texto de Renan Guerra
É impossível falar sobre o cinema hollywoodiano dos últimos 50 anos sem pensar na música de John Williams. O trabalho do compositor e maestro está presente em alguns dos momentos mais significativos da história do cinema: você pode desconhecer seu nome, mas basta ouvir alguns acordes de suas composições para que você se arrepie e que memórias sejam despertadas. Pode ser a tensão criada em mínimos acordes na trilha de “Tubarão” (Steven Spielberg, 1975); o exagero deslumbrante do tema de “Star Wars” (George Lucas, 1977), que explode com o deslizar dos clássicos letreiros; ou ainda a magia orquestrada na cena do voo da bicicleta frente à lua em “E.T. – O Extraterrestre” (Steven Spielberg, 1982).
Poderíamos ficar aqui listando coisas por horas: os sons deslumbrantes de “Jurassic Park” (Steven Spielberg, 1993), a magia natalina de “Esqueceram de Mim” (Chris Columbus, 1990), ou ainda a dor e a desesperança transmitida pelo violino de “A Lista de Schindler” (Steven Spielberg, 1993). São mais de 120 trilhas sonoras assinadas por John Williams no cinema, isso sem falarmos em séries e programas de TV, seus créditos como pianista e seus trabalhos autorais como compositor.
“Music By John Williams” (2024), de Laurent Bouzereau, busca dar conta da história e do legado do compositor em um documentário bastante formal e que segue a tradição norte-americana, ou seja, nada de invencionices: é entrevista, acervo e imagens de apoio. Esse formato tradicional às vezes pode aprisionar um documentário, mas, no caso de John Williams, essa quase “caretice” funciona para colocar todo o destaque no trabalho do artista. Com poucos detalhes sobre a vida íntima de Williams, Bouzereau foca sua lente na forma de produção e no cotidiano criativo do compositor.
Escrevendo suas partituras à mão e centrado em um trabalho solitário, Williams é metódico e encontra em suas composições um escape importante de sua vida. E quem ganha com isso é o público. O artista entende como poucos a importância da música na narrativa e sabe intensificar emoções na tela na mesma medida em que entende os momentos em que a história pede o silêncio; seu entendimento do cinema pop é genial na mesma medida em que ele sabe navegar pelas narrativas tidas como mais sérias (e sisudas). O mesmo homem que traz uma intensidade bem-humorada à saga de Indiana Jones pode ser o maestro das politizadas criações de Oliver Stone em “Nascido em 4 de julho” (1989) e “JFK” (1991).
A narrativa de Bouzereau consegue extrair relatos importantes do biografafo, em uma série de entrevistas que mostram seu bom humor e sua leveza ao lado de seus parceiros centrais. Sua alegria ao falar de sua parceria com George Lucas na interminável saga de “Star Wars” é a mesma que seu encanto ao falar de sua troca com nomes importantes da música clássica contemporânea. Destaca-se sua amizade (podemos até chamar de irmandade) com Steven Spielberg, seu principal parceiro – apenas cinco filmes do diretor não contam com trilhas assinadas por Williams. Há um respeito mútuo entre os dois e um carinho absoluto, uma sinergia que resultou em alguns dos momentos mais importantes do cinema nos últimos 50 anos – especialmente do que podemos chamar de cinema pop. Clássicos como “Tubarão”, “E.T.”, “Contatos Imediatos do Terceiro Grau” (1977), “Jurassic Park” e a saga de Indiana Jones são marcantes especialmente pelo encontro das imagens e narrativas de Spielberg com os sons de Williams, que entende o diálogo rítmico entre cada detalhe das cenas com sua trilha.
Para que se entenda a importância de Williams, o filme se utiliza de algo extremamente simples, mas muito eficaz: ele nos apresenta momentos icônicos de filmes clássicos simplesmente sem a trilha, para logo em sequência nos apresentar o absurdo que é a construção sonora de Williams. E pra reforçar isso, vale dizer que conferimos o filme no CineSesc, talvez a melhor sala de cinema de São Paulo, com seu som de qualidade absurda, por isso essa crítica pode ser um pouco enviesada: é impossível ficar impassível perante a experiência de ouvir a trilha de “E.T.” em som surround ou mesmo ver as filmagens da Orquestra Sinfônica de Londres tocando o tema de “Star Wars” em alta qualidade de imagem e som.
Aliás, isso é repetido pelos entrevistados no filme e é fato: as trilhas de John Williams remexem nas memórias de todo mundo que em algum momento vivenciou de forma completa a experiência do cinema. Seus sons orquestrais dialogam com nossas experiências formativas e aí pode ser “E.T.”, “Indiana Jones”, “Esqueceram de Mim” ou mesmo os três primeiros filmes da saga Harry Potter – o compositor criou a peça “Hedwig’s Theme”, tema central do filme e que se tornou uma marca da série de filmes.
Com sua formatação simples, “Music By John Williams” consegue ser eficaz e bem amarrado. Laurent Bouzereau dá conta de celebrar o legado pop do compositor ao mesmo tempo em que reforça sua criatividade e inventividade em diferentes campos da música. No final das contas temos um filme que celebra todas as possibilidades emocionais que a arte pode nos transmitir, relembrando como a música e o cinema podem ser catárticos.
– Renan Guerra é jornalista e escreve para o Scream & Yell desde 2014. Faz parte do Podcast Vamos Falar Sobre Música e colabora com o Monkeybuzz e a Revista Balaclava.
