivo do Meio Amargo também se reforça: junto ao trio que gravou o disco (Padilha, o guitarrista Rodrigo Sardo e o baixista Manuel Malvar) está Deni Mello, baterista que tocava com Ana Clara e que integra o agora quarteto.
A entrevista foi realizada por videochamada com todos os integrantes, pouco antes da banda começar a ensaiar. Aquecida por muitos shows feitos ao longo de 2024, o Meio Amargo está percorrendo todos os espaços de seu estado que lhes abrir as portas, e tentando viabilizar meios de chegar em lugares mais distantes. Mas nessa entrevista, eles repassam o passado, a formação da banda e como ela ajudou a definir sua sonoridade, e contam sobre como a pandemia deu a eles vontade de não perder tempo e sair chutando portas.
Muitos anos que separam os primeiros lançamentos do Meio Amargo desse último disco. O que rolou com a banda nesse período todo?
Lucas Padilha: A banda tem 11 anos de atividade. No início, eu tinha saído de uma outra banda e tinha algumas músicas que estavam meio soltas, perdidas. Peguei elas, fui compondo outras, e aí meio que foi se formando a cara de um projeto que virou o Meio Amargo. A gente gravou um EP e foi começando a tocar, fazer show, circular, e veio a ideia de gravar um álbum, que foi com o [Manuel] Malvar no baixo, o João Lemos (da Molho Negro) na guitarra e o Netto (da Turbo) na bateria. Depois que esse primeiro álbum foi lançado, me mudei para São Paulo. Foi nessa época em que me dei conta que eu estava trabalhando num projeto realmente solo, e não de uma banda. Tanto era que muita gente achava que o Meio Amargo era um alter ego meu, até me cumprimentavam assim, “fala aí, Meio Amargo” (risos). E isso começou a me incomodar um pouco, porque, na minha cabeça, o Meio Amargo sempre foi para ser uma banda. E aí, quando voltei para Belém, o Rodrigo [Sardo] já tinha tocado com a gente na turnê, o Planet (apelido de Malvar) já estava, e veio a história de gravar o álbum. Foi aí que o Meio Amargo virou esse trio. Depois do disco pronto, veio aquela necessidade de tocar ao vivo. Só que as bases eram eletrônicas. Não tinha baterista para shows nem ensaios. Mas a gente tinha feito aquele projeto com a Ana Clara, “Ruído Branco”, que saiu assinado como Ana Clara e Meio Amargo, e foi feito durante a pandemia. A Deni [Mello, baterista] já tocava com a Ana Clara, e daí veio a história de chamá-la para entrar na banda. E ainda bem que ela aceitou (risos).
Virou um quarteto, como no início.
Lucas: Pois é. Desde o começo tinha essa ideia de ser um quarteto. Por várias razões: pela necessidade de tocar as músicas ao vivo, de dividir funções, pois acho que por estar muito sob a minha direção, talvez não parecesse uma banda, pois continuava sendo uma única pessoa que que determinava as coisas. E eu também queria abrir mão disso, queria que eles também participassem do processo, dessem suas ideias e sugestões. Fora isso, tinha a vontade de compor junto, porque eu, como compositor, já estava ficando incomodado de ficar falando sobre mim, escrevendo tudo, fazendo tudo. Queria fazer uma coisa diferente.
E fez. Tem uma nova direção sonora. O primeiro disco tem uma cara folk rock, depois veio entrando uma influência de sons bem mais contemporâneos, pós-2000 mesmo. Você cansou daquele folk moleque?
Todos: (Risadas, muitas risadas)
Lucas: Folk moleque?
Moleque porque as letras tem aquela coisa meio juvenil, do tipo: “Ah, eu sou foda, o mundo não me entende, então só me resta ser mau”.
Lucas: Teve um infortúnio meio que responsável por isso, pelo menos em parte, que foi quando roubaram o meu violão. Eu compunha muito nele, e quando roubaram, eu só tinha guitarra. E em São Paulo eu morava sozinho, então compunha tudo sem um baterista, usava muito uma drum machine. Talvez dali venha o começo dessa estética que está aí hoje. Tem muita influência de outras coisas (também). Num determinado momento eu devo ter passado a ouvir mais coisas que soavam pós punk, dark wave, até eletrônicas mesmo. O Planet (apelido de Manuel Malvar) é bem punk, as referências dele são de uns baixos mais retos. O Rodrigo pode falar mais das guitarras…
Rodrigo Sardo: Esse disco não tem nenhum violão: tudo é guitarra e baixo. Eu sou guitarrista, mas não sou um grande fã de solos, aqueles solos memoráveis, épicos. Gosto de ambiências, mais preenchendo a música que fazendo aquele momento do solo. Não entra qualquer outra coisa! Uma guitarra-base, só que com um efeito diferente. E tanto essa coisa da textura veio forte que rolou um lance curioso: a gente foi participar de um programa e precisou tocar as músicas só no violão. Teve músicas do disco que ficaram de fora, porque não tinha nenhuma guitarra fazendo acorde, por exemplo, e ficou muito diferente, uma diferença gritante, que deixou difícil até para o Lucas cantar.
Vocês gostam de um barulhinho, né? O disco com a Ana Clara era “Ruído Branco”, até a música para o “Estamos!”, disco pandêmico lançado pelo Scream & Yell, é majoritariamente acústica, mas tem uns barulhos, umas intervenções. Tudo vem com uma proposta de explorar esses recursos que uma guitarra elétrica, um amp, um pedal, podem oferecer. Como essa sonoridade acha espaço dentro do cenário de Belém?
Lucas: A gente tem um compromisso com o barulho. A gente gosta de ruídos, de colocar elementos estranhos, assumir as microfonias, especialmente dentro do show. O show é um jeito de trazer o público para o nosso universo, e se pensarmos em Belém, acho que a gente tem mesmo menos espaços de identificação com o que a gente faz, se comparado com algumas outras capitais. Mas temos esse compromisso e, de certa forma, isso basta. Nem sempre vai ser fácil achar aonde tocar, mas gosto do incômodo. Gosto de incomodar as pessoas, então, por mais que seja num espaço onde talvez o nosso som não seja o que o público espera, a gente toca aonde a porta está aberta. E fazemos mesmo um esforço de tocar em todo lugar que dá, tanto que no ano passado a gente fez muitos shows, tocamos em lugares onde tinham cinco pessoas! E também fizemos shows que lotaram a casa, o lugar ficou apertado. Tudo isso vai abrindo portas, às vezes peitando e chutando…(risos).
Tenho feito essa pergunta para várias bandas, porque acho importante a gente olhar esse passado recente que ainda é traumático: a pandemia fez vocês repensarem o que querem com a banda?
Lucas: Boa pergunta. Eu acho que fez, sim. Para mim, pelo menos, me deu mais vontade. O tempo que a gente passou isolado, distantes uns dos outros e tudo mais, me deu mais vontade de tocar, de estar na frente das pessoas, impactá-las de alguma forma, se é que é possível.
Rodrigo: Eu compactuo com o Lucas. Na minha cabeça, durante a pandemia, eu pensava que, se a gente saísse de tudo aquilo, não podia mais perder tempo, mais tempo que tinha perdido. Não podíamos mais ficar sem fazer show, sem fazer alguma coisa, sem mostrar nossa cara para quem pudesse ser. Ninguém sabe quando isso vai acontecer de novo, se vai acontecer de novo… Esperamos que não, claro, mas a qualquer momento a gente pode ficar refém dessa situação, com todo mundo dentro de casa e sem poder falar com seus amigos, sem poder compartilhar uma situação como essa aqui (o ensaio) e sem poder fazer um show.
– Leonardo Vinhas (@leovinhas) é produtor e autor do livro “O Evangelho Segundo Odair: Censura, Igreja e O Filho de José e Maria“.
Grandes figuras. Saudades da treta. Vamos que vamos galera. O bar do rato tá na esquina.