Três shows: Autoramas, Pato Fu, Wado

textos de Marcelo Costa
fotos de Douglas Souza

Autoramas no Cine Joia, São Paulo, 9/1

Em novembro de 2025, Pato Fu e Autoramas dividiram uma noite no mítico Circo Voador, no Rio de Janeiro. Não era a primeira vez que as duas bandas dividiam a mesma noite (responsável pela curadoria do Festival Magnéticos 90, este que vos escreve já tinha reunido as duas bandas no Sesc Pompeia, em 2017), mas esse novo encontro tinha um “sabor” especial, afinal os mineiros celebravam 30 anos de “Gol de Quem?”, um de seus álbuns mais desafiadores, e o grupo de Gabriel Thomaz festejava 25 anos de “Stress, Depressão & Síndrome do Pânico”. A combinação deu tão certo – ganhando o nome extra-oficial de Patoramas – que uma data em São Paulo foi agendada para o começo do ano. Com direito a ingressos esgotados antecipadamente, o Autoramas subiu ao palco para tocar seu debute praticamente na íntegra (a instrumental “Bahamas” ficou de fora) e demonstrar que continua em forma e rooooock. Os indie hits “Fale Mal de Mim” e “Carinha Triste” abriram a noite de forma impecável, e se a voz e postura mais rock gritado da tecladista Luma Garcia não combinam tanto com a delicadeza impressa por Simone do Vale à pungente versão original de “Agora Minha Sorte Mudou”, a nova integrante (que entrou na banda em 2024 junto ao baterista Igor Sciallis) casou perfeitamente com esse novo Autoramas, mais feliz e desencanado, e que ainda conta com o grande baixista Jairo Fajersztajn. As poderosas “Autodestruição”, “Jogos Olímpicos” e “Eu Não Morri” renderam grandes momentos, e – dispensando a cover manjada de “These Boots Are Made for Walkin’” – o final com as intensas “Abstrai”, “Nada a Ver” e “Você Sabe” apenas demonstraram o quanto a banda cresceu e se tornou um dos grandes nomes do rock brasileiro neste século após seu ótimo debute. É sempre bom valorizar e festejar o passado, mas que eles sigam mirando o futuro, pois o Autoramas ainda tem muita lenha pra queimar.


Pato Fu no Cine Joia, São Paulo, 9/1

Em agosto de 2025, o Pato Fu desembarcou na Audio, em São Paulo, com um time especial de convidados – Zélia Duncan, Bnegão, Tom Zé e Coral – e um grande aparato de produção para registrar a noite (em áudio e vídeo) que celebrava o disco “Gol de Quem?” para um futuro lançamento. O resultado foi um show absolutamente impecável, tanto na parte visual quanto sonora, um dos melhores dos mineiros na capital paulista. O que, por si só, já criava uma enorme expectativa para o primeiro show do grupo no Cine Joia, um ambiente que necessita de atenção para ser domado (como exemplo, se o Turnstile fez uma apresentação antológica na casa em 2022, Amyl and the Sniffers sofreu com o som baixo no velho cinema em 2025). No caso dos Fus, porém, a dúvida foi escanteada logo no hino “Mamãe Ama é o Meu Revólver”: com um som cristalino e um pedal insistente que havia gravado a voz de um dos técnicos na preparação do palco, a canção do gênio Rubs Troll foi cantada em coro pelos presentes enquanto Fernanda Takai, com domínio pleno do palco, dançava e regia o o público esperando que os roadies resolvessem o imbróglio. Problema resolvido, esse início atípico de show deixou a noite mais leve, e a banda mineira fez outro passeio impecável tanto por seu disco festejado (as ausências de “Onofle” e “Sertões” foram sentidas) quanto por hits (“Perdendo Dentes”, “Canção Pra Você Viver Mais”, “Depois”, “Antes Que Seja Tarde”) e lados b (“Imperfeito”, “Deus”, “Simplicidade”). O único senão foi o repertório praticamente “control c control v” do show na Audio, pois, com um carreira repleta de grandes canções amadas pelos fãs (esses que esgotaram os ingressos do Cine Joia e conhecem pepitas de ouro como “Little Mother Of Sky”, “1 de Vocês”, “A Necrofilia da Arte”, “Um Dia, Um Ladrão”, “Tribunal de Causas Realmente Pequenas”, “Sorria, Você Está Sendo Filmado”, “Amendoim”, “Nunca Diga” e “Tudo Vai Ficar Bem”, entre tantas), o grupo pode trocar ao menos duas músicas do set list por show tornando cada noite única para seu público. Ou seja, é um show de altíssimo nível, impecável, mas que pode melhorar. Quem sabe na próxima vez…


Wado no Sesc Pompeia, São Paulo, 16/1

Wado é um tesouro da música brasileira deste século – vale ler o que Carlos Eduardo Lima (no Célula Pop), Mauro Ferreira (no G1) e Ricardo Schott (no Pop Fantasma) escreveram sobre “Obstrução Samba”, seu 14º disco, também presente na lista de melhores discos de 2025 da APCA. Por isso, toda oportunidade de assisti-lo ao vivo não deve ser desperdiçada. Dessa vez em formato trio, assumindo o violão com Rafa Moraes (Retirante Cósmico) arrasando nos riffs de guitarra e Renato Lellis firme na bateria, Wado voltou ao Sesc Pompeia (assim como em 2013 e 2017) para conduzir um público fiel pelo universo samba rock de seu trabalho mais recente, ainda que o repertório tenha pendido mais a contemplação, numa opção escancarada pelo próprio artista: “Meu primeiro disco é de 2001, e de 2019 pra cá, meus discos novos são mais ouvidos que os antigos, o que para mim é uma benção, porque estou meio de saco cheio de tocar coisas muito velhas (risos)”, comentou em certo momento da noite. Assim, das 10 primeiras canções do set, cinco saíram do novo “Obstrução Samba” e três de “A Beleza Que Deriva do Mundo, Mas a Ele Escapa”, belo disco de 2020, deixando a sensação de que faltou algo para o público reconhecer (e agarrar) nessa primeira meia hora de show (o que Paul McCartney defende como regra do W: o show começa no alto, vai caindo com músicas menos óbvias, sobe de novo, desce e sobe de novo) – a linda “Flores do Bem”, de “Vazio Tropical”, inserida no começo do show, auxiliou na contemplação. A noite se reconfigurou a partir de uma dobradinha do disco “Ivete” (2016): “Um Passo a Frente” e “Sexo” trouxeram os primeiros casais agarradinhos para a frente do palco, e eles ficaram ali para dançar “Estrada”, cantar o medley meio improvisado com os hits “Melhor” e “Com a Ponta dos Dedos”, e sacolejar nos ótimos xotes “Dente de Ouro” / “Bom Parto” (“Que são anteriores a João Gomes, não são fruto dessa modinha”, avisou logo Wado, elogiado-o na sequência: “Ele faz muito bem ao Brasil”). Para o final, a forte “Joana Dark”, a sempre irresistível “Tarja Preta” e a clássica “Uma Raiz é Uma Flor” fecharam o show em altíssimo astral.

– Marcelo Costa (@screamyell) é editor do Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne.
– Douglas Mosh é fotógrafo de shows e produtor. Conheça seu trabalho em instagram.com/dougmosh.prod

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