Monsters of Rock 2026 aposta no novo, celebra o legado e acerta no equilíbrio

texto de Paulo Pontes
fotos de Natália Michalzuk

Quem esteve no show do Guns N’ Roses no Allianz Parque, menos de seis meses atrás – e ficou atento ao telão –, não se surpreendeu tanto quando a banda foi anunciada como headliner da edição 2026 do Monsters of Rock, já que um clipe exibido momentos antes do show deu certo spoiler a respeito (o Monsters fez a mesma coisa neste ano e praticamente revelou quem vai ser o headliner no ano que vem). Essa escolha, somada ao anúncio do restante do lineup, acendeu certo fogo de reclamações entre muitos, que consideram este o mais fraco dentre todas as edições do festival até hoje.

foto de Natália Michalzuk / Scream & Yell

Bem, não é pra tanto. E essa reação diz mais sobre expectativa do que sobre entrega, porque, como o próprio sábado, 4 de abril, tratou de mostrar, o Monsters continua sendo um tipo de evento que só pode ser julgado depois que o primeiro acorde soa. E há um elemento que transforma completamente essa equação, que não aparece em cartaz e que, invariavelmente, redefine qualquer leitura mais apressada: o público.

foto de Natália Michalzuk / Scream & Yell

O Allianz Parque, ao longo do dia, foi menos um espaço físico e mais um ponto de convergência geracional. Crianças nos ombros dos pais, vestindo camisetas de bandas que surgiram antes mesmo de seus pais serem adultos; adolescentes que conhecem cada detalhe de repertórios construídos décadas atrás, mas que chegaram a eles por caminhos digitais; e um contingente expressivo de gente que cresceu com aquilo, que viveu o auge de muitas daquelas bandas e que retorna muito menos por nostalgia e mais por continuidade. Não é um público homogêneo, e é justamente por isso que funciona. O Monsters, nesse sentido, segue sendo um espaço onde o rock não se limita a ser lembrado, mas que continua sendo passado adiante.

Jayler / foto de Ricardo Matsukawa

Abrir um festival desse porte, como fez o Jayler, é sempre um exercício de sobrevivência. Além do fato de que o público ainda está chegando, a atenção está dispersa, diluída entre deslocamentos, encontros e expectativas que ainda não se materializaram. E, no entanto, o que se viu foi uma banda que pareceu entender exatamente esse cenário e reagiu a ele com intensidade. A comparação com o Led Zeppelin é inevitável – e em alguns momentos até excessivamente evidente –, mas ao vivo ela perde o peso acusatório e passa a funcionar como referência de linguagem. O Jayler tem tudo pra soar como uma reprodução protocolar, mas, na verdade, soa como uma banda jovem tentando se inserir em uma tradição que, há muito tempo, não revela novos protagonistas. É um show que não se apoia na perfeição, mas na energia (e energia o vocalista James Bartholomew tem de sobra).

Dirty Honey / foto de Natália Michalzuk

O Dirty Honey, por sua vez, segue por outro caminho, apostando em uma execução mais controlada, mais consciente de suas próprias ferramentas. Seu hard rock de inspiração setentista não esconde suas referências, que passam por The Black Crowes e pelo próprio Guns N’ Roses, mas encontra força justamente na forma como organiza esses elementos em um show coeso. Não há grandes riscos, nem momentos de ruptura, mas há consistência (e consistência, em um festival longo, é um ativo importante). O Dirty Honey não tenta ser maior do que é, e talvez por isso funcione tão bem: entrega exatamente aquilo que promete, sem dispersão.

Yngwie Malmsteen / foto de Natália Michalzuk

A primeira quebra mais clara dessa progressão vem com Yngwie Malmsteen, e ela acontece menos por falha e mais por desalinhamento. Seu show é, essencialmente, uma vitrine de técnica (um workshow, como reforçou um colega da imprensa), um espaço onde o virtuosismo é o centro absoluto da experiência. O problema é que festivais operam em outra lógica, mais imediata, mais baseada em resposta coletiva. Ao apostar em longos trechos instrumentais e em uma estrutura que privilegia a execução individual, Malmsteen cria uma barreira que parte do público não atravessa. O respeito é evidente, ninguém questiona sua importância ou habilidade, mas a conexão não se estabelece com a mesma força. E, nesse contexto, o momento em que ele recorre a “Smoke on the Water”, do Deep Purple, funciona quase como um retorno ao terreno comum, um ponto de reconexão que evidencia justamente o que estava faltando antes.

Halestorm / foto de Natália Michalzuk

A partir daí, o festival entra em uma fase de crescimento mais consistente, e isso se torna evidente com a entrada do Halestorm. Há uma mudança clara de escala, tanto em termos de presença quanto de impacto. Lzzy Hale entrega uma performance que não se destaca somente pela potência vocal (como canta essa mulher), mas pela forma como ocupa o espaço e conduz o público. Seus agudos são sustentados com precisão, seus momentos mais contidos mantêm tensão, e sua presença de palco é constante, sem oscilações. Lzzy deu um show à parte e conquistou geral. Pra quem já conhecia, foi um deleite, pra quem não conhecia, foi uma oportunidade daquelas que transformam simples espectadores em fãs. Destaques para “Like a Woman Can”, dedicada a todas as mulheres presentes, “Love Bites (So Do I)”, “I Miss the Misery” e “Freak Like Me”.

Extreme / foto de Natália Michalzuk

O Extreme entra logo depois com uma proposta que privilegia eficiência e leitura de contexto. O set é enxuto, bem distribuído e pensado para manter a fluidez do evento. Nuno Bettencourt segue sendo o principal destaque técnico, mas sem cair na armadilha do virtuosismo pelo virtuosismo, tudo ali está a serviço da música. E é justamente quando chega “More Than Words” que o festival atinge seu primeiro grande ponto de convergência coletiva. Quando um hit desse nível aparece, é o momento em que a dinâmica se inverte: o palco diminui, o público cresce, e o Allianz Parque inteiro passa a cantar em uníssono, estabelecendo uma conexão que redefine a energia do restante do dia.

Lynyrd Skynyrd / foto de Ricardo Matsukawa

Se o Extreme consolida essa conexão, o Lynyrd Skynyrd aprofunda a dimensão emocional do festival ao assumir seu papel como guardião de um repertório que atravessa décadas. O show é construído com esse entendimento, alternando momentos de introspecção e celebração com precisão. “Simple Man” cria um clima de contemplação compartilhada, “Sweet Home Alabama” transforma o estádio em festa coletiva, e “Free Bird” ultrapassa qualquer definição simples de performance, especialmente com a presença simbólica de Ronnie Van Zant, que insere o passado diretamente no presente. É um encerramento que funciona como homenagem e reafirmação ao mesmo tempo.

Crédito: Guns N’ Roses

O Guns N’ Roses fechou a noite com a responsabilidade que o posto de headliner naturalmente carrega, mas também com um histórico recente que sempre levanta uma dúvida legítima: a entrega no palco, principalmente de Axl Rose. E o que se viu no Allianz Parque foi uma banda que, mais do que provar alguma coisa, pareceu entender melhor o próprio momento.

Crédito: Guns N’ Roses

Ao reduzir o tempo de apresentação e abrir mão de escolhas mais óbvias, como “Don’t Cry” e “Patience”, a banda evitou a armadilha da previsibilidade absoluta e organizou um set mais funcional, mais pensado para fluxo do que para acúmulo. “Welcome to the Jungle” abriu com o tipo de catarse que nenhuma outra banda do dia havia provocado, e o bloco inicial, com “It’s So Easy”, “Mr. Brownstone” e “Bad Obsession”, manteve o show em movimento constante, sem dispersão. No meio disso, “Live and Let Die” apareceu como primeiro grande pico, tanto pelo impacto sonoro quanto pela resposta imediata do público.

Crédito: Guns N’ Roses

Mas o que dá corpo ao show está justamente nas escolhas menos automáticas. A presença de músicas como “Dead Horse” e, principalmente, “Bad Apples” (resgatada depois de décadas) mostra uma tentativa de reorganizar o repertório sem depender apenas do óbvio. O mesmo vale para “Junior’s Eyes”, do Black Sabbath, que substitui caminhos mais previsíveis dentro dos covers recentes da banda e reforça essa ideia de ajuste fino. As faixas mais recentes, como “Perhaps”, “Atlas” e “Nothin’”, entram sem quebrar o ritmo, o que não é pouco, especialmente em um catálogo tão consolidado. Elas não são o centro do show, mas também não soam como apêndice, o que indica uma integração mais natural do material novo.

Crédito: Guns N’ Roses

Houve, ainda assim, pequenos ruídos. Nos primeiros momentos, especialmente para quem estava do lado direito do palco, a guitarra de Slash apareceu um pouco abaixo na mixagem, o que tirou parte do peso inicial. Foi um detalhe técnico, pontual, mas perceptível em uma banda cuja identidade passa diretamente por esse elemento. Com o avanço do show, no entanto, esse ajuste aconteceu, e o equilíbrio se estabeleceu.

Crédito: Guns N’ Roses

No centro de tudo, Axl Rose conduziu a apresentação com mais inteligência do que impulso. Não houve tentativa de recriar o que já não é mais possível, mas sim de trabalhar dentro das próprias possibilidades atuais, distribuindo melhor a voz, escolhendo onde sustentar e onde recuar. Isso não eliminou limitações, mas reduziu as oscilações e, no contexto geral, fez o show ganhar consistência.

Crédito: Guns N’ Roses

Ao redor dele, a banda operou com a solidez esperada. Slash seguiu sendo um eixo técnico e estético, enquanto Duff McKagan amarrou a base com precisão, garantindo que o show não perdesse sustentação mesmo nos momentos menos explosivos. A reta final veio como um processo natural de convergência. “Sweet Child O’ Mine”, “Estranged” e “November Rain” ampliaram a escala emocional, enquanto “Nightrain” e “Paradise City” empurraram o Allianz Parque para o limite da resposta coletiva. Não foi um show que tentou reinventar o Guns N’ Roses, mas também não foi um show acomodado. Foi, sobretudo, uma banda que entendeu onde estava, com quem estava falando e o que precisava entregar.

Crédito: Guns N’ Roses

Ao final, o Monsters of Rock 2026 se sustentou não como o lineup mais impactante de sua história, mas como um festival que encontrou coerência na prática, reorganizando percepções ao longo do dia e se apoiando em uma combinação de execução sólida e resposta de público.

Ah, sobre a produção já ter dado spoiler da próxima edição… nos telões, entre os shows do Extreme e do Lynyrd Skynyrd, começaram a surgir imagens que, à primeira vista, poderiam ser interpretadas como parte de uma ambientação visual genérica, mas que rapidamente se mostraram específicas demais para serem casuais: pirâmides do Egito, uma estética claramente associada à iconografia daquele período e, em seguida, a aparição de uma figura que remetia diretamente ao Eddie, mascote do Iron Maiden, trajado de maneira muito próxima à estética consagrada na fase de “Powerslave”.

Crédito: Guns N’ Roses

Não houve anúncio formal, nem qualquer tipo de confirmação explícita, mas a combinação de elementos visuais apresentada deu grandes indícios de que, assim como aconteceu com o Guns N’ Roses, os fãs de Iron Maiden podem esperar que, se confirmada a edição do Monsters para 2027, a banda retorne ao Brasil com um intervalo menor que um ano (já que a Donzela tem shows pelo país em outubro de 2026). Resta agora esperar os próximos capítulos de uma história que, há muito tempo, deixou de ser apenas um festival e passou a fazer parte da vida de quem acompanha rock e metal por aqui.

foto de Natália Michalzuk / Scream & Yell

– Paulo Pontes é colaborador do Whiplash e escreve de rock, hard rock e metal no Scream & Yell. É autor do livro “A Arte de Narrar Vidas: histórias além dos biografados“.
Natália Michalzuk é fotógrafa e bacharel em artes visuais. Conheça: https://nataliamichalzuk.com.br/



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