Entrevista: Luis Henrique Pellanda fala sobre seu novo livro, “A crônica não mata: Notas do isolamento”

entrevista de Leonardo Vinhas

A crônica não mata. Mas a pandemia, o ódio político, a desumanização, o isolamento, a doença mental – todos esses matam. O cotidiano pode matar, mas também pode curar, reparar, alegrar, reviver. Uma biblioteca não mata: pode ser um sumidouro, mas também pode ser o único jardim que rega o próprio jardineiro. A literatura, se mata, o faz para deixar viver algo que pedia para (re)nascer, e que não conseguia porque havia alguma parte tumorosa vivendo por cima dela.

Elucubrações como essas são possíveis a partir de “A crônica não mata” (2025), livro mais recente do paranaense Luis Henrique Pellanda. Não apenas elucubrações: são temas que estão presentes na obra, que nasceu a partir de trechos escritos para a coluna que o autor manteve no Plural Curitiba durante a pandemia. Revistos, reorganizados, acrescidos de novos trechos, esses trechos se tornaram uma obra com vida própria nas páginas comercializadas pela Arquipélago Editorial.

Como “autor publicado”, Pellanda é um nome do século 21. Seu primeiro livro, “O macaco ornamental”, data de 2009. Depois vieram “Nós passaremos em branco” (2011), “Asa de sereia” (2013), “Detetive à deriva” (2016), “A fada sem cabeça” (2018), “Calma, estamos perdidos” (2019), “Na barriga do lobo” (2021) e “O caçador chegou tarde” (2022). Mas a crônica, todos sabemos (ou não?), é um dos gêneros mais emblemáticos da literatura brasileira – pelo menos, assim foi para quem chegou às Letras por Rubem Braga, Paulo Mendes Campos, Fernando Sabino, Luis Fernando Veríssimo, Ignácio de Loyola Brandão, ou mesmo nomes mais contemporâneos, como Jamil Snege, Fabricio Carpinejar, Eliane Brum, Claudia Laitano, Martha Medeiros e tantos outros.

Para os que não têm o salutar hábito de acompanhar diariamente o Scream & Yell, cabe avisar que Luis Henrique Pellanda é, também, músico. Foi vocalista da banda cult curitibana Woyzeck, passou pelo breve combo sambista Gente Boa de Melhor Qualidade, e agora é um dos vértices do Smoko, projeto que criou em conjunto com os músicos e compositores Caio Marques e Rodrigo Stradiotto, e que já tem dois álbuns lançados pelo selo Scream & Yell.

Para que serve a crônica, em tempos de “opiniões formadas sobre tudo”? Aliás, ela precisa servir para alguma coisa? O que tem a ver remexer nas feridas da pandemia nesse 2025 já cheio de dores? E o que as redes sociais têm (ou não) a ver com tudo isso? Perguntas que orientaram outras perguntas – as que foram feitas ao autor nessa entrevista, realizada por e-mail, e que você pode ler em sua versão não editada a seguir.

As crônicas deste livro nasceram de seu trabalho como colunista no Plural, mas também como estratégia de sobrevivência aos rigores pandêmicos. Passados três anos do período mais denso, você diria que a obra cumpriu seu propósito? Ou, em palavras mais diretas, quão bem você sobreviveu?
Acho que sobrevivi bem. Porque, claro, muitos não sobreviveram, e outros tantos sobreviventes perderam não só a saúde, mas também empregos, parentes, amigos, dinheiro, futuro, esperança. Eu sigo na pista, e sou grato por isso. Tive meus problemas, que não foram poucos, mas permaneci protegido por aquele velho pacote de privilégios da classe média que tão bem conhecemos e que mal fizemos por merecer. Quanto à obra, se cumpriu ou não o seu propósito, preciso pensar nela dividida em duas fases distintas: a do jornal e a do livro. Quando publiquei estes textos no jornal, eles cumpriram seu papel. Eu tinha uma coluna a preencher e um leitorado que a acompanhava. Escrever as crônicas era uma obrigação, mas publicá-las em livro não era. E eu mesmo não estava certo de que esse material realmente tivesse “corpo” para se tornar um livro. Só fui convencido disso pelo meu editor, Tito Montenegro, da Arquipélago, que viu algum valor literário nesse punhado de notas que rascunhei no isolamento, na posição de flâneur privado da vida nas ruas. Mas admito que gosto do livro, e espero que ele cumpra o propósito primordial dos livros, que é o de encontrar leitores. Um livro só existe quando é lido.

A pandemia é bastante recente, mas não vejo tantos livros, filmes ou canções sobre o tema como eu inicialmente imaginei que haveria. Que ela foi um trauma coletivo e mundial, não resta dúvida. Mas a arte não tem revisitado/repensado muito esse período. A que você atribui isso – caso seja essa sua percepção? Queremos tanto deixar esses anos pesados para trás que preferimos não falar a respeito?
Ainda não se passou tempo o bastante para que todos possam processar tudo que aconteceu. Não a ponto de que possam fabular a respeito, transformar todo aquele chumbo em uns poucos gramas de ouro. As primeiras obras mais apuradas sobre a pandemia começam a surgir agora. Para a literatura, assim como para o cinema, e para tantas outras artes, é necessário esse prazo maior de maturação e produção. É preciso que pensemos e repensemos o mundo, primeiro a quente e depois a frio. É preciso deixar a emoção se arrefecer, esperar que o ódio perca a sua função paralisante, para só então revisitarmos nossas ideias e experiências sem tanta interferência do real. A literatura simula o real, discute o real, mas ao mesmo tempo precisa afastar-se dele, encontrar seu lugar de representação. A pandemia, somada à situação política de então, nos intoxicou de realidade, e escrever demanda certa desintoxicação. Mas, sim, é verdade que muita gente ainda não quer ou não consegue falar sobre a Covid, ou prefere não pensar sobre o que a pandemia significou para a saúde mental e o amor próprio da humanidade como espécie. Para quem escreve profissionalmente, no entanto, deixar de pensar não é uma opção. Temos que nos manter à tona, e só se pode fazer isso trabalhando.

Para transformar as crônicas em um livro, foi preciso fazer uma edição, ou é apenas minha memória me traindo? Porque a edição final parece ter suprimido algumas crônicas publicadas na época e também rearranjado os textos em outra cronologia.
Sim, entre o conjunto de textos que publiquei no jornal e o que publiquei no livro, posteriormente, há várias diferenças. Em parte por conta daquele processo de distanciamento de que falei mais acima. Anos depois de escrever essas notas, percebi, ao revisitá-las, que algumas delas não sobreviveram ao período pandêmico. Só funcionavam quando lidas no calor opressivo daqueles dias. Fora daquele ambiente de medo e incerteza, perdiam força e sentido. Outras, escritas às pressas, por um cronista insuflado pelo ódio e pela frustração, tornavam-se quase ingênuas, tolas até, quando lidas em momentos de maior serenidade. Portanto, cortei boa parte delas, acrescentei ao combo restante algumas outras, rascunhadas e não aproveitadas na época, e as recosturei a um tecido novo, pretendendo emprestar à peça uma unidade maior, mais coesa, e que se parecesse, de algum modo, à reunião dos fragmentos de uma única e longa crônica. Uma crônica intermitente, feita de 130 cacos, e que, com o seu fracionamento, emulasse a perda da harmonia e do fluxo de nossa própria vida social. A edição serve para isso.

O espaço primordial da crônica era o jornal impresso. Ela ainda teve um certo protagonismo no começo dos portais, mas hoje a linguagem das redes sociais e nossa indisposição ao texto mais literário parecem ter escanteado a crônica até mesmo para os apreciadores da literatura. O gênero está mesmo em um período descendente?
Acho que há outra maneira de encararmos essa questão. A crônica literária enfrenta, sim, uma crise, que vem se aprofundando desde que as disputas ideológicas tomaram conta do Brasil, via redes sociais, nos sequestrando a atenção e boa parte de nosso interesse pela vida comum. Com ela, muitos dos leitores de crônicas passaram a preferir artigos que discorressem diretamente sobre política e, de preferência, confirmassem seu modo de interpretar a sociedade. Passamos a carecer de confirmação, validação, certeza, aliados — coisas que a literatura não é capaz de nos fornecer, ao menos objetivamente. E essa carência, claro, é compreensível. Por outro lado, é preciso que se diga: nunca tanta gente escreveu e publicou crônicas no Brasil como agora. E também nunca houve tanta diversidade entre os cronistas, ou tanta facilidade de acesso à leitura de livros (embora, desde 2015, estejamos novamente perdendo leitores). Nas escolas, porém, a crônica continua sendo lida. Livros de crônicas continuam a ser compilados, publicados e vendidos. Só acho que não existem mais unanimidades como as que tivemos tempos atrás. O conjunto dos leitores de Rubem Braga, Drummond ou Fernando Sabino, no século passado, era homogêneo. O leitor de revistas e de jornais do século 20 pertencia a um determinado tipo de elite, bastante exclusivista. Hoje, há cronistas para vários públicos, e há mais conflito. Mesmo porque há muito mais disputas, também ideológicas, no interior do próprio campo literário.

De Rubem Braga a Luis Fernando Veríssimo, sempre tivemos a crônica para nos ajudar a por em ordem nossos sentimentos e os acontecimentos mundanos. Às vezes, até para bagunçá-los. Com a crônica em queda, que estilo desempenha esse papel? Ou simplesmente não temos um substituto à altura?
Nesse sentido, no que se refere ao seu “desempenho” perante os leitores, não creio que a crônica esteja em queda, ou mesmo em risco. Também não sei se ela algum dia realmente nos ajudou a ordenar nossos sentimentos. Pode ser que sim, não tenho certeza. Mas sei que é difícil estabelecer uma função única para a crônica, assim como é difícil estabelecer uma função para a literatura ou para a arte em geral. Cada artista, cada escritor, cada cronista terá seu objetivo, seu projeto, seu plano intransferível. Assim como cada leitor, ao ler o que escolhe ler, o faz a partir de suas referências pessoais, de suas necessidades mais íntimas, talvez até inconscientes. Tenho os meus leitores, ainda bem, e eles conversam comigo nos eventos de que participo, e escrevem para mim nas redes sociais, e me cobram pelo que pensam desvendar no meu texto, por coisas que conto ou deixo de contar, e isso, essa participação, me dá a temperatura do meu leitorado. Ela é sempre variável. Esquenta, esfria, esquenta, esfria. Outros cronistas têm também os seus leitores, em maior ou menor número, e que às vezes coincidem com os meus, às vezes diferem dos meus, às vezes se opõem aos meus. Cada um vai à crônica com uma sede particular, não raro insaciável. Não fosse assim, escreveríamos apenas uma crônica e estaríamos conversados. Um livro e bastaria. Uma canção daria conta de todas as nossas dores.

Você se ausentou totalmente das redes sociais durante a pandemia, e só voltou a elas para divulgar o livro. Como foi esse período afastado? Criativamente, ficar longe das redes te ajudou ou dificultou, já que o cronista se ocupa da realidade e, gostemos ou não, isso é parte da realidade hoje?
Me ausentei das redes depois da pandemia. Tirei um ano sabático, digamos assim. Foi um período muito bom, é o mínimo que posso dizer. Ganhei tempo. Ganhei saúde. Dormi melhor. Percebi o quanto as redes não me fazem qualquer falta, pelo contrário, e só voltei a elas porque o trabalho me obrigou a voltar. Fora isso, não vejo por que estar conectado a elas. A verdade é que não acho que as redes se ocupem da realidade. Acho que elas, assim como faz a literatura, criam um simulacro de realidade, com a diferença fundamental de que as redes são predatórias por definição, e pretendem que o simulacro que criaram substitua o modelo original. O que as redes buscam, em última instância, é a própria destruição da realidade, da vida presencial, do bom relacionamento entre a humanidade e o mundo natural que a cerca, a demolição da ponte multimilenar entre a humanidade e sua própria cultura. O papel do artista deveria ser o de opor-se fundamentalmente a essa destruição.

Na entrevista sobre o primeiro disco do Smoko, você disse que as letras em inglês entram como uma brincadeira, um espaço de relaxamento no meio da seriedade do trabalho como escritor. Não existe, na sua crônica, espaço para essa brincadeira? Ela é sempre autoconsciente a ponto de impedir o brincar?
A seriedade de que falo em relação à escrita é algo profissional. Quando escrevo, levo meu trabalho bastante a sério. Busco fazer o melhor possível, pois desse melhor tiro também o meu ganha-pão. A linguagem e o cotidiano são a minha matéria-prima. Depois de um tempo trabalhando como escritor, passei a pensar em ambas as coisas, tanto na vida como na palavra, de uma forma quase que estritamente profissional. Não é algo desejável, é um problema. Mas acontece. E por isso também brinco. Seriedade e brincadeira não são coisas excludentes. Escrever me alegra. E há muita felicidade nisso de fazermos exatamente aquilo com que sonhavámos quando éramos crianças. Quanto à música, com ela, a história é outra. Profissionalmente falando. Ela tem um caráter menos racional, mais intuitivo, e que procurei resgatar quando voltei a compor com meus amigos e parceiros de longa data, Caio Marques e Rodrigo Stradiotto. Escrevendo em inglês pude me ater a um tipo bem mais básico, para não dizer primitivo, de comunicação. E sem cobranças profissionais. Era algo de que precisava, escrever como um neófito. Lembro também que já compus muito em português, inclusive recentemente. Mas, cantando em inglês, também brinco de dizer o que quero com o mínimo de recursos disponíveis. Brinco com a própria afetação da voz que o canto representa, brinco e me divirto com o casamento entre minha voz e a voz dos instrumentos, com o trabalho em equipe, a criação coletiva, as ideias de comunidade, de rito, de impulso, de desapego. Coisas de que um escritor, tão concentrado, tão afeito à solidão luminosa da tela em branco, não deve jamais abrir mão.

– Leonardo Vinhas (@leovinhas) é produtor e autor do livro “O Evangelho Segundo Odair: Censura, Igreja e O Filho de José e Maria“. 

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