texto de introdução de Marcelo Costa
faixa a faixa de Joyce Moreno
Três anos após “Brasileiras Canções”, seu então último álbum de inéditas, e “Natureza”, um disco perdido com sete faixas gravadas em 1977, em Nova York, com Maurício Maestro e músicos brasileiros e norte-americanos, e lançado oficialmente em 2022, Joyce Moreno está de volta com seu 44º álbum, “O Mar é Mulher”, um lançamento da Biscoito Fino.
No novo trabalho, Joyce apresenta 10 canções novíssimas, compostas de 2023 pra cá. “Metade dessas novas canções são somente minhas, outras têm parceiros”, revela a compositora, que em “O Mar é Mulher” colabora com Paulo César Pinheiro, João Donato, Donatinho, Zé Renato, Ronaldo Bastos e Jards Macalé, amigo de adolescência que participa de “Um abraço do João”.
“O Mar é Mulher” tem direção musical da própria Joyce, que assina os arranjos de base e assume o violão enquanto o marido, Tutty Moreno, é responsável pela bateria e percussão do disco, que ainda traz nomes como Rodolfo Stroeter e Jorge Helder (baixo), Helio Alves e Marcos Nimrichter (piano) mais Teco Cardoso (flauta), Rafael Rocha (trombone), Jessé Sadoc (trompete) e Marcelo Martins (sax).
“Acabou virando um álbum profundamente feminino, que dialoga muito com meu disco ‘Feminina’, de 1980, que também era todo de canções feitas a partir do ponto de vista da mulher – só que na minha visão de hoje, 45 anos depois. E assim as canções foram se encadeando”, comenta Joyce, que, abaixo, fala um pouco mais sobre cada uma das 10 faixas de “O Mar é Mulher”.
01) “O Mar é Mulher” – A faixa-título foi o ponto de partida pra que começássemos a fazer esse álbum. Foi a primeira canção que compus no ano passado, nos primeiros dias de janeiro, a partir da descoberta de que “mar” é uma palavra feminina em diversos idiomas. Isso pra mim fez um sentido lindíssimo, a feminilidade das águas, que aparece inclusive nas mitologias afro-brasileiras, onde Oxum e Yemanjá, águas doce e salgada, se encontram sempre em algum ponto… Enfim, eu estava fora do Rio, sem instrumento à mão, e cantei essa canção à capella num pequeno vídeo que postei. Esse vídeo gerou muitos comentários, milhares de likes, aquela coisa toda de rede social, e eu imediatamente pensei: preciso gravar essa canção imediatamente. Convidei Mario Adnet para escrever um arranjo de cordas, que representasse exatamente esse lindo movimento das águas, e assim foi.
02) “Um abraço do João” – Essa parceria minha com Jards Macalé, meu amigo de quase adolescência, tem uma história legal e interessante, que ele vai saber contar melhor do que eu, mas vou tentar: quando o João Gilberto partiu deste plano, Jards, em plena pandemia, encontrou numa gaveta o telefone secreto do João. Ligou, atendeu uma secretária eletrônica, e ele deixou um longo recado, terminando com “João um abraço pra você, qualquer coisa me liga”. E dias depois ele compôs este choro-canção, bem no estilo joãogilbertiano de “Um abraço no Bonfá”. A sensação era que o abraço vinha do João pra nós (porque a essa altura eu já estava no meio da história, Macalé tendo me pedido pra escrever essa letra). Ele gravou no álbum que fez com João Donato, mas eu queria muito gravar também, e com a voz dele ao meu lado, cantando comigo. O detalhe é que gravamos, sem saber, no dia que era exatamente o aniversário de João Gilberto, 10 de junho…Tudo que envolve João Gilberto tem esses mistérios…
03) “Canção de Búzios” – É um poema de Ronaldo Bastos escrito ainda nos anos 70, poema pelo qual me apaixonei completamente assim que li, e desejei musicar desde sempre – mas não fiz, pois havia uma lenda de que seria musicado pelo Milton. Isso não aconteceu, e o poema ficou ali, solteiro, abandonado, esperando por mim… Acabou que musiquei e gravei agora, com a percussão do Tutty Moreno criando todos os sons maravilhosos de uma praia deserta.
04) “Adeus, Amélia” – É um samba-jazz, uma brincadeira com aquela famosa figura que Mario Lago e Ataulfo Alves popularizaram no seu samba “Que Saudades da Amélia” – símbolo da mulher que aceita tudo, submissa e tal. Então a ideia era exatamente desconstruir esse mito, dizer ao homem “estou aqui pra você, mas não como Amélia”… E, por último, mas não menos importante, ela pode até ter outros pretendentes, mas não quer outro homem – e ele que lute pra segurar a barra dessa mulher que não vai ser “Amélia”… Rafael Rocha escreveu um super arranjo de sopros, formando uma “mini big band”, bem “gafieira moderna”, suingada, dançante.
05) “Novelo” – É uma parceria com Paulo César Pinheiro, uma canção de amor bastante sensual, cantada na perspectiva da mulher apaixonada, sedutora.
06) “Imperador” – Parceria minha com João Donato e Donatinho, “Imperador” nasceu a partir do título: Imperador é o sobrenome da namorada do Donatinho, a quem ele queria homenagear. Achei que era um bom ponto aí para homenagear todas as mulheres, que são, não imperatrizes, mas “imperadoras”, ou imperadores do seu próprio império…
07) “Os ventos”- É uma canção que fiz dedicada a uma amiga muito querida, que estava vivendo um momento muito duro, de muito sofrimento. E foi um pouco pra dizer a ela que os ventos ventam na vida, e muitas vezes mudam tudo. É pra não ter medo desses ventos quando eles chegam…Teco Cardoso trouxe lindamente na flauta o som desses ventos.
08) “Tudo em casa” – É um tema instrumental, coisa que todos os meus álbuns sempre têm. E foi tudo em casa mesmo, gravado com o quarteto de fé que me acompanha pelo mundo (eu, Tutty Moreno, Rodolfo Stroeter e Hélio Alves), e no estúdio que é a nossa casa no Rio de Janeiro, o estúdio da Biscoito Fino.
09) “Comigo” – É uma canção bem bossa nova, fala de uma autossuficiência feminina, em todos os momentos: na carência, na solidão, nas decisões da vida. O tema assustou algumas pessoas quando mostrei, mas é uma fala muito verdadeira, que as mulheres de hoje não temem mais expressar.
10) “Desarmonia” – É uma parceria minha com o Zé Renato, ele já havia gravado anteriormente num álbum dele, e eu sempre tive muita vontade de cantar essa canção assim despojada, bem simples, somente com violão e um leve tamborim por trás. Uma canção que fala de todas as promessas, às vezes enganosas, que as canções nos fazem – porque a MPB, como sabemos, tem resposta pra tudo…

– Marcelo Costa (@screamyell) é editor do Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne.
Caramba. 44 discos. Não me tocava que ela tinha essa discografia toda.