texto de Ismael Machado
Durante décadas, a história pública de Paul McCartney após o fim dos The Beatles esteve envolta em um mito persistente, o de que ele teria sido o grande responsável pela dissolução da banda mais influente do século XX. Essa narrativa começou a se consolidar em abril de 1970, quando McCartney anunciou publicamente sua saída do grupo. O gesto, embora tenha ocorrido sete meses depois de John Lennon ter comunicado em privado que queria deixar a banda, acabou transformando Paul, aos olhos de parte da crítica e do público, no vilão da história.
O problema não era apenas o anúncio. Era também o momento. Pouco depois da separação, McCartney lançou seu primeiro álbum solo, “McCartney” (1970), gravado em grande parte de forma caseira. O disco, deliberadamente íntimo e despretensioso, contrastava com a grandiosidade que os Beatles haviam alcançado em seus últimos trabalhos. Para muitos críticos, aquilo parecia um gesto menor, quase um recuo artístico. A partir dali, consolidou-se uma caricatura que o acompanharia por anos: a do compositor talentoso, mas leve demais, sentimental demais, talvez até superficial demais para carregar sozinho o peso do legado beatle.
Mais de meio século depois, esse julgamento parece simplista. Aos 83 anos, McCartney construiu uma trajetória que ultrapassa em muito qualquer leitura reducionista. Seu catálogo musical se expandiu para dezenas de álbuns; sua atuação se estendeu ao cinema, às artes visuais e ao ativismo em defesa dos animais. Paralelamente, nas últimas duas décadas ele passou a revisitar o próprio passado com um olhar mais sereno.
Essa revisitação inclui projetos como a série de relançamentos “Archive Collection”, sua participação criativa no documentário “The Beatles: Get Back” (2021), dirigido por Peter Jackson, e agora o documentário “Paul McCartney: Homem em Fuga” (“Man on the Run”, 2025), dirigido por Morgan Neville, disponível no Amazon Prime. O filme se dedica a um período específico: os anos de 1970 a 1980, quando McCartney tentou reconstruir sua identidade artística após o fim da banda que havia redefinido a música pop.

Esse foi o período de Wings, grupo formado por McCartney ao lado de sua esposa Linda McCartney e de uma formação variável de músicos. Mais do que uma banda, Wings representava um experimento de vida: um esforço deliberado para escapar da monumentalidade dos Beatles e começar novamente em escala humana.
Morgan Neville opta por uma estrutura pouco convencional para contar essa história. Em vez de uma sucessão de entrevistas atuais, os tradicionais “talking heads”, o filme se constrói quase inteiramente a partir de narração em off, principalmente do próprio McCartney, combinada a um vasto material de arquivo.
Esse material inclui imagens de shows, registros televisivos, entrevistas antigas e, sobretudo, vídeos caseiros da família McCartney. O resultado é um mosaico visual feito de colagens, animações e montagens que deslocam o espectador entre três dimensões narrativas: o final dos Beatles, o impacto cultural da separação e a reconstrução emocional de McCartney na década seguinte.
A intimidade das imagens familiares talvez seja o elemento mais revelador do documentário. Em muitos momentos, vemos o cotidiano doméstico do casal: crianças correndo pela casa, gravações improvisadas, animais circulando pelo estúdio. O contraste com a imagem tradicional do astro do rock é enorme. Depois do colapso dos Beatles, McCartney parece ter mergulhado deliberadamente em uma espécie de “modo pai de família”, reorganizando a vida ao redor da casa, dos filhos e da música feita sem pressa.

Para a crítica musical da época, porém, esse gesto era quase incompreensível. O rock ainda estava profundamente associado à ideia de rebeldia juvenil, intensidade e excesso. O cotidiano doméstico de McCartney parecia banal demais para um ex-Beatle. Assim, muitos comentaristas passaram a tratar sua produção dos anos 1970 com desprezo. Seus discos eram julgados não apenas pelo que eram, mas pelo que supostamente não eram: novos Beatles.
Há também um aspecto literário importante na origem do filme. O documentário foi claramente influenciado pelo livro “Man on the Run: Paul McCartney in the 1970s“, do jornalista Tom Doyle, publicado em 2016. A obra de Doyle é considerada uma das investigações mais detalhadas sobre a década de McCartney após os Beatles. Baseado em entrevistas extensas com o próprio músico e com colaboradores da época, o livro reconstitui minuciosamente o processo de criação dos Wings, as dificuldades da transição pós-Beatles e o ambiente emocional que cercava o artista naquele momento.
O documentário absorve muito desse espírito revisionista do livro. Assim como Doyle, Neville trata os anos 1970 não como uma fase menor, mas como um período de reconstrução criativa. McCartney aparece ali como alguém que precisou reaprender a existir fora da maior banda da história do rock, uma tarefa que envolveu fracassos públicos, críticas ferozes e um intenso processo de reinvenção pessoal.
Um dos elementos centrais dessa reinvenção foi a presença de Linda McCartney. O filme dedica um espaço significativo à relação entre Paul e Linda, frequentemente retratada pela imprensa da época com um misto de misoginia e desconfiança. Antes de conhecer McCartney, Linda já era uma fotógrafa respeitada no circuito do rock. Ainda assim, sua decisão de integrar os Wings foi tratada como uma excentricidade, ou pior, como um capricho do marido. Parte da imprensa a tratava como uma intrusa. Alguns fãs a viam como a mulher que “tirou” McCartney dos Beatles. Outros simplesmente ridicularizavam suas habilidades musicais. A pressão pública foi intensa e, em muitos momentos, cruel.

O documentário mostra como essa narrativa era injusta. A partir de depoimentos de familiares, amigos e colaboradores, constrói-se um retrato diferente, pois Linda aparece como uma presença fundamental na vida emocional de McCartney. Ela foi, ao mesmo tempo, companheira criativa, parceira doméstica e uma espécie de âncora psicológica em um momento de profunda instabilidade.
Em determinado momento, a frase que sintetiza essa relação surge de forma quase desarmada: “Estou aqui porque nos amamos.” A frase desmonta décadas de especulação e revela o que, para o casal, sempre foi óbvio.
A década do Wings é frequentemente lembrada de forma contraditória. Para alguns críticos, ela representaria um período menor na carreira de McCartney. Para o público, entretanto, foi um período de enorme sucesso.
Entre 1971 e 1980, McCartney lançou dez álbuns, incluindo clássicos como “Ram” (1971) e “Band on the Run” (1973). Além disso, compôs uma das músicas mais famosas da história do cinema: “Live and Let Di”e, tema do filme “Com 007 Viva e Deixe Morrer” (1973) da franquia James Bond.
Curiosamente, o documentário não explora todos esses momentos com a profundidade que poderia. Alguns álbuns importantes, como “Red Rose Speedway” (1973), “Venus and Mars” (1975) ou “London Town” (1978), aparecem apenas de passagem. A ausência deixa uma pergunta no ar: o que impulsionava McCartney a produzir tanto naquela década?

Talvez a resposta esteja na própria experiência do luto artístico. Depois do fim dos Beatles, McCartney enfrentou não apenas a perda de uma banda, mas também a ruptura de uma identidade coletiva que havia definido sua juventude. Criar constantemente pode ter sido uma forma de reconstrução pessoal, um modo de provar, antes de tudo para si mesmo, que a música continuava ali.
Esse material revela algo que a narrativa pública quase sempre ignorou: após o colapso dos Beatles, McCartney passou por um período profundo de depressão e reclusão. Instalado com Linda na Escócia, ele chegou a enfrentar problemas com álcool e um sentimento de fracasso difícil de conciliar com sua reputação mundial. O nascimento de uma nova família e a vida rural funcionaram como uma espécie de recomeço emocional.
Nesse contexto, os Wings surgiram mais como um projeto de sobrevivência criativa do que como uma tentativa calculada de sucesso comercial. A banda teve diversas formações ao longo da década, algo que o próprio McCartney reconhece no documentário como resultado de sua tentativa — talvez ingênua — de criar um grupo realmente democrático. O problema é que qualquer banda liderada por um ex-Beatle carregava inevitavelmente uma hierarquia invisível. Era impossível ser “igual” quando se tocava ao lado de um ex-Beatle.
Essa contradição levou a constantes mudanças de formação. Mesmo assim, alguns músicos permaneceram por longos períodos, como Denny Laine, que se tornou uma espécie de parceiro permanente de McCartney durante os anos do Wings. Ainda assim, o documentário também sugere que essa produtividade quase obsessiva na década em questão pode ter sido uma forma de resposta à crise identitária provocada pela dissolução dos Beatles. McCartney parecia determinado a provar, para si mesmo e para o mundo, que sua relevância não dependia da existência da banda que o consagrou. É nesse ponto que o título Man on the Run ganha um significado simbólico. A expressão sugere movimento constante, fuga, urgência. McCartney aparece como alguém permanentemente em deslocamento: viajando entre países com sua nova banda, tentando escapar da sombra do passado e construir uma narrativa própria.
O documentário também toca na relação com Lennon. O afastamento entre os dois durante os anos 1970 foi profundo, alimentado por rivalidades criativas e feridas pessoais. Décadas depois, tanto familiares quanto colaboradores tentaram reinterpretar essa distância. Depoimentos de Stella McCartney e Sean Lennon ajudam a iluminar como McCartney reagiu emocionalmente ao assassinato de Lennon em 1980, evento que encerraria definitivamente qualquer possibilidade de reconciliação pública.
Talvez o aspecto mais interessante de “Man on the Run” seja a forma como ele é narrado a partir da perspectiva de um homem que já teve tempo suficiente para reorganizar suas memórias. Não se trata de uma narrativa defensiva. McCartney não tenta negar os erros ou conflitos do passado. Em vez disso, ele os reinterpreta. A maturidade permite que acontecimentos dolorosos sejam vistos sob outra luz: não apenas como fracassos ou equívocos, mas como etapas inevitáveis de uma transformação.
Essa mudança de perspectiva é perceptível quando ele fala do Wings. Durante anos, a banda foi tratada como uma tentativa menor de substituir os Beatles. Hoje, ela aparece como algo diferente: um laboratório criativo onde McCartney pôde experimentar sem as expectativas esmagadoras do passado. No fim das contas, “Man on the Run” funciona menos como um documentário sobre uma banda específica e mais como o retrato de um processo de metamorfose. Entre 1970 e 1980, McCartney passou de ex-Beatle desacreditado a artista plenamente autônomo.
A trilha sonora do filme, repleta de canções do Wings, ajuda a lembrar algo que muitas vezes foi esquecido: aquele período produziu uma quantidade impressionante de clássicos. Para muitos artistas, aquelas músicas seriam suficientes para sustentar uma carreira inteira. Para McCartney, foram apenas o começo de um caminho que continuaria por mais seis décadas.
Visto hoje, com o distanciamento de mais de meio século, esse período parece muito menos um desvio e muito mais uma etapa fundamental da trajetória de um dos compositores mais prolíficos da música popular. O que durante décadas foi tratado como um “capítulo menor” revela-se, na verdade, como o momento em que Paul McCartney aprendeu a existir fora do mito que ajudou a criar.
E talvez seja essa a verdadeira mensagem do filme. Depois de um colapso criativo ou emocional, a reconstrução raramente acontece de forma grandiosa. Ela começa com pequenos gestos, uma canção gravada em casa, uma banda improvisada, uma família reunida em torno de um piano. Às vezes, recomeçar é simplesmente isso: voltar a correr, mesmo sem saber exatamente para onde.
Leia também: “Man on The Run” esmiúça a vida de Paul McCartney em sua fase Wings

– Ismael Machado é escritor, jornalista e, por que não, cineasta. Publicou cinco livros e é ganhador de 12 prêmios jornalísticos. Roteirista dos longas documentários “Soldados do Araguaia” e “Na Fronteira do Fim do Mundo” e da série documental “Ubuntu, a partilha quilombola“

