QOTSA: Josh Homme encara a própria mortalidade no filme “Alive in the Catacombs”

texto de Alexandre Lopes

Nos anos 2000, o Queens of the Stone Age era a encarnação da masculinidade do stoner rock moderno: riffs robóticos, postura sarcástica, sexy e levemente autoconsciente. O líder Josh Homme era o centro gravitacional disso tudo – um anti-herói ruivo, talentoso e imprevisível. Duas décadas e muitas turbulências depois, o filme-concerto “Alive in the Catacombs” (2025) apresenta o mesmo artista em um ambiente drasticamente diferente: as catacumbas úmidas e fúnebres de Paris. E mais do que isso, como alguém que não performa invulnerabilidade, mas sim um retrato de um frontman às voltas com sua própria mortalidade.

O filme foi lançado digitalmente no site da banda em 5 de junho, com o áudio disponível nos portais de streaming em 13 de junho (ouça o show na integra no final do texto), juntamente com uma edição limitada em vinil com apenas 5 mil cópias numeradas atualmente em pré-venda.

Mais que um show, “Alive in the Catacombs” é praticamente uma meditação sobre morte, memória e identidade de seu principal compositor. O QOTSA tentou tocar nesse espaço (que abriga os restos mortais de mais de seis milhões de pessoas) por mais de vinte anos, até finalmente obter permissão do governo francês. A espera resultou em um dos registros mais distintos de uma banda: um concerto subterrâneo gravado em julho de 2024 que transforma ossos, umidade e escuridão em um cenário melancolicamente bonito.

A atmosfera é solene: iluminação amarela, água pingando do teto, músicos de apoio se enfileirando em corredores lúgubres, enquanto Homme, Troy Van Leeuwen, Dean Fertita, Michael Shuman e Jon Theodore mostram arranjos semi acústicos e percussões pouco convencionais. O repertório deixa de lado hits como “No One Knows”, “Go With the Flow” e “Make it Wit Chu”, apostando nas faixas “Running Joke/Paper Machete”, “Kalopsia”, “Villains of Circumstance”, “Suture Up Your Future” e “I Never Came”, todas retrabalhadas com sonoridades mais taciturnas e dramáticas. E é realmente incrível que essa apresentação tenha sido captada de forma nítida e supostamente sem vários takes (como o material de divulgação afirma).

“Alive in the Catacombs” também é belíssimo visualmente. A direção de Thomas Rames e a fotografia de Théo Fauger (com o uso da ferramenta Stemirax, que permite sobreposições visuais em tempo real) criam um ambiente no qual os músicos parecem surgir como vultos e aparições. Segundo os próprios realizadores, a intenção era fazer das catacumbas a protagonista do filme. E Homme, que opta por apenas cantar (sem tocar instrumentos), está mais ‘Red Elvis’ do que nunca, entregando sua performance vocal mais emocional até hoje.

Mas tudo isso precisa de um contexto maior. Desde o episódio em que chutou uma fotógrafa no meio de um show em 2017, até as longas batalhas judiciais com sua ex-esposa Brody Dalle, que envolveram acusações mútuas de violência doméstica, dependência química e disputas pela guarda dos filhos, a imagem pública de Homme foi profundamente desgastada. Em 2022, veio o diagnóstico de câncer. Em 2023, a recuperação. Em 2024, no meio da turnê europeia da banda, ele precisou de uma nova cirurgia de emergência. E assim, “Alive in the Catacombs” foi gravado entre uma febre de quase 40° e uma consequente internação de seu obstinado idealizador. São eventos que, inevitavelmente, moldam a história e visão do filme – assim como a imagem do vocalista deitado em um altar de pedra, como se oferecesse seu corpo em um ritual de sacrifício.

Essa narrativa é reforçada pelo mini-documentário que o acompanha, “Alive in Paris and Before”, dirigido por Andreas Neumann. Nele, vemos sucessivos ensaios, interações com seus filhos, o cancelamento dos shows da turnê, Homme em estado físico debilitado insistindo em gravar nas catacumbas, pausas para repouso em uma maca entre os takes. É quase como se a mensagem a ser passada fosse: “este não é mais o roqueiro agressivo e descontrolado, é um homem doente e vulnerável tentando se reconectar com sua arte, paternidade e sua própria humanidade.

A imagem é forte, mas também pode ser devidamente calculada para causar empatia no público. Sim, existe algo bem sincero na entrega de Homme nesse filme. Mas há, também, uma construção cuidadosa do personagem. Mostrar sua fragilidade física, emocional e artística pode ser um gesto genuíno, mas deve também ser encarada como uma forma de reabilitação simbólica, tentando dobrar sua própria mitologia: se antes ele era o anti-herói autodestrutivo, agora é o mártir resiliente. Doente, mas comprometido. Ferido, mas verdadeiro. “Quando você está passando pelo inferno, continue indo”, como ele mesmo chega a sussurrar.

Entretanto, nada disso diminui a qualidade do filme. É justamente essa tensão entre sinceridade e construção que torna o projeto tão interessante, além de documentar com belas imagens uma performance musical inusitada e artisticamente ousada. Existe grandeza e melancolia nos arranjos, na direção de arte, na entrega vocal. Josh Homme canta como se estivesse se despedindo, pedindo perdão, ou apenas tentando seguir em frente – talvez tudo isso simultaneamente. De todo modo, vale ver e sentir suas próprias conclusões. Mesmo que com um certo grau de ceticismo.

– Alexandre Lopes (@ociocretino) é jornalista e assina o www.ociocretino.blogspot.com.br

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