Três shows (ou mais): CIRCUITO Nova Música, Papangu, Pullovers

texto por Marcelo Costa
fotos por Douglas Mosh
vídeos de Bruno Capelas

CIRCUITO – Nova Música, Novos Caminhos: Supervão, Batata Boy, Madre e Natália Lebeis no Bar Alto (23/1)
Uma das boas notícias indies do começo de 2025, o CIRCUITO – Nova Música, Novos Caminhos, projeto da Vegas Cultural com curadoria musical do jornalista Lúcio Ribeiro, promoveu quatro dias seguidos de shows em quatro cidades diferentes do estado de São Paulo com três artistas fixos e mais um convidado em cada praça (a saber: São Paulo, Sorocaba, Araçatuba e Campinas). Projeto que deve ganhar novas edições (Quer inscrever sua banda? Chega aqui) ao longo do ano, o CIRCUITO abriu os trabalhos na capital paulista com a jovem Natália Lebeis, que já havia comentado seu disco faixa a faixa aqui no Scream & Yell, e começou seu set quase pontualmente às 19h05, o que dificultou a presença deste que vos escreve, mas Renan Guerra estava lá e conta: “Ela fez versões diferentes do disco numa apresentação bem experimental, aproveitando seus 20 minutos de set pra brincar nos sons. Foi um show só com bases eletrônicas, testando outro universo de suas músicas”. Na sequência, Luiza Pereira trouxe seu novo projeto musical, a Madre (que o Bruno Capelas já visto um tempo antes e contado aqui), explorando uma sonoridade pesada e densa, com guitarras ásperas (o melhor som de guitarra da noite no local que, aliás, teria Papangu na sequência) e certa insegurança, que não atrapalhou o bom show, mas demonstra que o quarteto precisa de tempo de palco para se soltar mais (e o som crescer). Com sets curtos de, em média, meia hora (uma boa sacada da curadoria), a CIRCUITO seguiu com Batata Boy, nome de destaque da cena trap nacional (boa sacada também a variedade de estilos da noite), mas o show só engatou mesmo quando o rapaz convidou Luiza de Alexandre ao palco, que encorpou os vocais. Para fechar a noite, a banda que fez o disco favorito de Lucio Ribeiro em 2024 (confira os votos dele no Melhores do Ano Scream & Yell): Supervão. Alguns dos presentes ainda conectavam o quarteto gaúcho com seus primeiros trabalhos, eletrônicos, mas “Amores e Vícios da Geração Nostalgia (AVGN)” é puro rock and roll, e o show foi uma zoeira absolutamente deliciosa. É sempre bom ver uma banda desencanada, divertindo e se divertindo no palco. Um fechamento impecável para essa primeira CIRCUITO. Que venham outras!


Papangu no Bar Alto (23/1) e no La Iglesia (6/2)
Abrigada no cada vez mais amplo gueto “metal”, um “gênero” que por si só assusta a muitos antes mesmo de um play no som, a Papangu vai muito além do que os termos “hermetocore” e “rock troncho” possam encapsular. Isso ficou ainda mais explicito em dois (de três) shows que a banda paraibana fez na capital paulista enquanto se movimentava com a turnê Engaiolada, passando por 10 estados com 16 shows em menos de um mês. A noite de abertura da turnê, no Bar Alto, foi praticamente um ensaio de luxo, com o quarteto aquecendo as turbinas de maneira descontraída. Devidamente “acomodados” no pequeno palco da casa, Rodolfo Salgueiro (teclados), Marcos Mayer (guitarra), Vitor Alves (bateria) e Pedro Francisco (baixo) receberam a presença de Raí Accioly nos vocais guturais, e ainda que o amontoado do lugar (que, em noites lotadas como essa, dificulta a visão – e a curtição – para quem está além da quarta fila) tenha jogado contra, a banda alternou com esmero canções de seus dois álbuns (“Holoceno” e “Lampião Rei”) por quase duas horas entre improvisos, jams, trechos de forrós (e citação cômica de “A Francesa”, de Marina Lima) além de recriações matadoras de seu repertório. Se tem um momento musical que soa imperdível para 2025 é assistir “Oferenda do Alguidar” ao vivo: enquanto Vitor massacra dois bumbos, Marco e Rodolfo cantam o refrão como se estivessem no meio do sertão, algo que faria Lampião e Maria Bonita sorrirem. Se o show no Bar Alto foi desencanado, a entrega no La Iglesia foi impecável. Já calejada da estrada, e com Raí tocando guitarra em várias canções (além dos tradicionais vocais guturais), a Papangu fez outro show extenso, próximo das duas horas, não abandonou as jams (numa delas, inclusive, chamou ao palco Benoit Crauste, saxofonista que, junto de Pedro, integra a Itiberê Orquestra Família da França, para um momento jazzy em “Sol Raiar” e “Ruínas”), e soou ainda mais pesada e brejeira, adjetivos que parecem não combinar, mas que soam quilômetros à frente do que o Sepultura estava fazendo no século passado com “Roots” (o que os aproxima, inclusive, de Sarine, que abriu a noite, e do show conjunto Test/DeafKids). “Oferenda do Alguidar” foi, novamente, o ponto alto, dividindo as honrarias com as execuções impecáveis de “Maracutaia” e “São Francisco”. 2025 já tem um show obrigatório! Dê um jeito de vê-los!


Pullovers no Centro Cultural São Paulo (1/2)
“Pode não parecer, mas a gente é uma banda antiga”, confidenciou o vocalista Luiz Venâncio no meio do show do Pullovers, na Sala Adoniran Barbosa, um dos espaços míticos da capital paulista. “A gente ficou parado 15 anos até lançar disco novo no ano passado”, completou. Quem na plateia ficou surpreso iria se surpreender ainda mais se soubesse que a banda foi formada em 1999, lançou três discos cantados em inglês, mudou de formação e debutou em português com o sublime “Tudo o Que Eu Sempre Sonhei”, em 2009, um disco que teve música em novela da Globo – “O amor verdadeiro não tem vista para o mar” entrou na trilha sonora de “Além do Horizonte” – quando a banda já tinha encerrado as atividades e Venâncio, único membro da formação original, já estava em outra. A coisa toda poderia ter terminado aí se a geração TikTok não tivesse descoberto a beleza de “Tudo o Que Eu Sempre Sonhei”, a canção, e a viralizado na rede (já são mais de 9 milhões de plays no Spotify), o que impulsionou a banda a se reunir. 2023 marcou a volta da última formação do Pullovers aos palcos, inclusive com canções novas, e “Vida vale a pena?”, o novo disco, surgiu em 2024 (marcando presença na lista de melhores discos do ano da APCA). Neste show de lançamento de “Vida vale a pena?”, a banda – Luiz Venâncio (compositor, guitarrista e vocalista), Rodrigo Lorenzetti (tecladista), Habacuque Lima (guitarrista e produtor), Bruno Serroni (baixista e violoncelista), Angelo Lorenzetti (violonista) e Paulo Chapolin Rocha (baterista) mais a participação especial da backing vocal Vivi Rocha – mostrou que as canções novas soam ainda melhores ao vivo e algumas das “antigas” podem trazer lágrimas aos olhos e deixar a voz rouca. Quatro novas abriram o set de forma forte e impactante (“Não Se Mate”, “Vida Vale a Pena”, “Mais do Mesmo” e “Fim”), com parte do público mostrando que já as conhecia de cor. O coro, porém, soou bonito em “1932” e “Lição de Casa”. Daí pra frente, entre velhas e novas canções (com direito a “Tudo o Que Eu Sempre Sonhei” e o “Amor Verdadeiro” no bis), o Pullovers mostrou num show alto, barulhento e deliciosamente cantarolável que a vida realmente vale a pena.

– Marcelo Costa (@screamyell) é editor do Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne.





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