Literatura: “O que é meu”, de José Henrique Bortoluci, constrói um relato amplo sobre o Brasil das últimas cinco décadas

texto de Renan Guerra

Durante mais de cinquenta anos, José Bortoluci, o pai, percorreu as estradas do Brasil de norte ao sul vivenciando, a partir de suas próprias lentes, a ditadura militar e todos os movimentos megalomaníacos de um desenvolvimento ufanista, como a construção da Rodovia Transamazônica. Enquanto seu pai viaja pelo país, José Henrique Bortoluci se tornou aluno prodígio, viajou a diferentes cidades e países em feiras, eventos e olimpíadas estudantis. Doutor em sociologia pela universidade de Michigan e, desde 2015, professor da Fundação Getúlio Vargas, Zé Henrique se dedicou durante a pandemia a registrar entrevistas longas com seu pai que, em paralelo, lidava com um amplo processo de tratamento para um câncer e outras doenças correlacionadas. A partir desse diálogo entre os dois personagens nasce “O que é meu” (Editora Fósforo, 2023), um dos mais interessantes e pulsantes relatos publicados recentemente sobre família, classe e Brasil.

Já traduzido para mais de 10 idiomas, “O que é meu” parte da narrativa de José Bortoluci pai, com suas memórias amplas de amizades, encontros e entregas pelas estradas brasileiras, indo desde relatos simples sobre a solidão e as distâncias até narrativas sobre possíveis experiências paranormais ou mesmo toda a realidade do pretenso desenvolvimento imposto pela ditadura no interior do Brasil. Desses relatos, José Henrique desdobra um importante retrato sociológico de sua família e, em outras medidas, de seus pares, isto é, da classe trabalhadora brasileira e das nuances e complexidades que impactaram suas vidas, com um foco especial para os relatos relacionados à Ditadura Militar nos anos 1970 e a pandemia de covid-19, sob o governo Bolsonaro – este último ganha destaque pelo fato de Zé Henrique registrar as entrevistas e finalizar a escrita de seu livro ainda sob a égide bolsonarista.

José Henrique Bortoluci com seu pai

A bagagem de pesquisador acadêmico de José Henrique Bortoluci é fundamental para trazer as bases do livro, pois todo seu arcabouço de leituras e análises são cruciais para dar sustentação a suas digressões sobre o país e a política brasileira. Porém, isso tudo só ganha corpo realmente pela lírica completamente sedutora e instigante do autor. Bortoluci sabe amarrar citações, pesquisas e teses com uma narrativa fluida e envolvente, que transforma cada página em um diálogo amplo do autor com seu leitor, criando uma intimidade e uma troca que nos convida a seguir mais e mais dentro dessa história. “O que é meu” cativa e emociona por sua destreza em conseguir amarrar um debate complexo e amplo sobre classe, família e trabalho, com uma narrativa delicada e amorosa sobre afetos, cuidado e a finitude da vida – tudo isso sem soar professoral ou hermético. Bortoluci consegue desenrolar inúmeras páginas em debate sobre as complexidades dos desejos ufanistas de exploração da Amazônia com a mesma destreza e nuance que ele consegue recontar os detalhes da lua de mel de seus pais numa boleia de caminhão.

Em uma das passagens mais emocionantes do livro, Bortoluci conta como o Bortoluci pai gosta de cozinhar, de preparar pequenas marmitas para os filhos e lista uma série de pratos que são os seus preferidos. Parece uma informação simples, mas ela vem amarrada em um contexto com tantas nuances impulsionadas pela linguagem inteligente e sábia do autor. Tudo isso se dá porque Bortoluci consegue engendrar em seu texto todos os aprendizados de uma escrita acadêmica enquanto alinha isso a um arcabouço de referências literárias e cita, diretamente, alguns autores que são bastante alinhados ao seu estilo, como Édouard Louis, Didier Eribon e Annie Ernaux, nomes conhecidos por sua narrativa de auto-ficção, por se colocarem como personagens-agentes de seus livros e, em outra medida, por trazerem discussões riquíssimas de classe, quando colocam em perspectiva as suas vidas enquanto intelectuais em contraponto com a vida de trabalho de seus pais. Essa perspectiva que é tão latente, por exemplo, nos livros de Ernaux ou Louis, ganha camadas tropicais no livro de Bortoluci, ao apresentar a narrativa de sua família, pobres descendentes de italianos no interior de São Paulo, com suas questões claras de classe e raça, em contraponto com a vida atual de Bortoluci, como um importante professor e pesquisador vivendo na capital São Paulo.

O livro de Bortoluci ainda consegue desenvolver um interessantíssimo relato sobre a experiência familiar deles em torno do câncer, com a mesma complexidade que se desdobra sobre todos os temas. Por isso tudo, “O que é meu” se torna um dos livros mais interessantes dessa recente safra nacional, apresentando José Henrique Bortoluci como um dos nomes mais vibrantes da nossa literatura atualmente e já deixando os leitores curiosos para seus próximos passos.

– Renan Guerra é jornalista e escreve para o Scream & Yell desde 2014. Faz parte do Podcast Vamos Falar Sobre Música e colabora com o Monkeybuzz e a Revista Balaclava

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