Crítica: “Bugonia” e o fim do mundo como o conhecemos – e as abelhas se sentem bem

texto de Marcelo Costa

O Olimpo da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas é um território que, assim que alcançado, nivela a obra de um diretor por cima. Desta forma, se Martin Scorsese, Paul Thomas Anderson ou Quentin Tarantino lançam novos filmes, fatalmente eles estarão na lista do Oscar daquele ano (desde que não excedam “os limites” da moral e dos bons costumes tão caros a Hollywood – ainda hoje, ou principalmente hoje?). Os dois filmes mais recentes de Yorgos Lanthimos são um exemplo perfeito dessa premissa.

Após receber 21 indicações ao Oscar por dois filmes (10 para “A Favorita”, de 2018; 11 para “Pobres Criaturas”, de 2023), Lanthimos foi solenemente esnobado com seu ótimo “Tipos de Gentileza” em 2024 (a sugestão de canibalismo e sexo grupal talvez tenha sido demais para a Academia), mas retorna com “Bugonia” (2025), um filme delicioso e divertido sobre o fim da raça humana (feito na esteira de “Tipos de Gentileza” com seus dois atores principais) indicado a quatro Oscars: Melhor Filme, Atriz, Roteiro Adaptado e Trilha Sonora.

 

Versão hollywoodiana do filme coreano “Save the Green Planet!” (2003), de Jang Joon-hwan. “Bugonia” utiliza um mito grego para provocar que a única salvação para a raça humana é seu extermínio completo: a palavra grega ‘bougonia’ significa ‘nascido de boi’, prática ritualística que acreditava que abelhas surgiam espontaneamente da carcaça de uma vaca morta. Era considerada, na antiguidade, um método técnico para renovar colmeias simbolizando o nascimento ou renovação a partir da morte e decomposição.

Sempre assertivo, Yorgos Lanthimos apresenta Emma Stone – em sua quarta parceria consecutiva com o cineasta grego – e Jesse Plemons em posições antagônicas: ela interpreta Michelle Fuller, CEO de uma grande empresa farmacêutica; ele vive Teddy Gatz, um apicultor obcecado por teorias da conspiração, dentre elas, a de que Michelle é integrante de uma espécie alienígena conhecida como Andromedans, e ele sequestrará a CEO e irá até as últimas consequências para desmascarar a invasora e salvar o planeta.

Essa é uma maneira estoica de apresentar o roteiro de “Bugonia”: para você ter uma pequena ideia, há uma resenha interessante que visualiza o personagem caótico (louco e genial) de Jesse Plemons como a Direita tentando salvar o planeta, mas, em sua falta de cultura (e tendência lunática) acelerando seu fim; e o personagem de Emma Stone como a Esquerda woke disposta a acabar com tudo se não conseguir “corrigir” as coisas como deseja. Há certo exagero nessa leitura, mas é inegável que o filme fica ainda mais “simpático” se olhado assim.

“Bugonia”, então, versa sobre o fracasso da humanidade, e o personagem de Emma Stone resume essa tendência suicida: “A evolução seguiu seu ciclo, mas rumo ao caos. Os humanos lutaram uns contra os outros, num ciclo eterno de guerra, genocídio, destruição ecológica. Devastaram a Terra, arruinaram as águas, assolaram o clima, se envenenaram com drogas e tecnologia, e mesmo confrontados com provas irrefutáveis de sua autodestruição, continuaram sem parar. Pois não podem evitar o que são. Está nos seus genes”. Uou.

Para quem está familiarizado com o humor corrosivo que Lanthimos vem imprimindo em seu cinema, o desenrolar da história de ”Bugonia” reforça sua estética exagerada, sem tirar nem por. Ainda assim, e mesmo com seu tom amplamente fatalista (cada vez mais em voga num mundo dividido), trata-se de um delicioso filme B, menor dentro da filmografia brilhante do cineasta grego, para se ver de forma descompromissada, daqueles que Lanthimos deve fazer cortando as unhas do pé. Seria um filme ótimo para uma Sessão da Tarde… em outros planetas.

Sua presença na lista principal do Oscar, no entanto, é uma nítida carteirada de direção: se um novato tivesse feito “Bugonia”, nunca seria abraçado pela Academia (como, aliás, “Save the Green Planet!” não foi). Como é de Yorgos, o grego (com mão de, entre outros, Ari Aster na produção, que havia sido cotado para dirigir o filme, mas decidiu se dedicar a “Eddington”, praticamente um filme-irmão de “Bugonia” em vários termos), ele entra para fazer figuração na lista (ao lado de uma grande bobagem como “F1”, que corre o risco de levar algum Oscar técnico), pois não tem nenhuma chance. Mas merece (e muito) ser assistido e valorizado e discutido como o bom filme B que é.

– Marcelo Costa (@screamyell) é editor do Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne.

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