Três shows: Hyldon, Otto (acústico) e Trio Mocotó

Hyldon no Sesc Santana, 10/01/2025
texto de Bruno Capelas / fotos de Sergio Fernandes

Ao longo da última década, o cantor Hyldon tem passado por uma série de resgates interessantes, da parceria com Mano Brown no celebrado “Boogie Naipe” a shows no Rock in Rio, passando por novos trabalhos com colaboradores como Arnaldo Antunes, Céu ou Rappin Hood. De 2013 para cá, ele gravou quatro discos, entre trabalhos inéditos e releituras de parcerias espalhadas pela carreira de velhos camaradas (“Parceiros”, o mais recente, é de 2022). Mas talvez nenhuma temporada tenha começado tão propícia para um comeback em grande estilo do cantor quanto este 2025, que celebra os 50 anos de “Na Rua, Na Chuva, Na Fazenda”, álbum seminal lançado em 1975 pela Polydor, gravadora pela qual o artista baiano antes produziu nomes como Odair José, Wanderléa e Erasmo Carlos. Já nos primeiros dias de janeiro, foi dada a largada para a celebração: primeiro com o lançamento do single “O Caçador de Estrelas”, avanço do disco que o cantor promete para breve dentro do hypado projeto Jazz is Dead. Depois, com um final de semana de apresentações no teatro do Sesc Santana, acompanhado por uma luxuosa banda que incluía não só guitarra, baixo e bateria, mas também clarinete, saxofone e sintetizadores – só faltaram mesmo as cordas para a mistura de “Guitarras, Violinos e Instrumentos de Samba”. Com pouco mais de uma hora de duração, o show mostrou por que o álbum merece festa, confete e brigadeiro, passeando por baladas excelentes como “Acontecimento”, “As Dores do Mundo” e “Sábado e Domingo”, além da divertida “Vamos Passear de Bicicleta”. Entre as faixas do trabalho cinquentão, Hyldon ainda entreteu os presentes com lados-B (“Homem Pássaro”), homenagens a Cassiano (“Primavera” e “Coleção”) e parcerias com Tim Maia (“I Don’t Know What To Do With Myself”), além de excelentes histórias: “Eu não toco ‘A Lua e Eu’ porque aquele verso do “velho e acabado” é sacanagem”, brincou o cantor. Ao final, Hyldon ainda fez charminho e quase ameaçou sair de cena para “tomar Nescau e ver Netflix”, mas botou todas as mãos dos presentes para o céu com “Na Rua, Na Chuva, Na Fazenda”. É pic, é pic, rá-tim-bum…


Otto na Casa de Francisca, 16/01/2025
texto de Bruno Capelas / fotos de Vinicius Marques

Ao longo das últimas três décadas, o cantor Otto construiu uma carreira na música brasileira marcada não só por grandes discos, mas também por uma presença no palco marcante, agitada, muitas vezes imprevisível. É uma performance tão característica e que se confunde com a força de canções como “Crua” ou “6 Minutos”, só para citar dois exemplos do álbum “Certa Manhã Acordei de Sonhos Intranquilos”, lançado em 2009, mas reprensado em vinil e revivido em turnê especial ao longo do ano passado. Por isso, surpreende justamente a escolha do artista em apresentar o repertório do trabalho em um formato acústico dentro da segunda edição do NRC Ao Vivo, evento realizado pela Noize Record Club que misturou show, meet and greet e encontro da comunidade de assinantes do clube de vinil no belo palco da Casa de Francisca. Não que o espetáculo consistisse exatamente no banquinho-e-violão: Otto subiu ao palco acompanhado de formação cheia da sua tradicional Jambro Band, com direito a baixo (Yuri Queiroga), bateria (Beto Gibbs), dois violões (Guri Assis Brasil e Junior Boca) e teclados (Meno Del Picchia). Mas vê-lo ali sentado, tentando resistir a se levantar, deu a sensação aos presentes de testemunhar uma versão quase literal da expressão “é uma besta enjaulada”. O público aprovou do mesmo jeito, mas era possível perceber que canções dramáticas como as já citadas ou “Festa” perderam justamente parte do peso que as deixam tão características e atraentes. Por outro lado, o formato acústico trouxe uma melhora sensível, na comparação com os primeiros shows da turnê, para as participações especiais de Lavínia nos duetos de “Lágrimas Negras” e “Saudade”. Findo o repertório do álbum, do qual “Naquela Mesa” foi uma ausência sentida, Otto seguiu por uma seleção de greatest hits da carreira, incluindo “Bob”, “Ciranda de Maluco” e “Dias de Janeiro”, além de uma releitura especial de “Em Plena Lua de Mel”, do mestre Reginaldo Rossi. Ao final, restou o resultado de um experimento curioso, que pode funcionar para estender a turnê para teatros e bares à meia luz, mas que não aproveita o melhor de um dos melhores performers da atualidade.


Trio Mocotó no Sesc Bom Retiro, 25/01/2025
texto e fotos de Bruno Capelas

Comemorando 471 anos de história, a cidade de São Paulo reservava inúmeras opções na agenda para quem se dispusesse a enfrentar o Sol no último dia 25. Quem compareceu ao Sesc Bom Retiro à tarde pôde ver como o calor poderia ser ainda maior ao dançar ao som do Trio Mocotó, histórico grupo que apresenta, neste 2025, mais uma nova formação. Depois de perder Fritz Escovão no início dos anos 2000, o grupo viu o substituto Skowa partir em junho de 2024, vítima de uma parada cardiorrespiratória. Mas como o show tem que continuar, Nereu Gargalo (pandeiro e voz) e João Parahyba (bateria, percussão e voz) trouxeram à baila o parceiro Melvin Santhana (guitarra e voz) – dos Opalas e também da banda de Mano Brown no show Boogie Naipe. Com um bocado de cabelos brancos a menos que os companheiros, mas muito suingue, Melvin mostrou boa desenvoltura e simpatia na frente do palco, alternando convites para a plateia dançar com boas levadas na guitarra. O novato também soube ocupar o espaço de escada para Nereu, um espetáculo à parte – não só pela voz e pela presença de espírito, cheias de malandragem, mas também pela performance ao pandeiro, com direito a um solo inspirado. (Ressalva seja feita, porém, de que em um sábado particularmente quente, o momento instrumental fez baixar um pouco a rotação do show). Enquanto isso, João Parahyba fazia tiradas divertidas e levadas incríveis na percussão, dando o tom para uma afinada banda liderada por seu filho, Janja Gomes. O repertório? Uma exibição dos clássicos das várias fases do Trio Mocotó, de “Coqueiro Verde” a “Kriola”, de “Não Adianta” a “Voltei Amor”, passando por “Beleza Beleza Beleza”, “Comanche” e “Tudo Bem”, em uma excelente exposição da música black brasileira. A festa até poderia ter sido maior se houvesse tempo – faltaram “Na Tonga da Mironga do Kabuletê”, “Águas de Março” ou até “Oba, Lá Vem Ela”. Mas para quem reclamou que faltou um abraço em Jorge Ben, o grupo lembrou Babulina no bis com a clássica “Bebete Vãobora”, dando a letra pra um adeus cheio de samba, suor e ouriço, para se testemunhar sempre que possível.

– Bruno Capelas (@noacapelas) é jornalista. Apresenta o Programa de Indie e escreve a newsletter Meus Discos, Meus Drinks e Nada Mais. Colabora com o Scream & Yell desde 2010.



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