Lenna Bahule mostra a força da tecnologia para evocar ancestralidades no álbum “Kumlango”

texto de Isadora Bertolini

“O formato de nosso show, ‘eletrônico-acústico’, é pra desmistificar um pouco a coisa do eletrônico como algo inferior”, diz a cantora e compositora moçambicana Lenna Bahule para uma plateia cheia na Casa de Francisca. “O eletrônico tem uma sabedoria, tem um charme, tem uma poesia. E este trabalho, ‘Kumlango’, é sobre isso, é sobre entender a multiplicidade de mundos e de multiversos que vivemos hoje”, continua Lenna, e conclui: “É possível a integração das coisas. Integrar mais e polarizar menos”.

O show, em novembro de 2024, marcava o lançamento do EP “Nadawi”, que, junto do EP “Kwisa” (também de 2024) e da terceira parte que virá em 2025, compõe o terceiro álbum autoral de Lenna, “Kumlango”. Na apresentação, além de passear pelo repertório dos dois EPs já lançados e dar um pequeno vislumbre da última parte da trilogia, a artista resgatou letras do rapper e ativista Azagaia ao comentar a dura situação política em que seu país se encontra hoje.

Cantora, compositora e produtora musical independente, Lenna Bahule impressiona por sua vasta gama de timbres, tessitura vocal, técnica apuradíssima e inventividade composicional, mas tem outra habilidade que se destaca: a de contadora de histórias. Quando a conheci, em 2015, ela estava no palco justamente exercendo de forma magnética essa habilidade – era uma profusão de vozes, de personagens e atmosferas que ela criava apenas com seu corpo, em um encantamento tão impressionante que parece que nunca mais desassociei as histórias de sua figura.

Não à toa, o novo álbum tem uma estrutura narrativa que se imbrica fortemente com a musical. Pensado como uma jornada espiritual em três capítulos, “Kumlango” significa “portal” em jaua – idioma materno de Lenna e uma das muitas línguas que aparecem em seu trabalho.

O primeiro EP, “Kwisa” (“vir”, em jaua), foi lançado em junho de 2024, e representa o início da jornada; “Nadawi” (“tempo”, no mesmo idioma), veio quatro meses depois, em outubro, e navega pelas adversidades que podem levar ao crescimento espiritual; e “Meta” (“significado”), quando tudo parece se encaixar novamente e os mundos espiritual e material coexistem, teve o lançamento adiado para 2025 por questões de agenda.

Ainda que representem momentos diferentes da mesma trajetória, “Kwisa” e “Nadawi” têm uma forte unidade estética: ambos produzidos por Lenna, somam dez faixas que mesclam ritmos moçambicanos e africanos tradicionais, com instrumentos de percussão típicos como o calabash (cabaça tocada em uma bacia de água), chitende (parecido com o berimbau) e o tambor ntoji, e texturas contemporâneas, com o forte uso de bases eletrônicas e de arranjos vocais.

Como comenta a compositora no show, são múltiplos os mundos presentes em “Kumlango”. Refletindo um pouco do cotidiano de Lenna, os EPs reúnem muitos idiomas: jaua, xitswa, chope, tswa-hlengwe (idiomas presentes no território moçambicano), inglês, crioulo da Ilha de Reunião e a “língua nômade” inventada por ela.

Ao leitor, uma recomendação: comece sua jornada musical por “Kwisa”. O primeiro EP da trilogia traz de fato uma sensação de nascimento, de frescor, de início de jornada. Melodias solares se mesclam com momentos de canto falado, e timbres pouco conhecidos da percussão se fundem a sons eletrônicos. As participações especiais também contribuem para este colorido: de Moçambique, o cantor e compositor Mingas e a cantora Amage Jangia (mamã Jangia); e da Ilha da Reunião, a cantora e percussionista Mélanie Bourire.

A primeira faixa, “Hoya Hoya”, apresenta a voz clara e reconfortante de Lenna em um ritmo dançante com uma profusão de timbres não usuais. Ela entoa, na língua xitswa, que “não se espantem se ouvirem os sons do ulular e dos tambores/ porque estou feliz a dançar/pois atingi os meus objetivos”. Na sequência, um interlúdio gravado apenas com percussão e voz falada traz ares de espiritualidade e reverência para a paisagem sonora, em que mamã Jangia afirma em jaua: “esta é a nossa brincadeira aqui em Moçambique: amanhecer a dançar a noite inteira”.

“Nyamussoro”, composição de Lenna na língua chope, fala sobre o poder das curandeiras e evoca energias de cura e de paz, mais uma vez com o uso de percussão, malhas sonoras de muitas vozes e bases eletrônicas que parecem abrir portais. No “Interlúdio 2”, uma gravação com percussão e voz traz um canto tradicional entoado por mulheres de uma comunidade em Lipende-Nyassa, em Moçambique – um teletransporte sonoro para mais um mundo em seu multiverso.

Os dois interlúdios do EP fazem parte de uma pesquisa da documentarista britânica Karen Boswall sobre a volta dos ritos de iniciação de mulheres jaua em Lipende-Nyassa. A pesquisadora apresentou o material audiovisual à Lenna, cujo processo criativo envolve uma busca pelas próprias raízes musicais (sua mãe é jaua).

Em “Kuphura Kuphika”, uma canção popular da cultura tswa hlengue, um coro de mulheres, com a voz de Lenna na linha de frente, faz uma celebração à força da união feminina. E “Ngalila Sofê”, composição própria com letra de Melanie Bourire, traz coros e melodias cativantes, harmonias que fogem de caminhos usuais e um fim catártico que amarra bem a estrutura narrativa do primeiro EP.

Já em “Nadawi” (acima), é possível sentir que entramos em um período mais denso da jornada. Momento de “colocar a terapia em dia”, como explicou a cantora na Casa de Francisca. O EP também traz participações internacionais de peso – a cantora Varijashree Venugopal, virtuose da música tradicional indiana, o baixista britânico Dave Holland, Thobile Magagula, cantor de Essuatíni, o moçambicano multi-instrumentista Cheny Wa Gune, o violonista português Tó-Zé, e o beatboxer estadunidense Christylez Bacon.

Logo no início da primeira faixa, “Mahungo”, fica evidente que o clima é outro: contrastando com o timbre cristalino e solar de Lenna, ouvimos a voz áspera, sofrida e cheia de personalidade de Thobile Magagula. Sons metálicos do chitende se unem ao beatbox de Christylez e ao som eletrônico, e desse caldeirão parece emergir uma fresta para dimensões mais elevadas. A letra traz, em uma mistura da língua nômade com o siswati, um lamento: “por favor, nos esclareça/ onde rezamos?/ para quem rezamos?”.

Em “Vha mame vha bheta”, segunda faixa de “Nadawi”, Bahule traduz para o chope um trecho do livro “O Bebedor de Horizontes”, de Mia Couto, seu conterrâneo, que diz: “As mães metem as mãos no fogo e lançam aos céus as cinzas ainda ardentes. É o que fazem desde o princípio dos tempos. Assim se criaram as estrelas. Acontecerá com essas luzes o que se sucedeu com o sol: regressarão. Todas regressarão e farão brilhar as mãos das mulheres”. Com uma mistura de canto falado, percussão e base eletrônica, vemos a ancestralidade emergir de uma roupagem contemporânea e tecnológica.

Show de Lenna Bahule na Casa de Francisca, 21/11/24. Foto: Isadora Bertolini

“Sande Kani (Go Strong)” segue a dura caminhada do despertar espiritual com melodias que misturam influências árabes e indianas. Revela um lado mais assustador desse despertar, como se chegássemos ao auge da madrugada. O virtuosismo de Lenna se une ao de Varijashree Venugopal, que traz com entonações típicas dos ragas indianos a letra em swahili: “no momento do Agora existe sabedoria infinita/ nesse espaço de completude, encontramos a voz de dentro/ nas faíscas vazias do silêncio, somente a verdade respira/ num movimento de ascensão, numa fresta, encontramos paz”.

E finalizando “Nadawi, Conference of the Birds” traz novo sopro de esperança: “escute, escute/ é a conferência dos pássaros/ deixe as suas preocupações irem embora para um lugar onde elas possam ficar longe”, canta Lenna em inglês, nesta faixa que traz timbres e estruturas melódicas ainda mais inventivas. Com uma linguagem que lembra a estética björkiana, a artista cria uma atmosfera que parece inspirar a própria inventividade em quem a ouve. Seria esse o verdadeiro portal para a espiritualidade?

Ao longo dessa jornada musical, Lenna impressiona com sua capacidade de criar atmosferas e envolver o ouvinte em realidades mágicas, múltiplas, que suspendem a noção do tempo e do espaço e conectam passado e futuro. Por mais que pareça ousado contar a jornada espiritual da humanidade em três EPs que formam um álbum, a moçambicana, como boa contadora de histórias, nos surpreende e nos cativa a cada faixa. Vamos ver o que o EP “Meta” trará para o capítulo final dessa narrativa.

– Isadora Bertolini é musicista, jornalista e assessora de imprensa. Seu site: isadorabertolini.wordpress.com

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