Ao vivo: Em São Paulo, Buzzcocks mantém energia punk com clássicos e meleca no nariz

texto de Alexandre Lopes

Com mais de 45 anos de estrada, os Buzzcocks voltaram ao Brasil em 2025 com o que restou de sua formação clássica: Steve Diggle, guitarrista e agora vocalista principal desde a morte do grande Pete Shelley, em 2018. O que se viu no Carioca Club no sábado, 24/05, enquanto C6 Fest e Virada Cultural movimentavam a cidade, foi uma celebração ao legado punk britânico – por mais contraditório que isso possa ser para um som que historicamente desafiava padrões e proibições do establishment.

Quem abriu a noite foi a paulistana Sweet Suburbia, às 18h. Com forte influência das primeiras ondas do punk, o grupo existe desde 2003 e possui na bagagem três EPs e o disco cheio “Paranoia Day by Day” (2008), todos com faixas cantadas em inglês. Apesar do tempo de estrada, a banda não faz shows com frequência, algo que ficou perceptível na apresentação – descontando que os músicos também sofreram o revés técnico de microfonias nas primeiras músicas, atrapalhando a performance que já era um pouco travada e hesitante. Foi um set enxuto de cerca de meia hora e nove músicas.

Na sequência, às 18h47, foi a vez d’Os Excluídos, banda veterana do underground paulistano, na estrada desde 1998. O grupo iniciou os trabalhos dedicando “É Por Isso Que o Punk Não Morre” a Steve Diggle. Entre letras em português e guitarras afiadas, o quarteto é um exemplo de como o punk se adaptou ao contexto brasileiro ao longo das décadas, ganhando camadas sociais e linguísticas que extrapolam a imitação de moldes estrangeiros. Os Excluídos apresentou um repertório conciso e competente, emendando uma composição após a outra e refrões que não desperdiçavam energia. Durante a terceira composição, um breve susto com uma queda de pressão de alguém na frente do palco interrompeu momentaneamente o set, mas tudo seguiu sem problemas até o encerramento, às 19h13.

Às 19h33, quando as cortinas se reabriram e o telão revelou o logo dos Buzzcocks, o Carioca Club já estava devidamente cheio para receber a atração principal. Uma intro kitsch de “Also Sprach Zarathustra” (eternizada como um dos temas de “2001: Uma Odisseia no Espaço”, de Stanley Kubrick) conferia um certo humor à coisa toda. Os membros da banda surgiram no palco – com direito a uma bandeira do Brasil cobrindo um dos amplificadores – e começaram a tocar. Animado, Steve Diggle apareceu tocando uma pandeirola com um sorrisão no rosto, arrancando muitos aplausos antes mesmo de emitir a primeira nota em sua guitarra.

Sem perder tempo, o grupo iniciou com a explosiva “What Do I Get”, clássico absoluto da primeira fase da banda, e seguiu com “Harmony in My Head”, cantada em coro pelos fãs. A conexão com o público foi instantânea, com Diggle pedindo palmas e descendo até a beirada do palco para interagir com a galera. Hoje com 70 anos, Diggle é uma figura paradoxal: franzino, quase frágil, mas ainda capaz de comandar um espetáculo como se tivesse uns 30. Seu sotaque de Manchester e o microfone mal regulado dificultaram a comunicação nas falas com o público, mas o entendimento das palavras não fez muita falta. Quando pedia palmas para acompanhar o ritmo da bateria, os fãs obedeciam sem pensar duas vezes.

Empunhando sua guitarra Telecaster, Diggle conduziu mais clássicos como “I Don’t Mind” e “Everybody’s Happy Nowadays” com entusiasmo, mesmo sem conseguir replicar os falsetes de Pete Shelley no refrão. Nada disso importava para o público, que preenchia os vocais com paixão enquanto os hits vinham em sequência, com direito a crowd surfing de um fã.

A banda que cerca Diggle – um trio de músicos visivelmente mais novos que ele – segura o tranco com muita decência. Chris Remington no baixo, Mani Perazzoli na guitarra e Danny Farrant na bateria tocam com garra e firmeza na estruturação do groove, principalmente nos momentos de flerte com a psicodelia pop de “Bad Dreams”. E ali isso significou muito para os espectadores, que se dividiam entre punks de moicano, moças de indumentária meio gótica, caras com pecha de intelectuais com camisetas dos Wipers, fãs de Ramones, e até um sujeito com a frase “cerveja, jiu jitsu e pancadaria” estampada nas costas como se fosse seu lema de vida.

“Why Can’t I Touch It?”, “Fast Cars”, “Senses Out of Control” — pancada atrás de pancada, o set foi um desfile de clássicos, com pitadas do disco mais recente, “Sonics in the Soul” (2022). Em “Manchester Rain”, Diggle soou quase poético, até sair do palco com um teatrinho de falsa despedida para o bis já aguardado. Ele voltou minutos depois, com a cereja do bolo: vestido uma camiseta do Santos Futebol Clube de 1998, violão nas mãos e a balada “Love Is Lies” (a primeira balada acústica da história dos Buzzcocks) na manga. Uma imagem meio improvável, mas real.

Depois disso, vieram “Promises”, “Why She’s a Girl From the Chainstore”, “Just Got to Let It Go”, “Boredom” e “Chasing Rainbows”, esta última com Diggle puxando um “olê, olê, olê, São Paulo!” que deixou o público confuso entre responder com o nome da cidade, da banda, ou o de algum time de futebol. A massa não se entendeu muito, mas o espírito da interação estava ali. A banda encerrou seu set com “Ever Fallen in Love (With Someone You Shouldn’t’ve)”, – o hino definitivo dos corações punk apaixonados e confusos – e Diggle puxou mais uma tentativa de “olê, olê, olê”, desta vez com a plateia respondendo com “Buzzcocks! Buzzcocks!” com convicção.

O show entregou o que prometia: uma noite para quem queria ver ao vivo o resquício de um dos pilares do punk britânico. E, se é verdade que Diggle passou boa parte do show com uma meleca pendurada no nariz (como relatou uma testemunha próxima do palco), talvez isso explique mais sobre a autenticidade da coisa toda do que qualquer review técnico. Afinal, se isso não é punk, o que é?

Setlist:

What Do I Get?
Harmony in My Head
I Don’t Mind
Everybody’s Happy Nowadays
Senses Out of Control
Fast Cars
Sick City Sometimes
Isolation
Autonomy
Bad Dreams
Why Can’t I Touch It?
Destination Zero
Love You More
Orgasm Addict
Manchester Rain

Bis:
Love Is Lies
Promises
Why She’s a Girl From the Chainstore
Just Got to Let It Go
Boredom
Chasing Rainbows
Ever Fallen in Love (With Someone You Shouldn’t’ve)

– Alexandre Lopes (@ociocretino) é jornalista e assina o www.ociocretino.blogspot.com.br

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