Crítica: “It: Bem-Vindos a Derry” expande, com louvor, o universo de horror de Stephen King

texto de Davi Caro

Controvérsias à parte, é quase impossível negar, ou ignorar, o apelo que as obras de Stephen King ainda geram em seus cada vez mais numerosos leitores, desde seu debut literário, “Carrie”, em 1974. Basta observar que, em 2025, o escritor nativo do Maine teve cinco de suas obras adaptadas, tanto para cinema quanto para TV: entre excelentes transposições de histórias menos conhecidas (“A Vida de Chuck”, de Mike Flanagan; ou “A Longa Marcha”, de Francis Lawrence) e interpretações inventivas, que voaram mais baixo no radar de muitos – tal qual a curiosa “O Instituto”, série da MGM; e o agitado longa “O Sobrevivente”, de Edgar Wright – o que transparece é uma reafirmação da universalidade das narrativas que King idealizou. Ou, pelo menos, de sua versatilidade, e de seu talento em construir universos inteiros à partir de enredos cativantes, personagens magnéticos, e um sutil foco em características e dilemas essencialmente humanos. Drama, ficção científica, fantasia: Stephen King contém multitudes.

E ainda assim, King ainda é, mesmo em 2025, mais celebrado como o mais notável (e debatido) escritor de horror de sua geração. E “It”, o horripilante épico em formato de calhamaço que o autor publicou em 1986, é uma de suas mais primorosas, arrebatadoras, e amedrontadoras criações. Além, claro, de apresentar um de seus mais icônicos antagonistas, na forma do demoníaco e sanguinário Pennywise, o Palhaço, e apaixonantes protagonistas, com o Clube dos Perdedores. Tamanha é a riqueza de detalhes impressos aqui por King que “It” já coleciona três adaptações diferentes: em formato de série, de 1990 (com Tim Curry no papel do vilão), e depois, sob a batuta de Andy Muschietti, para o cinema, com dois longas – o primeiro, de 2017, focado na primeira parte da trama (originalmente não-linear) e abordando o primeiro confronto do grupo de amigos, então crianças, contra a criatura assassina; e o segundo, de 2019, que avança a trama 27 anos, mostrando a derradeira batalha dos garotos, agora adultos, contra o palhaço. Neste caso, o monstruoso vilão foi encarnado, com perfeição, por Bill Skarsgard, em um de seus papéis de maior destaque.

Ao longo de suas cerca de 1100 páginas, no entanto, “It” vai além de simplesmente alternar entre duas épocas para narrar uma jornada tradicional. Em diferentes interlúdios, distribuídos entre um capítulo e outro e narrados pelo personagem do bibliotecário (e membro do Clube dos Perdedores) Mike Hanlon, o leitor é apresentado a diferentes informações sobre o município fictício de Derry, no Maine, que indicam que a presença e influência de Pennywise sobre a cidade e seus habitantes antecede, em muito, o conflito central do livro. E são estes interlúdios, dedicados a aprofundar a trama, que inspiram “It: Bem-Vindos a Derry” (“It: Welcome to Derry”, 2025), nova série desenvolvida pelo mesmo Andy Muschietti que tornou possível as mais recentes adaptações da história – junto da esposa e parceira criativa, Barbara – e ambientada no mesmo universo destes mesmos filmes.

Vale explicar: enquanto o material original se dividia entre as décadas de 1950 e 1980, o roteiro dos longas de 2017 e 2019 opta, por sua vez, por situar a narrativa entre os anos 80 e 2010, respeitando assim a ideia original dos ciclos de cerca de 27 anos que separavam um período de atividade de Pennywise do outro. A trama desta primeira temporada da nova série, baseada em um trecho discorrido durante os anos 30, foi, portanto, modificada: agora trabalhada para a década de 1960, o roteiro não apenas mantém a consistência narrativa e estética proposta anteriormente, como também consegue expandir o trabalho de Stephen King com respeito e dedicação.

Aqueles já familiarizados com o universo explorado antes não se surpreenderão ao saberem que os acontecimentos centrais de “Bem-Vindos a Derry” se iniciam com o assassinato macabro de uma criança – o garoto Matty (Miles Ekhardt), a primeira vítima da entidade demoníaca em um novo ciclo. O desaparecimento do menino, por sua vez, acaba unindo seus colegas de escola, determinados a acreditar que o amigo segue vivo em algum lugar. Assim, Lilly Bainbridge (Clara Stack), Teddy Uris (Mikkal Karim-Fielder) e os irmãos Phil (Jack Molloy Legault) e Susie Malkin (Matilda Legault) iniciam sua busca pelo colega desaparecido. Sua jornada acaba por incluir também Ronnie Grogan (Amanda Christine), filha de um operador de câmeras do cinema local, Hank (Stephen Rider), que eventualmente é acusado injustamente de um crime bárbaro.

Simultaneamente, o espectador é apresentado a Leroy Hanlon (Jovan Adepo), um major da força aérea americana que desembarca em Derry junto com a esposa, a ativista por direitos civis Charlotte (Taylour Paige) e o filho, Will (Blake Cameron James), que, por sua vez, junto do novo amigo de escola Rich Santos (Arian S. Cartaya), também acaba por se somar à Lilly e companhia, até que o caminho do grupo de crianças inevitavelmente se cruze com o de Pennywise (Skarsgard) e sua sede ancestral de sangue. O trauma familiar da garota Bainbridge, apesar da proximidade da melhor amiga Marge Truman (Matilda Lawler) acaba por desempenhar uma função fundamental para o desenvolvimento da trama, assim como os experimentos ultrassecretos desenvolvidos pelos militares à revelia da população, e dos quais o major Hanlon acaba se tornado parte – juntamente com outro membro das tropas: Dick Hallorann (Chris Chalk), um personagem com misteriosas habilidades mentais, e um nome que é mais do que familiar aos fãs mais atentos dos trabalhos de Stephen King.

Entrar em mais detalhes a respeito da trama de “Bem-Vindos a Derry” seria assumir o risco de expor o leitor a spoilers e arruinar uma experiência televisiva genuína. Basta dizer, porém, que o casal Muschietti procura subverter expectativas a todo momento, tomando liberdades na medida certa para fazer com que o novo projeto fuja do óbvio e possa apelar tanto aos já iniciados quanto aos aventureiros de primeira viagem. Para tanto, além de expandir com louvor a mitologia do imponente livro (além de ágeis alusões a outros trabalhos do escritor, entre o esperado e o surpreendente), a produção também se vale de um elenco espertamente escolhido. O núcleo infantil esbanja química e competência, com Amanda Christine, Blake Cameron James e Arian S. Cartaya como principais destaques: enquanto a Ronnie da primeira chama a atenção para si em cada cena da qual participa, e o afável Will do segundo contrasta com a trama muitas vezes sombria, é o Rich do último que se mostra a grande arma secreta dos intérpretes mirins, e sua participação na série deve, na certa, se tornar uma das mais marcantes de toda a produção.

Já o elenco adulto também tem suas figuras de destaque. A dinâmica de Jovan Adepo e Taylour Paige como o casal Hanlon é um dos cernes emocionais da narrativa, com a natureza disciplinada de Leroy criando uma tensa relação de oposição com a postura questionadora e combativa de Charlotte, em atuações dignas de nota. Por falar nisso, Chris Chalk pode ser considerado a verdadeira arma secreta do elenco: seu Dick Hallorann não apenas faz jus às interpretações previamente vistas do personagem (que foi vivido por Scatman Crothers no “O Iluminado” de Stanley Kubrick, de 1980, e por Carl Lumbly em “Doutor Sono”, de 2019) como também tridimensionaliza uma figura rica em carisma e personalidade através de sua própria sorte de conflitos. Os vilões da série não perdem em desenvolvimento: Peter Outerbridge impressiona em suas breves, porém decisivas, aparições como o repulsivo chefe de polícia Clint Bowers, enquanto Madeleine Stowe é agraciada com um dos mais intrigantes desenvolvimentos de personagens aqui, como a dúbia Ingrid Kersh – alguém que pode guardar obscuras, e importantes, conexões com o principal vilão da história.

E, falando nele: é impossível não conferir o título de destaque máximo a Bill Skarsgard, cujo Pennywise é ainda mais impressionante aqui do que em suas aparições anteriores. Nos dois capítulos cinematográficos que se restringiam à trama central do material de origem, a presença em cena do enigmático monstro que dá título à história era mais puramente assustadora, em concordância com o formato. Já aqui, a história é outra: se mantendo tão assustador quanto antes, no entanto, Skarsgard se vê com mais tempo, e espaço, para desenvolver outras camadas e nuances de um vilão tão arquetipicamente mau. Ao ponto de, por vezes, ficar difícil para o espectador ter que se decidir entre a apreensão ou o riso, tamanho o potencial cômico explorado. Não se trata de uma desvirtuação do conceito original: o que se vê é uma cuidadosa interpretação de tudo de mais lúdico que se pode encontrar por trás de uma criatura tão horripilante.

O grande trunfo de Stephen King como autor sempre foi, afinal, o foco centrado não em monstros assustadores ou eventos sobrenaturais, e sim nas emoções e conflitos gerados dentro daqueles que testemunham tais fenômenos surreais e assustadores; não é por acaso que, a despeito dos ótimos valores de produção, e de uma cinematografia digna de cinema, as passagens mais memoráveis de “Bem-Vindos a Derry” são aquelas alicerçadas nas pessoas mundanas, tão normais quanto qualquer outra. Não à toa, se passam cinco episódios até que Pennywise dê as caras, e o efeito passa muito, muito longe de gerar impaciência. Pelo contrário: a sensação é ainda mais recompensadora. A mesma grande virtude de Stephen King, perceptível em tantos daqueles que olham para suas obras em busca de inspiração, é mais do que notável aqui. Não deixa de ser irônico que “It: Bem-Vindo a Derry” (que deve ter outras duas temporadas nos anos seguintes) tenha vindo à luz ao mesmo tempo em que a derradeira quinta temporada de “Stranger Things” (inspirada descaradamente nas histórias de King). Orçamentos milionários, campanhas de marketing onipresentes e estratégias de lançamento truncadas não são capazes, ao final, de suplantar o elemento da imaginação inerente ao ser humano. Se “a ficção é a verdade dentro da mentira”, conforme o próprio King escreveu certa vez, “Bem-Vindos a Derry” alcança seu objetivo com louvor ao, com naturalidade, fazer com que ambos pareçam um só.

 Davi Caro é professor, tradutor, músico, escritor e estudante de Jornalismo. Leia mais textos dele aqui.

2 thoughts on “Crítica: “It: Bem-Vindos a Derry” expande, com louvor, o universo de horror de Stephen King

  1. Amo todos os filmes, livros e séries, de Stephen King. Você se vê dentro do filme, todas as histórias são densas, somente pessoas que gostam de Stephen King, vão entender tudo isso

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