Três shows: Janine, Exclusive Os Cabides, Ott0papi

Janine – Circuito #06, Cineclube Cortina – 05/03
texto de Marcelo Costa, fotos de Lou Alves

Jovem artista carioca que transita entre o teatro e a música, Janine Price vem moldando sua persona artística sem pressa, cadenciada, como se tivesse tateando o caminho e, ao mesmo tempo, se descobrindo. Em abril do ano passado ela lançou “Muda”, um EP de quatro faixas selecionado para a lista de 100 lançamentos de destaque de 2025 da APCA, mas provavelmente já tinha repertório para um álbum, canções que vem sendo experimentadas ao vivo nos últimos quatro anos (com diversas colaborações) no eixo Rio / São Paulo em casas como Audio Rebel e Picles. Escalada para o primeiro Circuito – Nova Música, Novos Caminhos de 2026 (aventura de Lúcio Ribeiro e da Mais Um Discos que leva alguns artistas para quatro shows em quatro cidades em quatro dias seguidos), Janine surgiu no palco do Cineclube Cortina diante de um público atento acompanhada de Beeau Gomez (Retrato / Antiprisma) no baixo e Guilherme Paz na bateria para um show envolvente e revelador. Já na abertura, sob uma condução rítmica hipnótica envolvida em ruídos, Janine mostrou a potência e teatralidade de sua voz tanto entoando versos – como “voltei para renascer” e “embora tarde foi o desejo / fica agora à vontade” – quanto fazendo vocalizações. Na sequencia, de guitarra em punho, apresentou “Ave”, registrada pela primeira vez em uma session de 2023, mas ainda inédita. O arranjo, inicialmente hipnótico, explode em um rock balizado por riffs sem arestas e vocal rasgado, que vai crescendo e agarra o ouvinte pelo pescoço martelando a frase “o sol não vai deixar de vir se você se atrasar”. Seguem-se outro número deliciosamente estridente, o single mais recente “Dorotá” alternado com as ótimas “Largue” e “Aquela” – números meio blues, meio jazz psicodélico que abrem “Muda” – com a segunda explodindo em guitarradas na segunda metade, para delírio do público presente. “Quem tiver precisando chorar hoje, esse é o momento”, avisou antes do próximo número, também inédito, enquanto a mente do espectador, seduzida, tenta conectar referências que vão de Angel Olsen e, inevitavelmente, PJ Harvey e Bjork com Olivia Byington, Juçara Marçal e a tradição de cantoras que começaram no teatro num ótimo show em que o repertório ainda está sendo lapidado, pois a própria persona artística de Janine está em desabrochamento, e merece ser acompanhada com carinho e atenção. Fique de olho (e ouvidos atentos) nela.


Exclusive Os Cabides – Circuito #06, Cineclube Cortina – 05/03
texto de Bruno Capelas, fotos de Lou Alves

Em 2024, os catarinenses da Exclusive Os Cabides lançaram um dos discos mais divertidos dos últimos anos na cena independente brasileira: “Coisas Estranhas”. Publicado pela própria banda, o álbum trazia um cruzamento de grandes ideias do rock dos anos 60 e dos anos 90, misturando psicodelia, humor e graça juvenil – basta ouvir canções como “Luminária de Lava” ou “Lagartixa Tropical” para comprovar. De lá para cá, o grupo também rodou bastante por diversas partes do País, exercitando a arte de se apresentar ao vivo. A estrada fez bem aos Cabides, como se pode comprovar na sexta edição do Circuito – Nova Música, Novos Caminhos, em São Paulo. Principal vocalista do grupo, Antônio dos Anjos segue sendo um dínamo frente aos microfones, animando o público que lotou o Cortina numa das apresentações mais cheias do festival até agora. Antônio, porém, agora divide os holofotes igualitariamente com o primo João Paulo Pretto: antes tímido, o guitarrista está mais solto, contribuindo não só com sua capacidade vocal, mas com boa parte da espontaneidade da apresentação – como quando saudou os presentes para “uma noite de rock’n’roll”, numa daquelas frases que só a inocência permite ou, ainda, ao gritar incessantemente “abelha! abelha! abelha”, durante “Save the Bees ou Deus salve as abelhas”. Ao mesmo tempo, a bateria de Carolina Werutsky está mais firme, amparando ainda melhor os improvisos e viagens propostas pelo guitarrista Eduardo Possa. Para uma análise mais certeira, faltou só olhar para o baixo: em São Paulo, Maitê Fontalva foi substituída na turnê paulista por Marília Toledo (Caco/Concha), numa troca que fez o suingue prevalecer sobre a energia da baixista titular. Ao longo de 50 minutos, os catarinenses não só mostraram as sapecas canções de “Coisas Estranhas” (a faixa-título, a já clássica dobradinha de “AAAAAAAAA” com “Luminária de Lava”, “Rua da Lua Cheia”), como também passearam pela estreia “Roubaram Tudo” – e aqui, destaque para a mutântica “Mr. Lanches”, que nunca deveria sair do setlist do grupo. Embora haja chances de que isso aconteça em breve – afinal de contas, em São Paulo, o grupo mostrou ainda duas faixas novas que devem fazer parte de um próximo disco, as interessantes “Gaita em Formato de Trem” e “Bicicleta”. Ao final do show, ficou a sensação de que será preciso abrir mais ciclovias por aí, pois estes cabides estão prontos para pedalar firme. Em frente!


Ott0papi – Porta – 06/03/2026
texto de Bruno Capelas, fotos de Mariele Scholl

Ao longo dos últimos anos, Otto Dardenne se tornou uma figura incontornável da cena paulistana – DJ, dono de estúdio, fundador de selo (a Seloki Records, que já lançou Nina Maia, Os Fonsecas, MADRE e… Janine), designer gráfico e produtor foram algumas das personas que o paulistano assumiu por aí, além de integrar bandas como a Goldenloki e a Gumes. Em 2025, ele saiu dos bastidores e foi para os palcos sob o codinome Ott0papi, realizando mais de 30 shows em pequenas casas, inferninhos, portas e portinhas com sua banda de fiéis escudeiros – Vítor Wutzki e Thales Castanheiras nas guitarras, Bianca Godói no baixo, Gael Sorkin na bateria e Danileira nos synths, além da presença eventual do irmão Yann também nas seis cordas. Mais que apenas testar uma formação, o rapaz soube construir uma expectativa, graças a apresentações agitadas e canções como “Bala de Banana” e “Perdi o Controle”. Faltava um disco para chamar de seu. Coproduzido por Otto e Chuck Hipolitho, o álbum “Bala de Banana” finalmente chegou às plataformas digitais em março, no mesmo dia em que o cantor se apresentou no Porta. A noite tinha clima evidente de festa entre amigos e camaradagem, é fato, mas isso só deixou a sala de Pinheiros ainda mais propícia para as maluquices de Otto – e do público, que provocou um pequeno caos ao abrir uma roda de mosh em “Perdi o Controle”. O palco exíguo do local, com seis músicos, não permitiu tantas estripulias a Otto, mas ele fez o que pôde: pulou, se jogou no chão, foi para o público e distribuiu indefectíveis balas de banana durante a execução da canção-título, num esforço doce de marketing de guerrilha. Fosse só pose, porém, não seria suficiente: o que Otto propõe no palco é o resultado de uma linhagem de bandas barulhentas e festeiras, batucando Strokes, Pavement, Bidê ou Balde, Parquet Courts e New York Dolls em um liquidificador muito divertido. Prova disso são temas que chamaram a atenção na noite, como “Ruim da Cuca”, herdeira do grupo de “Stoned and Starving”, ou “A Mais Gata Dessa Festa”, cujos coros justificariam sua presença no repertório da trupe de Carlinhos Carneiro. E vem mais por aí: em pouco mais de uma hora, Otto não só exibiu o repertório do disco como também alguns temas inéditos, mostrando lenha para queimar. 2026 está só começando, mas vale o aviso: eis aqui um dos shows e um dos discos mais legais dessa temporada. Perdoe o trocadilho, leitor: pelo que se viu no Porta, Ott0papi e sua “Bala de Banana” tem tudo para grudar na cabeça da cena – e mais.

– Bruno Capelas (@noacapelas) é jornalista. Apresenta o Programa de Indie, na Eldorado FM, e escreve a newsletter Meus Discos, Meus Drinks e Nada Mais. Colabora com o Scream & Yell desde 2010.
– Marcelo Costa (@screamyell) é editor do Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne.





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