entrevista de Leonardo Vinhas
“Eita”. Uma interjeição que quase sempre é sucinta e explícita para expressar surpresa, assombro, desassossego. E que, em algumas situações, parece ser a única coisa possível a dizer. Essa foi a palavra escolhida por Lenine para sintetizar o conceito de seu novo álbum – o primeiro de estúdio em 10 anos –, uma proposta musical tão imersiva que levou o pernambucano a fazer um filme, dirigido pelo próprio em parceria com Kabé Pinheiro e Laís Branco, para tentar se assegurar que o ouvinte realmente mergulharia pelo universo criado pelo autor, sem fragmentar a audição conforme a conveniência e a (des)atenção do momento.
“EITA” (2025), em caixa alta, batiza disco e filme. O último teve uma única exibição até o momento, em São Paulo, pode vir a rodar em mais capitais, mas já está disponível no Youtube (assista abaixo), assim como o álbum está nas plataformas. CD e vinil, porém, só verão a luz do dia em 2026, assim como a turnê feita a reboque do álbum.
Nesta entrevista concedida por videoconferência ao Scream & Yell, Lenine explicou esse cronograma peculiar de lançamentos. Mais importante, porém, é que a franca conversa foi muito além de questões práticas, abordando trauma pandêmico, fadiga social, criação artística, tempos fragmentados, posicionamento político, esperança para o futuro e música contemporânea brasileira.
Antes de adentrarmos na conversa, porém, vale o aviso: “EITA” é um dos álbuns mais brilhantes e equilibrados de Lenine. Em suas 11 faixas, o disco certamente “passa seu recado” de crítica, reencontro e esperança, mas o faz com uma estética poderosa, em que as referências de música nordestina que sempre estiveram presentes na música de Lenine dialogam com o presente.
Lenine nunca se propôs a ser o acadêmico que resgata tradições, muito menos o preguiçoso que põe uma roupagem moderninha em cima de estruturas consagradas. O que acontece em “EITA” – e já acontecera no excelente “Carbono” (2015) — é o refinamento daquilo que o músico vem construindo desde seus primeiros trabalhos: a ideia de uma música brasileira contemporânea, que olha para os lados em vez de só olhar para trás. Tal como seu conterrâneo Siba (que também participa desse disco) e como foi com o também pernambucano Chico Science, a ideia sempre é usar o regional para falar de maneira global, criando o que o jornalista Carlos Eduardo Lima já chamou de “música brasileira mundial”.
Essa receita estava em todos os álbuns de Lenine, mas nos dois últimos parece ter atingido sua melhor destilação. São álbuns fortes, com uma energia sentida mesmo nos momentos mais introspectivos, com a elegância de quem sabe que, independente do traje que escolha, precisa manter os pés sujos de terra para lembrar que a caminhada é de verdade. Ouça o disco abaixo e leia a conversa.
Tem muitas perguntas que quero fazer sobre o disco novo, mas acho que é necessário começar pela mais óbvia. São 10 anos desde o último disco de inéditas. O que motivou essa pausa tão grande, e o que foi necessário para te tirar dela?
Então vamos por partes. Sim, são quase 10 anos de um disco de estúdio, mas em 2018 eu fiz um disco ao vivo também com inéditas, que foi o “Em Trânsito”, então não foi um hiato tão grande. Mas teve a pandemia, cara! Teve o fascismo no Brasil, teve o nascimento prematuro do meu quinto neto – filho do Bruno, produtor do “EITA” – que foi algo que mobilizou a família, foram três meses de internação. Então, teve alguns fatores que me levaram a dar esse tempo que parece ser um hiato, mas não foi hiato, não. Eu estava distante, sim, porque fiquei depressivo, mas mais da metade do Brasil ficou (risos). Todos nós sofremos, principalmente quem trabalha com o sentimento, com a emoção, com com o coletivo, sofreu bastante. Eu sofri junto. Só que isso me levou a questionar o que eu fazia. Portanto, achei que não queria mais fazer, não queria mais viajar, não queria mais fazer disco. E levei um tempo para fazer as pazes comigo mesmo. Acho que o “EITA” tem muito essa característica. É um disco que surge porque… veja bem, eu tinha começado a fazer um disco novo em 2019, um pouquinho antes da pandemia. Já estava fazendo um esboço, como eu faço sempre: tem o título, eu imagino umas coisas em volta desse título, e faço um esqueleto para ir atrás das canções, mas penso sempre num relevo de um romance, como se cada música fosse um capítulo desse romance. Eu já tinha esse esboço, e tinha me esquecido. Então, depois de todo esse evento que passou e eu não queria mais fazer show, inclusive não queria mais dividir palco com praticamente ninguém… Mas continuei sempre fazendo participações, porque sempre fiz na minha vida. Gosto muito de fazer isso: quando alguém me chama para dividir uma canção, para fazer alguma coisa junto. Bruno [Giorgi, músico e produtor do álbum], por sua vez, (estava) trabalhando com tudo que é banda indie, ele produz, mixa, masteriza. Ele tem um espectro muito amplo dos universos que rodeiam o fazer música, sabe? E ele estava sempre trabalhando com muita gente e as pessoas quando sabiam que ele era meu filho, me convidavam. Participei com Anavitória, com Angra, com Tuyo, com Far from Alaska… Então assim, eu estava sempre participando. E diante dessa procura, Bruno me disse: “Pô, vamos nos encontrar toda quarta-feira para fazer essas demandas todas, e a gente retorna a se encontrar no estúdio, o estúdio é nosso”. E na primeira quarta-feira que houve, além de gravar uma coisa, ele me mostrou o “proto-EITA”, que eram ali cinco canções mais ou menos, que eu já tinha meio que esboçado. Quando ele me mostrou, eu disse “eita!” (risos) Uma redundância, né? Mas eu falei: “Eita, aqui tem um caminho”. E eu e ele idealizamos um um show que eu poderia fazer sozinho, já que eu não queria dividir palco com ninguém. A gente fez um espetáculo chamado Rizoma, que me trouxe até aqui (nota: turnê que repassava parte do repertório de Lenine apenas com o músico e Bruno Giorgi no palco). Eu fui só interagindo e botando mais gente além de eu e ele, fui ampliando aos pouquinhos. Primeiro chamei o Pantico [Rocha], que é um cara que toca bateria comigo há muitos anos. Aí depois entrou o Gabriel [Ventura], outro guitarrista, parceiro do Bruno em algumas bandas. E foi assim que eu fui saindo desse isolamento artístico que eu mesmo me impus.
E que nunca foi a sua tônica, né? Você sempre foi um cara extremamente colaborativo e gregário.
Sim, sim. Sempre atuando no coletivo. E tinha essa coisa de que o tempo entre os discos era assim de uns 2 anos e meio, 3 anos. Dava tempo para você percorrer tudo que queria e aí estava pronto para fazer um projeto novo. Então o “EITA” tem tem muitas peculiaridades e por causa de muitas coisas, né? Quando a gente retomou a coisa, aí já foi numa velocidade… Porque aí eu tinha redescoberto a miopia de minha parte (risos) de achar que eu poderia viver sem música (risos). Essa foi a primeira vez que achei que eu poderia viver sem o palco, e eu acho que o mais importante de tudo é o palco! Eu faço música para fazer disco, para aí fazer um show para ir nos palcos do mundo. Então assim, ter readquirido essa concretude no meu fazer, tudo foi muito rápido e eu segui insistindo na ideia da imersão, e não fazer um amontoado de canções e um single com um feat no qual se aposta tudo, e se em 15 segundos você não pegar o ouvido do outro (risos), o cara já mudou de música… É uma urgência que a gente vive hoje em dia, uma velocidade estonteante, e eu aposto nesse anacronismo de continuar fazendo álbuns e querer promover. Daí eu fiz o filme, por querer promover essa imersão durante ali 30 minutos de música inédita. Foi isso que me levou a fazer o filme, inclusive.
Essa velocidade de hoje em dia nem mesmo é uma velocidade nossa: é das máquinas. E a gente está justamente fazendo o oposto: se antes a ideia era usar a máquina para adequar as tarefas ao nosso tempo, atualmente a gente está tentando se adequar ao tempo delas.
E não existe! O dia só tem 24 horas (risos). Então assim, esse tempo de você estar aberto a uma novidade, a uma coisa que você está vendo pela primeira vez, para mim faz parte de um ritual de ouvir música. Para mim, é a coisa mais natural do mundo, mas sinto que hoje em dia essa coisa praticamente não acontece. Praticamente não acontece. E eu continuei, continuei insistindo nessa possibilidade de promover uma imersão num disco, pensando o que seria, ou melhor, pensando o que ele é: um romance sonoro, e que é importante que você ouça naquele desencadear de canções que estão narrando uma história. Eu queria dividir isso com todo.
Diante disso, é muito interessante que você fecha esse romance com um recado não necessariamente antissocial, mas com uma música meio pé na porta, “Motivo”.
(risos) Sim.
Isso é bem um reflexo não só da história que você queria contar, mas também acho que de todo esse período que você viveu, né, de uma dificuldade de socialização, de sobreviver ao fascismo brasileiro e tudo que a gente viveu nesses últimos tempos.
Um fascismo planetário! Não é só no Brasil, ficou mais evidente pra gente porque a gente está vivendo aqui, mas toda essa desconstrução da realidade está acontecendo de uma forma planetária, velho.
Desculpe perguntar, mas você tem quantos anos mesmo?
66.
Esses dias, estava conversando com um outro músico, mais ou menos da sua idade, e perguntei para ele se ele se lembrava de ter vivido algum período mais assustador do que o atual. Ele me disse que não. Considerando tudo aí que você colocou, você diria também que nesses 66 anos nunca viveu um período tão assustador quanto o atual?
Sim, mas em compensação, a gente está num processo de readquirir esperança, né? E foi fundamental a gente ter ido tão fundo no poço. Eu tenho claramente na minha cabeça que ainda vai demorar muito pra gente voltar a algum tipo de normalidade social em benefício do coletivo. Mas eu continuo esperançoso e acreditando no ser humano, porque era mais fácil eu brigar com o mundo. E por um momento eu realmente… Por sorte, eu também tenho também outras paixões, como a botânica (o rosto de Lenine se ilumina), que me supre tanta coisa até hoje. Eu achei que poderia viver distante disso, porque questionei tudo isso e esse questionamento estava sempre em função do coletivo, cara. Eu sempre acreditei nisso. Bom, meu nome não é artístico, né? (risos) “Lenine” não é artístico (nota: o nome de batismo é Oswaldo Lenine Macedo Pimentel)! Eu tive essa formação socialista. Então isso fazia todo o sentido pra mim. E quando perdeu o sentido como humanidade, isso me abalou profundamente. Agora, eu acho, diferentemente do cara com quem você falou, que a gente está começando a respirar. Eu acho que pro mais fundo do poço a gente já deve ter ido, ou pelo menos eu espero, apesar de ver o que o Congresso fez essa noite (nota: a entrevista aconteceu no dia seguinte ao Congresso Nacional ter se aproveitado de uma confusão com um protesto do deputado Glauber Braga para, durante a madrugada, aprovar a chamada PL da Dosimetria, reduzindo as penas dos condenados pelos atos de 8 de janeiro de 2023, e também o Marco Temporal, que alterava significativamente a demarcação de terras indígenas), tomando conhecimento que na confusão do Congresso, o Senado votou a história do Marco Temporal, tudo acontecendo às claras… É uma realidade muito esquisita que a gente continua vivendo!
Quando a gente começou a ter algum ensaio de volta à normalidade pós-pandemia, o primeiro show que eu fui assistir foi do Siba, que está com você no “EITA”, e eu lembro de uma sensação de trauma coletivo no show, público e artistas com essa sensação de terem vivido algo muito intenso e traumático. E até por isso, foi um show muito catártico. Lembro do Siba falando : “Olha, é difícil voltar aqui depois de tudo que a gente viveu, mas é necessário”. E arrisco dizer que muita gente ainda não entendeu o tamanho do estrago que foi a pandemia, tanto no individual quanto no coletivo.
Sim, não tenho dúvida nenhuma. Mexeu profundo, cara. Rachou as famílias, esse momento foi fundo na história da desconstrução da realidade. As pessoas cuspindo imbecilidade e dissimulação na sua cara. Eu fui ensinado, e a vida também corroborou, que você tem que confiar no outro até que se prove o contrário. A premissa não pode ser “se eu não te conheço, eu não confio em você”. Não! Minha mãe me educou diferente: “Se eu não te conheço, aí eu confio em você, porque não tem nada que deponha contra você”. Então essa questão mais humanista, digamos assim, de um bem coletivo e da empatia de você se pôr no lugar do outro, isso a gente está procurando voltar a ter. Não por acaso, a primeira música do disco se chama “Confia em Mim”, porque a confiança foi o que mais abalou, cara. As pessoas perderam a confiança no outro e se cultivou o egoísmo como o pão de cada dia, “eu tô pensando em mim e foda-se o resto”. Então isso me abalou profundamente, porque eu tive essa formação socialista e penso nos outros. E quando você vê que nada corrobora, nada da realidade corrobora no que você pensa, no que você age, vai muito profundo, né? Esse também foi um dos motivos pelos quais eu fiquei recluso e querendo distância de tudo isso, até o momento de reafirmar que não. Através das minhas ferramentas, eu preciso batalhar pela volta do pensamento coletivo, pela volta da humanidade, pela volta da empatia pelo outro.
No “EITA”, me chamou atenção o quanto as letras são diretas. Você tem muitos formatos líricos que usa ao longo da sua carreira, mas eu tenho a impressão que esse é o seu álbum onde as letras são mais diretas – no sentido de ser uma prosa muito clara, com bem pouca margem para equívoco naquilo que você quer dizer. Quer dizer, tem a história que você quer contar, mas eu entendo que também tem um fincar o pé, né, um ato de marcar sua posição.
Tem toda essa pessoalidade e esse ato de me impor como expressão. Isso está realmente muito presente na questão toda, mas eu preciso voltar um pouquinho para falar de uma coisa que toda essa distopia que a gente viveu me levou, porque eu acho que o “EITA” é muito fruto desse voltar a respirar, sabe? O “EITA” tem essa função de dizer para mim mesmo: “Meu Deus, em que em que realidade eu me encontro?” Isso tudo teve uma certa… “Uma certa”, não – foi a totalidade da pessoalidade disso. E não por acaso, nesse disco estou muito mais presente nas letras. Mesmo nas parcerias que fiz com o Gabriel, com todos, estou muito presente nas letras, na “parte vernacular”, digamos assim. Isso também corrobora essa questão de ser assim, de não ter muito tempo a perder. Eu sou muito objetivo e direto no que eu faço. Eu continuo procurando a síntese, isso está sempre presente, mas um grande foco do projeto todinho foi a minha intimidade. Todas as pessoas que participaram, todas as pessoas que tocaram, são todas pessoas com quem eu tenho a intimidade como ferramenta de aproximação. Então assim: eu chamei a (Maria) Bethânia porque eu tenho intimidade com ela, nós temos relação suficiente para eu dizer: “Cara, canta isso pra mim?”. Com cada um, com cada núcleo – porque cada música do “EITA” foi com núcleos diferentes de músicos – eu tinha a intimidade como escudo e espada. Por tudo isso, o “EITA” tem essa pessoalidade, essa síntese, e o afeto como mola propulsora, o afeto como trampolim. A “Confia em Mim” eu dedico a um futuro de afeto. Então, está tudo muito alinhavado com essa noção que você sacou de objetivo, direto e sem muita firula.

Sobre essa pessoalidade, tem uma coisa que me chamou atenção no material de imprensa: ele destaca o caráter “pan-nordestino” do disco, vamos dizer assim. Mas isso é muito presente na sua obra há um bom tempo, e no “Carbono” (2015) em especial, tanto que você mesmo chegou a defini-lo como o seu disco mais nordestino até aquele momento. Aliás, em uma resenha desse disco que o Carlos Eduardo Lima fez para o site MonkeyBuzz, ele definiu o disco como “música brasileira mundial”, e eu achei esse uma maneira muito interessante de apresentar o seu som para alguém que nunca o ouviu antes. É aquela coisa de usar o regional para falar com o global, que você faz desde sempre, mas que no “EITA” e no “Carbono” vem com muita contemporaneidade.
(Emocionado) Que massa você falar isso, Leonardo! Corrobora tanta coisa, cara. Porque sim, eu sempre usei subterfúgios para tirar o que eu fazia de algum tipo de limite, e a MPB, essa sigla era muito limitadora para mim. Então eu usava MPB como “música planetária brasileira”, outras vezes eu usei como “música plural brasileira”, mas na verdade você me deu a janela para eu falar do que eu acredito hoje em dia, que é a MCB, “música contemporânea brasileira”, cara! E você tirou todas as palavras que eu estava aguardando para lhe dizer (risos) e você disse a mim isso. E vou mais: eu acho que esse essa movimentação da música contemporânea feita no Brasil começa com Milton Nascimento. Milton Nascimento botou a música brasileira noutra conjugação. Não era mais raiz e antena, ele estava chegando no planetário e no divino. Você não precisava provar mais nada para ninguém. Assim, tudo ficou de uma contemporaneidade gigantesca e muito mais abrangente, porque aí quando ouço um Matuê ou um Jota.Pê (risos), tudo pra mim é música contemporânea brasileira. É uma sigla que é muito mais atraente para mim, muito mais aberta e fala da realidade, do que está sendo feito hoje, agora. É contemporâneo por causa disso mesmo. Então, que massa você falar isso, corrobora tudo que eu acho mesmo. Eu sou um representante da MCB, música contemporânea brasileira.
Acredito que a música brasileira que perdura, que atravessa a história, ela sempre teve essa contemporaneidade. Eu tenho 47 anos, então quando na minha adolescência aparecem Chico Science, mundo livre s/a, Banda Eddie, minha cabeça virou no avesso. Porque até então eu achava que eu não gostava de música brasileira! (risos) Mas aí, ouvindo aquelas coisas todas, meu pai vem e fala, “olha, bem bacana esse pessoal novo que está surgindo, mas acho que você vai gostar desse cara aqui, que já fazia umas coisas assim há muito tempo”. E aí ele me dá uma fita K7 do Alceu Valença! (risos) Porque Milton, Alceu, Chico Science que traziam o passado na bagagem, mas na hora de criar olhavam para os lados e para a frente, não para trás. São músicas afinadas com o tempo presente, como também são as suas. E me parece que esses últimos discos são ainda mais afinados com o tempo presente do que os outros. Não que os anteriores não fossem, mas me parece que o “Carbono” e o “EITA” trazem para o ouvinte tudo o que ele sabe sobre o Nordeste, mas também um monte de coisas que ele não sabe (risos), e tudo apresentado numa linguagem que não é nem acadêmica, nem antropológica, muito menos aquele folclore engessado. O que eu ia te perguntar sobre isso tudo (risos) é algo que você meio que já respondeu: tudo isso vem de uma maneira consciente, né?
Ah, completamente consciente, amigo. E você não sabe a felicidade que você está me dando percebendo dessa maneira, porque isso tem uma importância muito grande para mim, essa autoralidade com a qual me impus e que persigo, no jeitão de como eu faço as melodias, no jeitão como eu toco, o jeitão como eu canto. Isso tudo é uma hibridagem, mas que só é verdadeira hoje e agora para mim. Esse acúmulo de experiências ao longo do tempo não me distanciou dessa alma do criador, de estar sempre procurando chegar um pouquinho mais além, mas está tudo ali, tudo sempre esteve ali. Eu só vou aprimorando com o tempo essa hibridagem, digamos assim, que começou lá com “Olho de Peixe” (1993). Na verdade, começou lá com “Baque Solto” (1983), com Lula Queiroga, já estava ali o alicerce do tipo de hibridagem que eu queria visualizar.
A primeira vez que eu te vi ao vivo não era um show só eu, mas foi o projeto “Os 5 no Palco” (nota: turnê por diversas unidades do SESC-SP que uniu Lenine, Marcos Suzano, Chico César, Zeca Baleiro e Moska). Já ali, mesmo com um formato majoritariamente acústico, você trazia essa contemporaneidade, especialmente nos momentos em que só ficavam você e o Suzano em cena. Mas o que chamou minha atenção ali era que, de todos os cinco, você tinha uma atitude mais roqueira (Lenine ri), você chegou a encaixar “Roots Bloody Roots”, do Sepultura, como uma música incidental.
(ri novamente), É verdade!
Então, vêm aí duas perguntas dentro de uma: a primeira é o que você tem ouvido, o que tem chamado sua atenção nesse lado mais roqueiro, e a segunda é o quanto essa ideia do rock, mais em conceito do que em sonoridade, faz parte dessa sua música contemporânea brasileira.
Pô, faz muita parte. Hoje em dia eu me lembro do impacto que foi ver e ouvir o Matuê, e acho que o trap tá fazendo o que o rock já fez, está ali atuando da maneira contestadora que o rock já atuou. E aí, nesse sentido, eu reconheço isso quando ouço o Matuê, entendeu? É muito importante a gente ter a clareza de que a música é uma coisa que está acontecendo, está rolando, ela vai se transformando, cara. Eu tento fazer isso com os discos que faço, com as músicas que eu faço, isso de estar antenado com a minha cabeça hoje. Eu sou um ser humano, cara, e hoje estou achando um negócio, amanhã eu posso estar achando outro, mas o que liga todos esses achismos que eu posso ter foi a base da minha formação. E como você bem me lembrou, é roqueira, cara. É o [Led] Zeppelin na veia, é o Police na veia, sabe? Acho que isso está muito presente quando você ouve um “Deita e Dorme”, um “Rumo do Fogo” (nota: ambas faixas de “EITA”), nelas estão o rock que sempre esteve presente na minha vida. Está ali o trap de hoje em dia também. Sim, eu sou roqueiro, cara. (risos)
Outra coisa que você é já há um bom tempo é dono da sua música: você mesmo é o responsável pela produção fonográfica e executiva, edita suas músicas, você tem o seu selo (Casa 9). Se isso já não era simples quando ainda existiam os formatos físicos, hoje é mais ainda, né? Então eu queria saber desse ponto de vista mesmo da sobrevivência do artista, como que está esse mundo pós-pandemia para você? Você ainda lança os discos em CD e vinil, o que é uma despesa muito grande, e precisa fazer show, remunerar dignamente todo mundo envolvido, manter uma cadeia funcionando. Como isso está funcionando para você?
Estou aqui, ó (faz mímica de malabarismo), de equilibrista. Agora, eu tenho que ser honesto: eu fui descobrindo uma maneira de me pôr nessa indústria, e pra maioria dos brasileiros médicos que conhecem um pouco do que eu faço, eles me vêem como uma pessoa da indústria, do universo da indústria musical. Acho que são poucos como você que entendem que eu tive um processo todo independente que permeou a minha vida. Produzi os discos porque não tinha ninguém para produzir, e eu não tinha como estudar isso, então aprendi fazendo. Mas isso determinou uma artesania, um artesanato no fazer que também me trouxe até aqui, e isso me bota num lugar diferente de todo mundo. Vejo muito claramente que o fato de eu ser o dono da minha obra me bota nessa questão, me tira do universo só do entretenimento e me bota no lugar da educação, me bota no lugar da crônica, no lugar do jornalismo. Então isso para mim é muito importante. O mais importante de tudo é que não gosto de ser confundido. Eu construí minha trajetória, cara! Fui eu mesmo, não foi ninguém, não. Fui eu. Bom, eu também tive a sorte de encontrar um Suzano e um Denilson Campos (nota: produtor de “Olho de Peixe”) no momento certo e dizer: “vamos fazer?”, e eles responderem “bora fazer”. Eu tive a sorte de encontrar um Chico Neves, que disse: “Vamos fazer ‘O Dia em que Faremos Contato’ (1997)”. (enfático) Eu tive a sorte de descobrir muito cedo Tom Capone (produtor de “Na Pressão”, de 1999, e co-produtor de “Falange Canibal”, de 2002, já falecido). Eu tive grandes parceiros e tive a sorte de ter esses parceiros me ajudando a fazer o trabalho que eu faço. Isso agora continua com quem? Com meu filho, Bruno, que desde o “Chão” (2011) vem produzindo meus discos. Então, eu tive essa sorte também, sabe, de continuar progredindo na minha procura, de entender como se faz e como se propaga a música, mas a sorte também de ao longo desse processo ir formando parceiros e aprendendo com eles. Isso criou a minha trajetória, eu fui construindo cada pedra do caminho, cada degrau dessa escada, eu sei como eu fiz e sei porque fiz.

Nessa sua trajetória, que já são de mais de 40 anos, você deve ter visto muita gente boa que não conseguiu sobreviver dentro dessa indústria, gente de talento, que poderiam ser bons nomes dessa música contemporânea brasileira, mas não sobreviveram ao mercado ou a si mesmos.
Muitos, cara. Muitos, muitos! E não é só agora. Isso sempre foi assim. Talento não significa isso tudo que a gente pode achar que signifique não, cara (risos). Não é só o talento. (sério) O talento tem uma função incrível na permanência. Permanecer requer talento para isso, porque as mudanças estão acontecendo, as coisas sempre mudando, e você permanecer coerente e num caminho diante de tanta mudança é o mais difícil. Você há de ter talento, e mostrar esse talento, para poder permanecer. Acho que eu não sou referência, penso ser mais uma exceção por ter construído a minha carreira dessa maneira. Meu processo foi todo artesanal, e como eu te disse, tive a sorte da vida me botar na frente diversos parceiros que me ajudaram muito a formatar o que eu faço, me ajudaram demais a chegar aqui.
Tem alguém que você lembre especificamente, assim de bate-pronto, como exemplo de gente que tentou e acabou sucumbindo?
A lista é gigante, gigante, gigante… Eu podia falar por região ou por estado, cara (risos). Porque também como a música é muito generosa comigo, ela me leva para todo canto. E a minha música ter esse sentido mais libertário traz até mim pessoas que, como eu, sonham em fazer um trabalho diferente e ser reconhecido por ele. Mas muito talento já passou e não significou sucesso, não significou permanência, porque tem mais coisas em jogo quando isso acontece – agora cada vez mais, porque a indústria toda mudou de tal maneira que eu e toda a minha equipe, todo mundo que está trabalhando comigo, a gente teve que reaprender como é que se faz, como se lançar no mercado. Tanto é assim que eu só vou lançar o “EITA” materialmente no ano que vem, quando tiver estreando o show homônimo, vai ter também o CD e o vinil disso. Quer dizer, eu acabei de lançar um disco que existe na nuvem! (risos) É uma coisa muito louca e muito nova para mim.
Já que você falou do show: o “EITA” nasceu originalmente para ser uma coisa que você não tivesse que dividir palco com ninguém.
Sim.
Mas ai você fez o “Rizoma” só com você e o Bruno, e agora imagino que essa nova turnê vai ser menos solitária..
É, eu repensei, mas não abri mão de só dividir o palco com quem eu admiro, com quem eu tenho intimidade. Com quem eu admiro não somente o músico, (enfático) eu tenho que admirar também o ser humano. Eu me impus isso como uma norma: só faço com quem eu gosto, cara. Eu tinha que melhorar o nível dessa coisa para continuar permanecendo por aqui, então isso de estar com quem eu admiro é uma questão fundamental. A banda com quem eu vou fazer o lançamento do “EITA” por enquanto tem o quarteto que me trouxe até aqui: o Bruno [Giorgi], que é produtor e músico, o Gabriel Ventura e o Pantico. Vai entrar mais gente, sim, mas eu nem posso lhe dizer isso agora.
E ainda do ponto de vista mercadológico, é meio maluco lançar um disco só na nuvem no fim do ano, né? Ninguém vai poder dar o “EITA” de presente de Natal (risos).
Mas aí eu tenho que ser honesto contigo. Na verdade, como eu quis fazer um filme quando eu terminei o disco, todos em volta disseram que eu ia ter que lançar em 2026, porque eu não ia ter tempo hábil para produzir o filme esse ano ainda. Mas o disco já estava feito, mixado, masterizado, e isso aos poucos foi me batendo muito errado. Eu não aguentava mais! Pô, já fiz o disco, já mixei, já masterizei, por que eu vou esperar até o próximo ano? E aí todos me diziam: “Não, porque você precisa de um tempo para poder produzir o filme”. Eu não aguentei essa pressão e disse: “Não, então eu abro mão do filme, mas o disco que eu quero lançar esse ano, eu não aguento mais ficar esperando.” Mais uma vez, foi Bruno quem viu a minha frustração diante do meu desejo de lançar o disco esse ano a ponto de abrir mão de fazer o filme, e me perguntou assim: “Mas, rapaz, tu não queria tanto fazer o filme, cara? A tua vida toda tu queria fazer cinema? Não foi, não é?” E eu disse: “Foi, é verdade”. Ele disse: “Então eu também nunca fiz, mas estou contigo, vamos fazer”. A gente se impôs até o final do ano (2025) para concluir o filme – e isso foi há dois meses, cara! (nota: essa entrevista foi realizada na segunda semana de dezembro, uma semana após o filme ter sido disponibilizado no YouTube) Foi muito corajoso da parte dele, mas muito solidário também. Aí isso vazou para todo mundo: Bernardo, o meu mais novo, disse: “Ah, estou aqui, eu faço assistência, estou com você”. Então, foi assim que aconteceu de a gente fazer o filme e se impor lançar simultaneamente com o disco, que era esse o meu desejo. Isso porque, com o filme, de alguma maneira eu impunha a imersão, a possibilidade de imersão. Você não vai ouvir uma música, um single. Não! Você vai ouvir o disco inteiro. Tanto é que o filme não foi picotado [em clipes], é para você ver na íntegra. O filme é o álbum filmado, e eu divido com esse público a minha intimidade. É isso aí. Se fosse só o disco, eu ia ter dificuldade para responder para você como é que é lançar um disco só na nuvem. Mas diante dessa novidade que foi fazer um filme do disco, fazer um filme para se ouvir diante de um disco que foi feito para se ver, isso me botou num outro lugar e tem outro tipo de materialidade, porque eu pude ver e apresentar pros meus o filme numa condição muito interessante, numa master Atmos, que é um sistema de uma espacialidade gigante – só alguns cinemas têm o número de caixas suficiente pra gente conseguir aquela tridimensionalidade que o Atmos consegue. E a gente fez isso. Foi uma novidade muito grande e muito feliz. Eu adorei, cara. Estou querendo fazer filme de novo. (risos)
Bom, pouca gente sabe que você fez é que você experiência no audiovisual com TV e cinema. Você fez músicas para dois filmes dos Trapalhões (“Os Trapalhões no Reino da Fantasia”, de 1985, e “Os Trapalhões no Rabo do Cometa”, de 1986), foi roteirista de esquetes do programa de TV deles…
Mais do que isso, também fiz um longa-metragem com Rodrigo Pinto, “Continuação” (2009). Quer dizer, eu já tinha tido essa experiência outras vezes com televisão, com cinema. Eu sempre procurei sobreviver de música, e ela, a música, pode conjugar vários verbos diferentes, pode dividir com várias expressões diferentes, seja no cinema, seja na televisão, (empolgado) seja nas trilhas do [grupo de dança] Corpo. Eu fiz duas trilhas pro Grupo Corpo e isso foi muito inovador para mim, muito estimulante. Por causa da experiência com eles, eu mudei muita coisa na minha forma de compor. Cada experiência nova que eu tinha ia incrementando esse meu vocabulário e aumentando o meu repertório.
O filme vai ser exibido em outras salas?
Não, não. A gente está querendo escolher cidades que tenham as condições similares às que a gente teve em São Paulo, para produzir essa imersão e fazer sessões com essa possibilidade de explorar a espacialidade, a masterização que o Carlinhos Freitas fez para o sistema Atmos. Cara, é um banho, é uma delícia! As coisas acontecem porque não é só surround, é como se fosse uma esfera. Então você ouve em cima, mas ouve também em cima atrás, em cima na frente, o som ganha uma dimensão completamente diferente. É uma experiência que todo mundo deve ter, é muito bacana.
Pra gente fechar esse papo: você falou que está sendo um momento de retomar a esperança, tanto a individual quanto a coletiva. E como a gente está pegando aí uma virada de ano, eu acho que é bastante justo, bastante oportuno perguntar qual é a sua esperança…
(interrompendo) Rapaz!… (risos)
Qual é a sua esperança para 2026?
A esperança para 2026 é a gente mudar esse congresso escroto e canalha que a gente está vendo aí. (enfático) A gente tem que mudar o Senado. Mudar o Senado! A gente tem que aprender a votar e tirar desse meio político esse fascismo que se estabeleceu no mundo inteiro, e no Brasil ainda mais. Pô, o que aconteceu no Congresso ontem foi inacreditável, cara. Foi inacreditável! A gente continua vivendo um momento muito delicado, mesmo com todos esses índices favoráveis que o Lula está nos dando, que o Brasil está mostrando. Parece que isso não conta. Você entende? A gente não saiu dessa da realidade dissimulada que foi imposta pra gente no Brasil. Ainda vai levar tempo, Leonardo. Isso ainda vai demorar muito, mas a gente pode começar isso para o ano já votando nas pessoas certas. E aí, cabe a nós também reverberar essa necessidade de mudar o cenário político brasileiro. Não dá para ser tão descarado, tão dissimulado, tão cretino, tão canalha. E é uma maioria. Lógico que eu não estou generalizando, não estou dizendo que são todos, mas a maioria do Congresso é canalha, está defendendo só os seus interesses e os interesses de quem banca eles. Está tudo comprado ou está quase tudo comprado.
– Leonardo Vinhas (@leovinhas) é produtor e autor do livro “O Evangelho Segundo Odair: Censura, Igreja e O Filho de José e Maria“.
Lenine foi um dos nomes mais perseguidos por aquela galera tipo Álvaro Pereira Jr, André Forastieri etc, naquelas campanhas contra mpb que eles promoveram e que tinham como alvos principais Chico Cesar, Zeca baleiro, Adriana Calcanhoto, toda a galera do tropicalismo etc. Foi um período sombrio do jornalismo cultural que fez com que uma galera virasse as costas pra música brasileira (teve uma entrevista com o Fábio massari que o cara perguntou se ele não tinha passado vergonha com a música brasileira no exterior). Vejo inclusive um pouco o eco disso na própria fala do vinhas de achar que não gostava de música brasileira. Aqui em Belém na redação do jornal em que trabalhava eu percebia essa influência ruim na galera que atuava no caderno de cultura. Todo mundo querendo ser gótico, pós punk ou coisa parecida. Milton Nascimento era velharia. Tempos estranhos.
Ismael, essa geração Folha/Bizz criou mesmo um ranço com a música brasileira. E como você notou, chegou sim, até mim – mas só na adolescência. A hora que escutei aquela geração de 94, não tinha ranço que fosse me impedir de gostar. Nessa mesma época fui conhecer Jorge Ben e Tim Maia, e aí as portas todas se abriram. Mas esse é meu caso particular: aquela geração realmente tinha uma postura depreciativa e exageradamente iconoclasta.