texto de Luiz Spinelli
Todo ano há um disco que passa meio despercebido e depois vai sendo redescoberto, aos poucos se tornando objeto de culto. De 2025, bem que poderia ser esse “Yes, Halloween / Stop That Noise“, que na verdade são dois álbuns lançados juntos e postumamente para registrar a produção autoral de Robby Cosenza (falecido em fevereiro de 2024, aos 50 anos), prolífico baterista, multi-instrumentista e vocalista de Lexington – a “capital do cavalo” e segunda cidade mais populosa do Kentucky.
Ao lado de Justin Craig e Andrew English, Cosenza é responsável por “Make Me Armored” (2006), disco de estreia e – infelizmente – único registro do The Scourge of the Sea, grupo que atualiza aquele rock adulto de FM dos anos 70 numa versão meio indie lado B, hoje uma arte perdida, mas que já teve Neil Young, Big Star e Teenage Fanclub como bons representantes. O disco é dos mais bonitos e isso ajuda a entender de onde vem a sensibilidade do Robby. Por um tempo, “Make Me Armored” foi difícil de encontrar, mas hoje está disponível nas plataformas digitais. Se você não ouviu, pare agora e faça esse favor a você mesmo.
Além do The Scourge of the Sea, o músico tocou em vários outros projetos, como Pontius Copilot, The Apparitions, Vandaveer, These United States e Horse Feathers, mas nunca havia lançado material próprio sob o nome The Fanged Robot, o que torna tudo ainda mais triste, porque o disco é belíssimo e não deixa esquecer o quanto a morte de Cosenza, vítima de um câncer raro, foi precoce.
Na prática, o álbum são dois discos. “Yes, Halloween” (acima) corresponde às faixas mais antigas, gravadas entre 2010 e 2020, com o músico à frente da maior parte dos instrumentos. É o lado mais solar e pop do disco duplo, com o tradicional combo “guitarra, baixo e bateria” dialogando com teclados e melodias vocais típicas de artesãos da música. Após esperar mais de uma década para ouvir essas faixas, o ex-companheiro de The Scourge of the Sea Andrew English (aka Englishman) definiu o registro, em entrevista recente, como “my favorite record of all time”.
Já “Stop That Noise” (abaixo) foi gravado em 2023, com o baterista já enfrentando a doença e com o The Fanged Robot assumindo uma formação mais consolidada como banda, com Robby cantando, tocando guitarra e percussão. As canções revelam uma melancolia dolorida escondida sob letras irônicas. Musicalmente, ecos de glam rock à la T. Rex encontram Harry Nilsson, em composições que parecem ter saído de zines de ficção científica inspirados por seriados como “Anos Incríveis”. É assim brilhante.
No total são 19 faixas e embora sejam dois registros diferentes juntos, há uma unidade e conceito, que é revelar a pessoa por trás do The Fanged Robot. E é irônico que um músico que ajudou tantos artistas a compartilharem suas músicas só tenha a sua arte mais pessoal compartilhada agora. Canções como “El Chupacabra”, “Stop That Noise” e “Where, Oh Werewolf” são preciosidades. Nesta última, a letra afirma: “Well I’d rather be a werewolf than a human being”, ecoando “Minha coisa favorita é Monstro”, HQ de Emil Ferris, que talvez Robby Cosenza nunca tenha lido, mas que como The Fanged Robot ele realiza aquilo que os quadrinhos revelam: que os melhores artistas deste mundo são, na melhor perspectiva possível do termo, monstros.

– Luiz Espinelly, professor de literatura e guitarrista da Josephines: https://josephines.bandcamp.com/