28ª Mostra de Tiradentes: “Prédio Vazio”, de Rodrigo Aragão, é ao mesmo tempo uma comédia de horror e um filme de cerco

texto de Leandro Luz

Sol, calor, confetes e serpentinas. No horizonte, corpos suados dançam, rebolam, bebem e se divertem ao som de um ritmo genérico e repetitivo. A imagem composta por pontinhos coloridos sob um céu azul, filmada com drone, de repente dá lugar aos corpos inteiros que se movimentam de forma exagerada, amontoados e fantasiados, com latinhas de cerveja e drinks suspeitos balançando entre os dedos. Duas figuras bonachonas se destacam, um homem e uma mulher, “mão na mão, pés no chão”, figurantes ao fundo. Na contramão de todo o divertimento e de toda a afetação, ergue-se um edifício atrapalhando o tráfego.

Tal qual na icônica música setentista, estabelece-se um mal estar em função de uma construção. Menos preocupado do que o compositor popular com o comentário social – ainda que resguarde o seu quinhão crítico -, o diretor capixaba Rodrigo Aragão traz, em “Prédio Vazio” (2025), doses cavalares de diversão e tensão. Ao contrário dos seus últimos seis longas-metragens, Aragão ambienta pela primeira vez uma trama sua em um cenário urbano. Entre a orla da praia de Guapimirim e a cidade profunda, impõe-se no horizonte a construção que dá nome ao filme: um prédio vazio e encardido que parece saído das profundezas do inferno; os toques em azul na fachada dão conta de transmitir angústia e desolação, notas que ficarão cada vez mais graves na medida em que as personagens se perdem em seu labirinto. Por fora, o prédio se ergue por meio da ilusão do trabalho com maquetes, fica evidente na maneira como Aragão o enquadra, sempre em contra-plongée. Por dentro, o horror engole tudo por meio do vermelho veludo e do kitsch despudorado.

“Prédio Vazio” é ao mesmo tempo uma comédia de horror e um filme de cerco. Uma jovem mulher decide sair em busca de sua mãe no último dia de Carnaval em Guarapari após receber uma ligação que a leva a um edifício decrépito e aparentemente abandonado, a não ser pela presença delirante de uma estranha zeladora. Ao chegar na cidade, acompanhada de seu fiel escudeiro – um namorado ingênuo e ao mesmo tempo comedido -, a jovem encontra apenas escombros e sonhos (pesadelos) de um Carnaval. A zeladora é interpretada por Gilda Nomacce (a dama do cinema de terror brasileiro – palavras de Aragão), grande atriz que alimenta a sua personagem com a dose exata – ou seja, exagerada – de delírio que a sua personalidade pede. É no contato com a personagem de Nomacce que as demais se veem presas nesse emaranhado de aflição e desgraça. É também a partir e em torno dela que o cerco se fecha. Tudo é tragado pelo prédio e tudo será (mal) digerido e regurgitado ao final.

“Das páginas históricas do século XVII, surge no Brasil Guarapari, paraíso tropical do Espírito Santo, onde o verão é mais verão e o turismo é mais turismo. Alegria e muita alegria na cidade onde os problemas não existem”, narra a voz sorridente do cinejornal de época que permeia a narrativa. Rodrigo Aragão é inteligente ao remeter a sua história a um passado de glórias e sabe conectar um ideal colonizador de outrora com os absurdos neoliberais do presente. A especulação imobiliária está no centro da conversa de “Prédio Vazio”, por mais que ela esteja sempre solapada pelo volume alto dos gritos. Não à toa, a personagem de Nomacce pragueja: “esse prédio aqui não é de quem pagou os apartamentos, é das almas”. As expressões faciais e os gestos da atriz carregam toda uma raiva contida.

Entre maquetes, efeitos práticos e sangue falso, é bonito ver como o parque de diversões de Aragão continua a todo vapor. As homenagens rasgadas a “Suspiria” (1977), de Dario Argento, são bem-vindas, assim como a referência involuntária a “Ghost: Do Outro Lado da Vida” (1990), de Jerry Zucker, também cumpre o seu papel – segundo Aragão nesta entrevista, os fantasmas estavam parecendo demais com zumbis, então foram empreendidas algumas trucagens para se distanciar um pouco dessa ideia; para tal, Aragão utilizou o bom e velho recurso do “filmar de trás pra frente”, o que garantiu a estranheza necessária para que os fantasmas funcionassem como deveriam, não sem remeter, com muito bom humor, ao filme de Patrick Swayze, Demi Moore, Whoopi Goldberg e cia.

“É isso o que uma mãe faz por uma filha, não é?”, resmunga Nomacce em determinado momento da trama. “Prédio Vazio” é um filme dirigido por um homem, mas com questões femininas. A relação entre mãe e filha está sempre no centro e, até que se cometa um deslize final, é bem interessante a maneira como o filme desconstrói a ideia de amor incondicional materno. “Amor só de mãe”, como diria Dennison Ramalho e Vicente Celestino. Segundo Aragão, aliás, este roteiro sofreu muitas modificações ao longo do tempo. Chegou a passar por uma consultoria estrangeira e estava se encaminhando para se tornar um filme mais sóbrio, “mais vendável”. Felizmente, o cineasta corrigiu a rota a tempo.

É difícil imaginar um filme de Aragão rendido à chatice do “cinema de horror adulto” aos moldes de um Ari Aster da vida. Se for para filmar tripas e cabeças degoladas, que se filme com gosto e vontade, de preferência com muita diversão no caminho. Outro elemento curioso do roteiro é o namorado da protagonista, um caso à parte. Caio Macedo adota uma postura engraçada, mas nunca desrespeitosa, assim como Aragão também opta por não ridicularizar o menino, propondo, em contrapartida, uma inversão de clichês: é ele quem será a metade responsável do casal e tentará evitar que a namorada se coloque em perigo de forma inconsequente; ela, por outro lado, ignora todo e qualquer aviso de perigo.

Além de ter sido financiado pelo Funcultura, o filme foi feito aos moldes do projeto “filme-escola”, a partir de oficinas que formaram mais de 200 alunos no Espírito Santo em diversos departamentos cinematográficos que, por sua vezes, ajudaram na sua confecção. Rodrigo Aragão, artesão que é, acaba de colocar, com “Prédio Vazio”, mais um tijolinho em sua maldita e fabulosa construção.

Entrevista: “Os filmes de terror brasileiros são tão bons quanto os de outros países”, diz Rodrigo Aragão

– Leandro Luz (@leandro_luz) escreve e pesquisa sobre cinema desde 2010. Coordena os projetos de audiovisual do Sesc RJ desde 2019 e exerce atividades de crítica nos podcasts Plano-Sequência e 1 disco, 1 filme.





Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *